O Chifre Torto do Tricerátops

Há muito, muito tempo, uns sessenta e seis milhões de anos, numa planície cheia de samambaias perto de um rio, vivia uma manada de tricerátops.
Tricerátops eram dinossauros enormes e pesados, do tamanho de um caminhão. Comiam planta o dia inteiro, cortando as folhas com o bico duro que tinham na boca, parecido com bico de papagaio. Na cabeça, tinham um babado de osso em volta do pescoço, parecendo uma gola, e três chifres: dois compridos em cima dos olhos e um curtinho no nariz.
Era daí que vinha o nome deles: tricerátops quer dizer "cara de três chifres".
E, na turma de filhotes da manada, um dos menores era o Tuco.
Os chifres para trás
O Tuco tinha um problema.
Os chifres dos adultos da manada eram compridos e apontavam para a frente, fortes e retos, feito duas lanças. Quando os tricerátops grandes baixavam a cabeça, pareciam uma muralha.
Os chifres do Tuco eram pequenininhos.
E apontavam para trás.
Curvadinhos, virados na direção das costas, como se tivessem nascido com vergonha.
— Olha o chifre do Tuco! — riam os outros filhotes. — Tá virado ao contrário!
— Se aparecer um tiranossauro, o Tuco vai ter que andar de ré para se defender!
O Tuco ria junto, para ninguém perceber que tinha ficado chateado. Mas, de noite, quando a manada dormia, ele ia até o rio e ficava olhando o reflexo, empurrando os chifrinhos com a pata para ver se eles viravam.
Não viravam.
A avó Nana
Na manada tinha uma tricerátops muito velha, a avó Nana.
Ela era a maior de todos. A pele dela era enrugada feito casca de árvore, o babado tinha marcas de muitas aventuras e os chifres eram os mais compridos da planície.
Uma noite, ela encontrou o Tuco na beira do rio, empurrando os chifres com a pata.
— O que você está fazendo, pequeno?
— Tentando desentortar — disse o Tuco, sem olhar para ela. — Meus chifres nasceram errados.
A avó Nana deitou devagar na areia do lado dele. Deitar, para um bicho daquele tamanho, era uma coisa demorada.
— Deixa eu te contar uma coisa que os grandes da manada esqueceram — disse ela. — Quando eu era filhote, os meus chifres também eram assim.
O Tuco virou a cabeça tão rápido que quase caiu.
— Mentira.
— Para trás. Curvadinhos. Iguaizinhos aos seus.
Todos os filhotes
— Mas os outros filhotes têm chifre para a frente! — disse o Tuco.
— Olha de novo amanhã — disse a avó. — Com calma.
No dia seguinte, o Tuco olhou.
E reparou numa coisa que nunca tinha reparado. Os filhotes que riam dele eram mais velhos. Tinham nascido algumas estações antes. E os chifres deles… não eram retos como os dos adultos. Estavam no meio do caminho, meio de lado, desentortando.
E o filhote mais novinho de todos, que tinha nascido fazia pouco tempo e ainda andava grudado na mãe, tinha chifrinhos virados para trás.
Igual ao Tuco.
Ele voltou correndo até a avó Nana.
— Eles vão virar!
— Vão — disse a avó. — Todo tricerátops pequeno tem os chifres assim. Conforme a gente cresce, eles vão endireitando, bem devagarinho, até apontar para a frente. Ninguém percebe a mudança. Um dia você olha no rio e eles estão lá.
O dia do perigo
Algumas semanas depois, a manada estava comendo samambaia perto da floresta quando o chão tremeu.
Um tiranossauro.
Os adultos agiram na hora: fizeram uma roda, com os filhotes no meio e os chifres grandes todos virados para fora. O tiranossauro rondou, rosnou, abriu a boca cheia de dentes… e desistiu.
No meio da roda, apertado entre as pernas dos grandes, o Tuco tremia.
Aí ele olhou para a avó Nana, lá na frente, com o babado erguido e os chifres compridos baixados, parada feito uma montanha.
E pensou: um dia, os meus vão ser assim.
Pela primeira vez, ele não teve vergonha dos chifres. Teve paciência com eles.
O filhote novo
Muitas estações passaram.
O Tuco cresceu. Ficou pesado. O babado alargou. E, numa manhã, bebendo água no rio, ele viu o reflexo e levou um susto: os chifres estavam retos. Compridos. Apontando para a frente.
Ele nem tinha percebido a mudança.
Naquela mesma tarde, ele ouviu uns risinhos atrás das samambaias.
— Olha o chifre dele! Tá virado ao contrário!
Era um filhote novinho da manada, com os chifrinhos curvados para trás, encolhido enquanto os mais velhos riam.
O Tuco foi até lá, deitou devagar entre as samambaias, do lado do pequeno, como a avó tinha feito com ele, e disse:
— Deixa eu te contar uma coisa que os grandes da manada esquecem.
E contou.
Uma curiosidade de verdade
Essa parte da história é verdade de verdade. Os cientistas que estudam os fósseis de tricerátops descobriram que os filhotes tinham mesmo os chifres curvados para trás. Com o passar dos anos, os chifres iam mudando de direção até apontar para a frente, como os dos adultos.
Ou seja: o Tuco não tinha nascido errado.
Tinha nascido no começo.
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