O Chifre Torto do Tricerátops

4 min de leituraHistorinha para dormir
O Chifre Torto do Tricerátops
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Há muito, muito tempo, uns sessenta e seis milhões de anos, numa planície cheia de samambaias perto de um rio, vivia uma manada de tricerátops.

Tricerátops eram dinossauros enormes e pesados, do tamanho de um caminhão. Comiam planta o dia inteiro, cortando as folhas com o bico duro que tinham na boca, parecido com bico de papagaio. Na cabeça, tinham um babado de osso em volta do pescoço, parecendo uma gola, e três chifres: dois compridos em cima dos olhos e um curtinho no nariz.

Era daí que vinha o nome deles: tricerátops quer dizer "cara de três chifres".

E, na turma de filhotes da manada, um dos menores era o Tuco.

Os chifres para trás

O Tuco tinha um problema.

Os chifres dos adultos da manada eram compridos e apontavam para a frente, fortes e retos, feito duas lanças. Quando os tricerátops grandes baixavam a cabeça, pareciam uma muralha.

Os chifres do Tuco eram pequenininhos.

E apontavam para trás.

Curvadinhos, virados na direção das costas, como se tivessem nascido com vergonha.

— Olha o chifre do Tuco! — riam os outros filhotes. — Tá virado ao contrário!

— Se aparecer um tiranossauro, o Tuco vai ter que andar de ré para se defender!

O Tuco ria junto, para ninguém perceber que tinha ficado chateado. Mas, de noite, quando a manada dormia, ele ia até o rio e ficava olhando o reflexo, empurrando os chifrinhos com a pata para ver se eles viravam.

Não viravam.

A avó Nana

Na manada tinha uma tricerátops muito velha, a avó Nana.

Ela era a maior de todos. A pele dela era enrugada feito casca de árvore, o babado tinha marcas de muitas aventuras e os chifres eram os mais compridos da planície.

Uma noite, ela encontrou o Tuco na beira do rio, empurrando os chifres com a pata.

— O que você está fazendo, pequeno?

— Tentando desentortar — disse o Tuco, sem olhar para ela. — Meus chifres nasceram errados.

A avó Nana deitou devagar na areia do lado dele. Deitar, para um bicho daquele tamanho, era uma coisa demorada.

— Deixa eu te contar uma coisa que os grandes da manada esqueceram — disse ela. — Quando eu era filhote, os meus chifres também eram assim.

O Tuco virou a cabeça tão rápido que quase caiu.

— Mentira.

— Para trás. Curvadinhos. Iguaizinhos aos seus.

Todos os filhotes

— Mas os outros filhotes têm chifre para a frente! — disse o Tuco.

— Olha de novo amanhã — disse a avó. — Com calma.

No dia seguinte, o Tuco olhou.

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E reparou numa coisa que nunca tinha reparado. Os filhotes que riam dele eram mais velhos. Tinham nascido algumas estações antes. E os chifres deles… não eram retos como os dos adultos. Estavam no meio do caminho, meio de lado, desentortando.

E o filhote mais novinho de todos, que tinha nascido fazia pouco tempo e ainda andava grudado na mãe, tinha chifrinhos virados para trás.

Igual ao Tuco.

Ele voltou correndo até a avó Nana.

— Eles vão virar!

— Vão — disse a avó. — Todo tricerátops pequeno tem os chifres assim. Conforme a gente cresce, eles vão endireitando, bem devagarinho, até apontar para a frente. Ninguém percebe a mudança. Um dia você olha no rio e eles estão lá.

O dia do perigo

Algumas semanas depois, a manada estava comendo samambaia perto da floresta quando o chão tremeu.

Um tiranossauro.

Os adultos agiram na hora: fizeram uma roda, com os filhotes no meio e os chifres grandes todos virados para fora. O tiranossauro rondou, rosnou, abriu a boca cheia de dentes… e desistiu.

No meio da roda, apertado entre as pernas dos grandes, o Tuco tremia.

Aí ele olhou para a avó Nana, lá na frente, com o babado erguido e os chifres compridos baixados, parada feito uma montanha.

E pensou: um dia, os meus vão ser assim.

Pela primeira vez, ele não teve vergonha dos chifres. Teve paciência com eles.

O filhote novo

Muitas estações passaram.

O Tuco cresceu. Ficou pesado. O babado alargou. E, numa manhã, bebendo água no rio, ele viu o reflexo e levou um susto: os chifres estavam retos. Compridos. Apontando para a frente.

Ele nem tinha percebido a mudança.

Naquela mesma tarde, ele ouviu uns risinhos atrás das samambaias.

— Olha o chifre dele! Tá virado ao contrário!

Era um filhote novinho da manada, com os chifrinhos curvados para trás, encolhido enquanto os mais velhos riam.

O Tuco foi até lá, deitou devagar entre as samambaias, do lado do pequeno, como a avó tinha feito com ele, e disse:

— Deixa eu te contar uma coisa que os grandes da manada esquecem.

E contou.

Uma curiosidade de verdade

Essa parte da história é verdade de verdade. Os cientistas que estudam os fósseis de tricerátops descobriram que os filhotes tinham mesmo os chifres curvados para trás. Com o passar dos anos, os chifres iam mudando de direção até apontar para a frente, como os dos adultos.

Ou seja: o Tuco não tinha nascido errado.

Tinha nascido no começo.

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