Pedro e a Viagem de Rede pelo Rio Amazonas

5 min de leituraHistorinha para dormir
Pedro e a Viagem de Rede pelo Rio Amazonas
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A avó do Pedro morava em Santarém, no Pará, bem longe de Belém, onde ele vivia com a mãe.

Para chegar lá, dava para ir de avião. Mas a mãe dele tinha outra ideia.

— Vamos de barco. Do jeito que eu ia quando era pequena.

— Quanto tempo demora? — perguntou Pedro.

— Quase três dias.

Pedro achou que a mãe estava brincando. Não estava.

O barco das redes

O barco se chamava Estrela do Tapajós. Era de madeira, pintado de branco e azul, com três andares.

E não tinha quarto. Pelo menos não para eles. No andar do meio, o convés era um salão comprido, com o teto cheio de ganchos. E cada passageiro chegava com a sua rede debaixo do braço e pendurava onde encontrava lugar.

Quando o barco saiu do porto, Pedro olhou em volta e não acreditou.

Eram dezenas de redes, uma do lado da outra, tão juntas que quase se encostavam. Rede listrada, rede vermelha, rede de franja, rede azul-clara com passarinho bordado. Tinha gente dormindo, gente conversando, gente ouvindo rádio, criança pulando de uma rede para a outra.

A rede do Pedro era verde e amarela. A da mãe, logo ao lado, era laranja.

Quando o barco balançava, todas as redes balançavam juntas, para um lado e para o outro, como se o salão inteiro estivesse respirando.

Seu Raimundo

Na rede do outro lado do Pedro estava um senhor bem velhinho, de chapéu de palha, que se chamava Seu Raimundo.

Seu Raimundo tinha feito aquela viagem mais vezes do que conseguia contar. Conhecia cada curva do rio, cada comunidade da margem, cada casinha de palafita.

— Tá vendo aquelas canoas? — ele apontou, quando o barco diminuiu a velocidade perto de uma vila.

Pedro olhou. De várias casinhas na beira do rio saíam canoas pequenas, que remavam rápido até encostar no barco. Nelas vinham pessoas vendendo açaí, camarão seco, farinha e bolo embrulhado em folha.

— Aqui o rio é a estrada — explicou Seu Raimundo. — E o barco é o ônibus.

À noite, com a lanterna do barco balançando no teto, Seu Raimundo contou a lenda do boto: que, nas noites de festa, o boto cor-de-rosa sai da água, vira um moço bonito de roupa branca e chapéu, e vai dançar nas festas da beira do rio.

— Por isso ele usa chapéu — cochichou Seu Raimundo. — Pra esconder o buraquinho que tem na cabeça, por onde ele respira.

A mãe do Pedro, na rede laranja, revirou os olhos e riu.

— Mãe, o boto existe?

— O boto existe. Ele mora nesse rio. — Ela piscou. — A parte do chapéu eu deixo você decidir.

O temporal

Na segunda tarde de viagem, o céu escureceu de repente.

Na Amazônia, a chuva não avisa. Ela chega. Primeiro veio um vento forte, que fez as redes balançarem todas para o mesmo lado. Depois, o céu ficou preto como café. E aí caiu a chuva: grossa, barulhenta, batendo no teto do barco como se fossem mil tambores.

Os ajudantes do barco correram para baixar as lonas das laterais. O rio, que era calmo, ficou cheio de ondas marrons. O barco começou a jogar para lá e para cá.

Pedro se agarrou nas cordas da rede. O coração dele batia rápido.

— Mãe…

— Tô aqui.

Do outro lado, Seu Raimundo não parecia nem um pouco preocupado. Ele esticou o braço e segurou a ponta da rede do Pedro.

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— Presta atenção no relâmpago — ele disse. — Quando ele clarear, olha para a margem.

Um relâmpago clareou tudo. Por um segundo, Pedro viu a floresta inteira na beira do rio: as árvores enormes, escuras, balançando com o vento.

— Viu? A margem tá ali. O comandante sabe onde ela está. Ele faz esse caminho há vinte anos. Chuva de rio é assim: vem brava e vai embora rápido.

E foi exatamente o que aconteceu. Meia hora depois, a chuva virou garoa. A garoa virou nada. As lonas subiram de novo. E o rio voltou a ficar calmo e liso, refletindo um céu todo lavado, cor de laranja.

Pedro soltou as cordas da rede. As mãos dele estavam marcadas de tanto apertar.

— Eu não tive medo — ele disse.

— Eu sei — respondeu Seu Raimundo, sério. — Eu também não.

E os dois riram.

O encontro cor-de-rosa

No terceiro dia, Pedro acordou bem cedinho, antes de todo mundo. O salão das redes estava silencioso, só com o barulho do motor e de alguém roncando lá no fundo.

Ele desceu da rede na ponta dos pés e foi até a grade do barco.

O sol estava nascendo. Tinha uma névoa branquinha deitada em cima da água, e o céu estava rosa e dourado.

E foi aí que ele ouviu.

Fffff.

Um sopro. Bem perto.

Pedro olhou para baixo. Das águas marrons do rio, subiu devagar um dorso curvo, liso e brilhante. Depois outro. E outro.

Eram rosa. Rosa de verdade, cor de chiclete.

Um dos botos levantou a cabeça fora da água, com o bico comprido, e parecia olhar direto para ele. Depois soltou outro sopro, fffff, e mergulhou.

Pedro ficou tão parado que esqueceu de respirar.

Quando virou para trás, Seu Raimundo estava do lado dele, de chapéu, com um sorriso de quem já sabia.

— Viu o chapéu dele?

— Não — disse Pedro. — Mas eu vi o buraquinho.

Duas águas

Naquela tarde, o barco chegou em Santarém.

E, antes de encostar no porto, Pedro viu uma última coisa que parecia mágica: o rio tinha duas cores. De um lado, a água marrom do Rio Amazonas. Do outro, a água azul-esverdeada do Rio Tapajós. As duas corriam lado a lado, sem se misturar, como se tivesse uma linha desenhada no meio.

— Parece que alguém derramou chocolate numa piscina e esqueceu de mexer — disse Pedro.

A avó dele estava esperando no porto, acenando com um pano de prato.

A primeira noite

Na casa da avó, Pedro ganhou uma rede pendurada na varanda.

A rede estava parada. A casa estava parada. Mas, de olhos fechados, Pedro ainda sentia tudo balançando devagarinho, para um lado e para o outro, como o barco no rio.

Ele pensou nas dezenas de redes do salão, balançando juntas. Pensou no relâmpago iluminando a floresta. Pensou nos botos cor-de-rosa soprando na névoa.

E dormiu embalado por um rio que já não estava ali, mas que continuava correndo dentro dele.

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