O Carrinho de Rolimã do Benê

Na Rua do Sabiá tinha uma ladeira comprida, de paralelepípedo, que descia da padaria até a praça.
E, todo ano, no último sábado das férias de julho, a criançada da rua fazia ali a Grande Corrida de Rolimã.
O Benê tinha nove anos e nunca tinha corrido.
Não era falta de vontade. Era falta de carrinho.
Tábua, prego e três rolimãs
Carrinho de rolimã não se compra. Se constrói.
E o Benê decidiu construir o dele sozinho.
Pegou uma tábua comprida de um caixote de feira. Pegou um pedaço de caibro da obra do vizinho, pedindo licença antes. Pediu na oficina do Seu Jorginho uns rolimãs velhos, daqueles anéis de aço com bolinhas dentro que giram macio. O Seu Jorginho deu três, sujos de graxa.
— Carrinho precisa de quatro — disse o Benê.
— Então vai precisar achar mais um — disse Seu Jorginho, voltando pro motor que estava consertando.
O Benê achou o quarto no fundo de uma lata de parafuso do avô, depois de revirar a garagem inteira.
Ele pregou, serrou, martelou o dedo duas vezes, pintou a tábua de azul com a tinta que sobrou da janela e desenhou um número 7 branco na frente, porque sete era a idade que ele tinha quando viu a primeira corrida.
Ficou torto. Mas ficou dele.
A primeira quebra
Faltando duas semanas para a corrida, o Benê levou o carrinho para o alto da ladeira para testar.
Sentou. Segurou a cordinha da direção. Tirou os pés do chão.
O carrinho desceu uns dez metros, fez um barulhão de metal e a roda da frente saiu voando para dentro de um bueiro.
O Benê foi parar no meio-fio, com o joelho ralado.
Os meninos da rua riram. Não de maldade. Riram porque tinha sido engraçado mesmo.
O Benê também riu. Depois foi para casa, lavou o joelho e ficou olhando para o carrinho sem roda.
A segunda e a terceira
O avô ajudou a pescar o rolimã do bueiro com um arame. Ele voltou sujo, mas inteiro.
Dessa vez o Benê prendeu o eixo com dois pregos em vez de um.
No segundo teste, o eixo da frente aguentou. Quem não aguentou foi o freio, que era um pedaço de madeira que raspava no chão quando ele puxava. Partiu no meio da ladeira. O Benê teve que frear com o tênis, que ficou com a sola fumegando.
No terceiro teste, com um freio novo, a tábua rachou bem no meio, com um crec tão alto que a Dona Nena apareceu na janela.
O Benê sentou no chão, com o carrinho partido no colo.
Faltavam quatro dias.
O conselho do Seu Jorginho
Naquela tarde, ele levou os pedaços para a oficina. Não para pedir ajuda. Só porque não sabia o que fazer com eles.
E, enquanto o Seu Jorginho olhava, o Benê contou tudo: a roda no bueiro, o freio partido, a tábua rachada.
O Seu Jorginho limpou as mãos num pano, olhou tudo com calma e disse:
— Quebrou três vezes.
— Quebrou.
— E cada vez quebrou num lugar diferente.
O Benê não tinha pensado nisso.
— Na primeira foi a roda. Você arrumou, e a roda não saiu mais. Na segunda foi o freio. Você arrumou, e o freio aguentou. Agora foi a tábua. — Ele pegou os dois pedaços e juntou. — Carrinho que quebra sempre no mesmo lugar é carrinho ruim. Carrinho que quebra cada vez num lugar novo é carrinho que tá ficando bom.
Aí ele foi até o fundo da oficina e voltou com uma tábua grossa de madeira de lei, lisa e pesada.
— Essa é presente. O resto é com você.
A quarta vez
O Benê passou os três dias seguintes montando o carrinho de novo, do zero.
Aproveitou tudo o que tinha aprendido. Roda presa com parafuso e porca, com a chave que o Seu Jorginho emprestou. Freio de pedaço de pneu velho, que raspava no chão sem partir. Tábua nova, pintada de azul, com o 7 branco na frente, redesenhado com mais capricho.
Na véspera da corrida, ele testou uma vez só, devagar, até o meio da ladeira.
Nada quebrou.
A Grande Corrida
No sábado, a Rua do Sabiá foi fechada para os carros e encheu de gente.
O Benê chegou de camiseta vermelha, boné virado para trás e um band-aid no joelho. O machucado já tinha sarado fazia tempo, mas ele achou que o band-aid dava sorte.
Tinha nove carrinhos no alto da ladeira. Alguns lindos, pintados com spray, com volante de verdade. O do Kauã tinha até buzina.
O do Benê era o mais simples de todos.
A Dona Nena baixou uma bandeirinha feita de pano de prato.
E os nove desceram.
O vento bateu na cara do Benê. O paralelepípedo fazia a tábua tremer inteira, e o barulho dos rolimãs era um trovão. Ele segurou firme a cordinha, se abaixou para cortar o vento e desceu.
No meio da ladeira, dois carrinhos se enroscaram e foram parar na calçada. Um outro perdeu a roda — o Benê viu ela passar quicando do lado dele e pensou: essa eu conheço.
Ele não chegou em primeiro. O Kauã chegou, buzinando.
Ele não chegou em segundo.
Chegou em terceiro, inteiro, com o carrinho inteiro, e freou certinho em frente à praça, com o pedaço de pneu chiando no chão.
O carrinho mais visitado
A criançada fez fila para ver o carrinho azul de perto.
— Foi você que fez sozinho? — perguntou uma menina menor.
— Fiz — disse o Benê. — Quatro vezes. Com uma ajudinha.
Seu Jorginho, que estava assistindo da porta da oficina, não disse nada. Só levantou o polegar sujo de graxa.
Naquela noite, o Benê guardou o carrinho embaixo da cama. Antes de dormir, girou com o dedo o rolimã da frente. Era o mesmo que tinha voado para dentro do bueiro no primeiro teste, e que ele tinha feito questão de manter no carrinho novo.
Estava ali para lembrar que o carrinho não tinha nascido pronto.
Ninguém nasce.
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