O Corvo e a Jarra

4 min de leituraHistorinha para dormir
O Corvo e a Jarra
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Era uma vez um corvo que morava num campo grande e aberto, onde o sol brilhava o ano inteiro.

O corvo tinha penas pretas e brilhantes, bico forte e olhos muito espertos. Era conhecido por ser um dos pássaros mais inteligentes que existem. Gostava de observar tudo e pensar antes de agir.

Mas, naquele verão, fez um calor como ninguém tinha visto.

O calor

O sol queimava o chão, o capim secou, e os riachos que cortavam o campo foram sumindo, um por um.

Todos os bichos estavam com sede. As vacas procuravam sombra, os coelhos ficavam quietos dentro das tocas, e os passarinhos se escondiam nas árvores.

O corvo voava de um lado para o outro, procurando água.

— Que sede! — dizia ele. — Minha garganta está seca como uma folha de papel.

Voou por cima do rio e viu só pedras. Voou por cima do lago, e só encontrou lama rachada.

A jarra

Já estava quase desistindo quando, lá longe, viu uma casinha abandonada. Pousou e descobriu uma jarra de barro, alta e estreita, em pé perto da porta.

— Uma jarra! — disse o corvo, animado. — Quem sabe tem água!

Chegou perto e espiou dentro dela. No fundo, bem embaixo, via-se um pouquinho de água, brilhando.

— Que sorte! — exclamou.

Enfiou o bico e esticou o pescoço o máximo que pôde.

Mas não alcançou. A água estava funda demais, e o bico dele, curto demais.

A primeira tentativa

— Ora, ora — disse o corvo. — Vou virar a jarra, e a água vai sair.

Colocou o bico na borda da jarra e empurrou, empurrou, com toda a força.

Mas a jarra era grande e pesada. Nem se mexeu.

— Vou tentar de novo.

Empurrou com o peito. Empurrou com as asas. Subiu em cima da jarra e saltou, para ver se ela virava.

Nada. A jarra continuou parada, firme no chão.

O corvo ficou ofegante, com o bico aberto.

— Será que eu vou morrer de sede ao lado de água? — suspirou.

A ideia

Ele se sentou no chão, bem pertinho da jarra, e respirou fundo. Olhou para a água, olhou para o campo, olhou para o céu.

— Calma, corvo — disse a si mesmo. — Você é um dos pássaros mais espertos que existem. Pense com calma. Tem de haver um jeito.

Olhou em volta. No chão, ao lado da jarra, havia muitas pedrinhas pequenas, redondas e lisinhas, de todos os tamanhos.

O corvo olhou para as pedrinhas. Depois olhou para a jarra. Depois para a água.

E, de repente, os olhos dele brilharam.

— Já sei! — disse, rindo.

Uma por uma

Ele pegou uma pedrinha com o bico, voou até a boca da jarra e a deixou cair lá dentro.

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Plim!

A pedrinha afundou até o fundo. E a água subiu, só um pouquinho.

— Está funcionando! — gritou o corvo.

Pegou outra pedrinha. Plim! E outra. Plim! E mais outra.

Uma por uma, ele foi jogando as pedrinhas na jarra, sem pressa. A cada pedra, a água subia um pouquinho mais. Estava mais perto do alto, e mais perto do bico do corvo.

Persistir

O sol continuava queimando, e o corvo ficou cansado, ofegante, de bico aberto. Mas não parou.

— Mais uma — dizia, a cada vez. — Só mais uma.

Pedrinha pequena. Pedrinha média. Pedrinha grande, que quase não cabia na boca da jarra.

A tarde foi passando. As sombras ficaram mais compridas. E, de pedra em pedra, a água subiu, subiu, subiu.

Até que, depois de muitas, muitas pedrinhas, chegou perto da borda.

Beber

O corvo olhou para dentro da jarra e viu a água brilhando, quase na altura do bico.

— Consegui! — disse ele, com o coração aos pulos.

Enfiou o bico na água fresca, e bebeu, bebeu, bebeu. Era a água mais gostosa que ele já tinha provado.

Ele bebeu até matar a sede.

Quando terminou, ergueu a cabeça, de olhos fechados, e suspirou, aliviado.

— Que bom que eu pensei com calma — disse. — Se eu tivesse desistido, ainda estaria com sede.

Dividir

O corvo olhou em volta, e viu que outros bichos, de longe, olhavam a jarra, com sede.

Um passarinho. Um coelhinho. Uma tartaruga.

— Venham — chamou o corvo. — Tem água para todos.

Eles se aproximaram, meio tímidos.

— Como você conseguiu? — perguntou o coelhinho.

— Com pedrinhas — disse o corvo. — Uma de cada vez. E muita paciência.

Os bichos aprenderam a lição, e ajudaram a juntar mais pedrinhas. Quando o último deles bebeu, a jarra ainda tinha um fundinho de água.

Boa noite

Ao entardecer, o calor foi diminuindo, e uma brisa fresca começou a soprar. O corvo voltou para a árvore de sempre e se acomodou num galho.

O céu ficou cor de laranja, e depois azul-escuro, cheio de estrelas.

O corvo olhou para a lua, pensando no dia que tinha tido.

— Quando a gente não sabe como resolver um problema — murmurou —, o melhor é respirar fundo e pensar. Sempre aparece uma ideia.

Fechou os olhos e dormiu.

Boa noite, pequeno leitor. Com calma e persistência, uma pedrinha de cada vez, a gente chega lá.

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