O Filhote de Dinossauro que Nasceu no Chão de Minas

Muito antes de existir Minas Gerais, antes de existir Brasil, antes de existir gente, aquele chão já estava ali.
Era uma planície larga, de terra avermelhada, com rios que enchiam na época das chuvas e secavam no resto do ano. Tinha samambaia grande, tinha araucária, tinha um calor que fazia o ar tremer de longe.
E, num pedaço de areia perto do rio, tinha um ninho.
Dentro de um dos ovos, do tamanho de um coco, uma coisa começou a se mexer.
A casca
O filhote empurrou com o focinho.
A casca não abriu.
Ele empurrou de novo, mais forte, e ouviu um estalinho.
Empurrou mais uma vez, e a luz entrou.
Foi a primeira coisa que ele viu na vida: um risco de luz forte de meio-dia, atravessando a rachadura.
Ele chutou, se contorceu, empurrou com o pescoço, e finalmente rolou para fora, todo molhado, em cima da areia quente.
Era um filhote de titanossauro. Um daqueles dinossauros de pescoço comprido, rabo comprido e tamanho de caminhão.
Quer dizer: tamanho de caminhão quando crescem.
Ele, ali, era do tamanho de um cachorro.
Ninguém esperando
O filhote levantou nas quatro patas, cambaleando, e olhou em volta.
Tinha outras cascas quebradas. Tinha outros filhotes saindo dos ovos, tropeçando na areia, com os pescocinhos molhados.
Mas não tinha nenhum adulto.
Nenhuma mãe, nenhum pai, ninguém grande esperando.
A mãe dele tinha passado por ali muitos meses antes. Tinha cavado a areia com as patas de trás, botado os ovos, coberto com cuidado e seguido viagem com a manada, como faziam os titanossauros.
E agora eram só eles. Um monte de filhote pequeno num mundo enorme.
O que ele ouviu
O filhote ficou parado, sem saber o que fazer, escutando.
E ele ouviu.
Não com o ouvido, exatamente. Ele sentiu no chão.
Bum.
Uma pancada surda, longe. Depois outra.
Bum. Bum.
A areia tremia um pouquinho a cada uma.
Eram passos. Passos muito grandes, muito pesados, muito longe.
Era a manada.
O filhote não sabia o que era manada. Não sabia o que era nada. Mas alguma coisa dentro dele entendeu que aquele tremor no chão era o lugar onde ele precisava chegar.
Então ele começou a andar.
O caminho
Andar era difícil. As pernas ainda eram bambas, e a areia afundava.
Os outros filhotes foram indo junto, meio espalhados, todos na mesma direção, todos seguindo o tremor.
Eles passaram por uma poça de água barrenta e beberam pela primeira vez.
Passaram por uma moita de samambaia e descobriram que folha nova é gostosa.
Passaram por cima de um tronco caído, e o filhote escorregou e caiu de lado, e teve que se virar todo para levantar. Ele ficou bravo. Bufou. E continuou.
Bum. Bum.
O tremor estava mais forte agora.
O perigo
Foi quando o mato do lado esquerdo se mexeu.
Saiu de lá um bicho que o filhote nunca tinha visto: um crocodilo. Mas não um crocodilo baixinho, de perna torta, desses que ficam boiando no rio.
Esse tinha pernas compridas, direitinhas por baixo do corpo, e corria em terra firme como um cachorro grande. E estava vindo direto para eles.
Os filhotes se espalharam correndo, cada um para um lado.
O nosso filhote correu para a moita mais perto e se enfiou no meio das samambaias, encolhido, com o pescocinho colado no chão, sem respirar quase.
O crocodilo passou perto. Tão perto que ele viu a pata dele afundar na areia, do lado da moita.
Depois passou reto, atrás de outro filhote, e sumiu na poeira.
O coração do filhote batia no pescoço.
Ele esperou. Esperou muito.
E, quando o chão tremeu de novo — bum, bum —, ele saiu da moita e continuou andando. Dessa vez, bem colado nas moitas, do jeito que tinha acabado de aprender.
As pernas grandes
O sol já estava quase sumindo quando o filhote chegou.
Primeiro ele viu uma parede. Uma parede cinza, alta, que se mexia.
Depois entendeu que não era parede. Era uma perna.
Ele levantou a cabeça, levantou mais, levantou mais ainda, e lá em cima, muito longe, tinha um pescoço comprido, e uma cabecinha pequena arrancando folha de araucária, sem prestar a menor atenção nele.
Em volta, dezenas de outras pernas enormes andando devagar, num barulho de couro e de folha esmagada.
Era a manada.
O filhote andou para debaixo, entre as pernas, onde o chão era pisado e seguro, e onde os crocodilos de perna comprida não se atreviam a entrar.
E ali, no meio de todos aqueles gigantes, ele finalmente deitou.
Muito tempo depois
Aquele filhote cresceu. Ficou do tamanho de um caminhão, como todos os da família dele.
Andou por aquela planície a vida inteira, comendo folha de araucária lá do alto, seguindo os rios na época da seca, fazendo o chão tremer com os próprios passos para que outros filhotes, muito depois, soubessem para onde ir.
E, quando o tempo passou — muito, muito tempo, tanto tempo que nem dá para contar —, aquela terra avermelhada virou pedra, e a pedra guardou tudo.
Guardou ossos. Guardou dentes. Guardou até cascas de ovo.
Hoje, naquele mesmo chão, num lugar chamado Peirópolis, perto de Uberaba, em Minas Gerais, tem gente que passa o dia inteiro de joelhos na terra, com pincel e martelinho, tirando aqueles pedaços de pedra com muito cuidado.
E, de vez em quando, alguém acha um pedacinho de casca de ovo.
Redondo, fininho, do tamanho de uma unha.
E fica ali segurando na mão, pensando no filhote que saiu de dentro dele e foi andando atrás do tremor do chão.
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