O Corvo e a Jarra

Era uma vez um corvo que morava num campo grande e aberto, onde o sol brilhava o ano inteiro.
O corvo tinha penas pretas e brilhantes, bico forte e olhos muito espertos. Era conhecido por ser um dos pássaros mais inteligentes que existem. Gostava de observar tudo e pensar antes de agir.
Mas, naquele verão, fez um calor como ninguém tinha visto.
O calor
O sol queimava o chão, o capim secou, e os riachos que cortavam o campo foram sumindo, um por um.
Todos os bichos estavam com sede. As vacas procuravam sombra, os coelhos ficavam quietos dentro das tocas, e os passarinhos se escondiam nas árvores.
O corvo voava de um lado para o outro, procurando água.
— Que sede! — dizia ele. — Minha garganta está seca como uma folha de papel.
Voou por cima do rio e viu só pedras. Voou por cima do lago, e só encontrou lama rachada.
A jarra
Já estava quase desistindo quando, lá longe, viu uma casinha abandonada. Pousou e descobriu uma jarra de barro, alta e estreita, em pé perto da porta.
— Uma jarra! — disse o corvo, animado. — Quem sabe tem água!
Chegou perto e espiou dentro dela. No fundo, bem embaixo, via-se um pouquinho de água, brilhando.
— Que sorte! — exclamou.
Enfiou o bico e esticou o pescoço o máximo que pôde.
Mas não alcançou. A água estava funda demais, e o bico dele, curto demais.
A primeira tentativa
— Ora, ora — disse o corvo. — Vou virar a jarra, e a água vai sair.
Colocou o bico na borda da jarra e empurrou, empurrou, com toda a força.
Mas a jarra era grande e pesada. Nem se mexeu.
— Vou tentar de novo.
Empurrou com o peito. Empurrou com as asas. Subiu em cima da jarra e saltou, para ver se ela virava.
Nada. A jarra continuou parada, firme no chão.
O corvo ficou ofegante, com o bico aberto.
— Será que eu vou morrer de sede ao lado de água? — suspirou.
A ideia
Ele se sentou no chão, bem pertinho da jarra, e respirou fundo. Olhou para a água, olhou para o campo, olhou para o céu.
— Calma, corvo — disse a si mesmo. — Você é um dos pássaros mais espertos que existem. Pense com calma. Tem de haver um jeito.
Olhou em volta. No chão, ao lado da jarra, havia muitas pedrinhas pequenas, redondas e lisinhas, de todos os tamanhos.
O corvo olhou para as pedrinhas. Depois olhou para a jarra. Depois para a água.
E, de repente, os olhos dele brilharam.
— Já sei! — disse, rindo.
Uma por uma
Ele pegou uma pedrinha com o bico, voou até a boca da jarra e a deixou cair lá dentro.
Plim!
A pedrinha afundou até o fundo. E a água subiu, só um pouquinho.
— Está funcionando! — gritou o corvo.
Pegou outra pedrinha. Plim! E outra. Plim! E mais outra.
Uma por uma, ele foi jogando as pedrinhas na jarra, sem pressa. A cada pedra, a água subia um pouquinho mais. Estava mais perto do alto, e mais perto do bico do corvo.
Persistir
O sol continuava queimando, e o corvo ficou cansado, ofegante, de bico aberto. Mas não parou.
— Mais uma — dizia, a cada vez. — Só mais uma.
Pedrinha pequena. Pedrinha média. Pedrinha grande, que quase não cabia na boca da jarra.
A tarde foi passando. As sombras ficaram mais compridas. E, de pedra em pedra, a água subiu, subiu, subiu.
Até que, depois de muitas, muitas pedrinhas, chegou perto da borda.
Beber
O corvo olhou para dentro da jarra e viu a água brilhando, quase na altura do bico.
— Consegui! — disse ele, com o coração aos pulos.
Enfiou o bico na água fresca, e bebeu, bebeu, bebeu. Era a água mais gostosa que ele já tinha provado.
Ele bebeu até matar a sede.
Quando terminou, ergueu a cabeça, de olhos fechados, e suspirou, aliviado.
— Que bom que eu pensei com calma — disse. — Se eu tivesse desistido, ainda estaria com sede.
Dividir
O corvo olhou em volta, e viu que outros bichos, de longe, olhavam a jarra, com sede.
Um passarinho. Um coelhinho. Uma tartaruga.
— Venham — chamou o corvo. — Tem água para todos.
Eles se aproximaram, meio tímidos.
— Como você conseguiu? — perguntou o coelhinho.
— Com pedrinhas — disse o corvo. — Uma de cada vez. E muita paciência.
Os bichos aprenderam a lição, e ajudaram a juntar mais pedrinhas. Quando o último deles bebeu, a jarra ainda tinha um fundinho de água.
Boa noite
Ao entardecer, o calor foi diminuindo, e uma brisa fresca começou a soprar. O corvo voltou para a árvore de sempre e se acomodou num galho.
O céu ficou cor de laranja, e depois azul-escuro, cheio de estrelas.
O corvo olhou para a lua, pensando no dia que tinha tido.
— Quando a gente não sabe como resolver um problema — murmurou —, o melhor é respirar fundo e pensar. Sempre aparece uma ideia.
Fechou os olhos e dormiu.
Boa noite, pequeno leitor. Com calma e persistência, uma pedrinha de cada vez, a gente chega lá.
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