A Noite das Tartaruguinhas

A tia da Sofia trabalhava com tartarugas.
Não em aquário, não em zoológico. Na praia mesmo. Ela andava de bermuda e camiseta o dia inteiro, com um caderno numa mão e uma trena na outra, marcando na areia o lugar onde as tartarugas tinham botado ovos.
Naquele janeiro, a Sofia foi passar as férias com ela, no litoral da Bahia.
E fez um pedido logo no primeiro dia:
— Tia. Eu quero ver os filhotes saírem.
A tia riu.
— Todo mundo quer. Mas eles não avisam a hora.
A regra estranha
Mesmo assim, ela levou a Sofia para conhecer o trabalho.
Tinha uma parte da praia cheia de ninhos marcados com estaquinhas de madeira e uma tela baixinha em volta de cada um, para os caranguejos e os cachorros não mexerem.
Em cada estaca, uma plaquinha com a data.
— Esse aqui — disse a tia, apontando um — foi botado há cinquenta e um dias. Tá quase.
Foi quando ela deu a regra.
— Se a gente vier de noite, tem uma coisa que você não pode esquecer nunca: lanterna branca, nunca. Só a vermelha.
Sofia achou aquilo a coisa mais sem sentido do mundo.
— Mas a vermelha ilumina menos.
— Ilumina.
— Então por quê?
A tia olhou para o mar e pensou como explicar.
— Você vai entender melhor vendo. Confia em mim até lá?
Sofia confiou. Mas continuou achando esquisito.
A espera
Na terceira noite, às nove e meia, ligaram para a tia lá da praia: a areia do ninho tinha começado a afundar.
Ela desligou, olhou para a Sofia e disse só uma palavra:
— Vamos.
Sofia calçou o chinelo mais rápido da vida dela.
A praia de noite era outro lugar. A areia estava fria. O mar fazia um barulho grande, escuro, que parecia vir de todo lado ao mesmo tempo. E o céu, longe das luzes da cidade, tinha tanta estrela que dava vontade de deitar e ficar olhando.
Elas chegaram no ninho e sentaram na areia, a uns dois passos de distância.
E esperaram.
Uma hora. Depois mais um pouco.
Sofia já estava com a cabeça pesada, quase dormindo no ombro da tia, quando ouviu um barulhinho.
Um chiado baixinho de areia se mexendo.
A areia que respira
No meio do ninho, a areia afundou um pouquinho. Como se alguém tivesse puxado a areia por baixo.
Depois afundou mais.
E então, de repente, a areia começou a ferver.
Foi assim que Sofia descreveu depois: pareceu que a areia estava fervendo. Dezenas de cabecinhas escuras furando a superfície ao mesmo tempo, umas em cima das outras, patinhas pretas se mexendo, um monte de bichinhos molhados e brilhantes saindo de dentro do chão.
Eram filhotes de tartaruga. Cada um do tamanho da palma da mão da Sofia.
— Tia! — ela cochichou, apertando o braço da tia com força. — Tia, tia, tia!
— Tô vendo. Fica quietinha.
A tia acendeu a lanterna vermelha e apoiou a lanterna na areia, apontada para o chão. Depois tirou a telinha do caminho, com cuidado, e abriu a passagem para o mar. Tudo ficou com um brilho avermelhado, fraquinho, suficiente só para enxergar os contornos.
Para o mar
E os filhotes começaram a andar.
Todos para o mesmo lado. Todos para o mar.
Eles caíam, viravam de barriga para cima, se endireitavam com um esforço danado e continuavam. As patinhas da frente remavam na areia seca. Passavam por cima de conchinha, de galho, de pegada de gente.
Sofia viu um filhote quase desistir numa valeta e quis pegar o filhote no colo. Esticou a mão.
— Não — disse a tia, baixinho. — Deixa ele andar.
— Mas ele tá com dificuldade!
— É essa caminhada que ensina o caminho pra ele. Se a gente carrega, a gente estraga.
Sofia recolheu a mão. Ficou torcendo com a boca fechada, o coração aos pulos, até o filhote sair da valeta sozinho e continuar.
A lanterna
Foi nessa hora que apareceu um casal de turistas na praia, conversando alto.
Quando viram os filhotes, o moço deu um grito de alegria e fez a coisa mais natural do mundo: puxou o celular e acendeu a lanterna branca para filmar.
O que aconteceu foi imediato.
Uns dez filhotes que estavam indo para o mar viraram. Todos ao mesmo tempo, como se alguém tivesse puxado um cordão, eles giraram e começaram a andar na direção da luz branca. Para longe da água. Para o lado errado.
— Apaga! — falou a tia, sem gritar, mas com uma voz que não dava para discutir. — Por favor, apaga agora.
O moço apagou, assustado. Os dois ficaram de longe, quietos, vendo o resto.
Levou uns segundos. E aí, um por um, os filhotes foram virando de volta e retomando o caminho do mar.
Sofia ficou com o coração batendo no pescoço.
— Tia… eles vão pra luz.
— Vão. — A tia falou olhando os filhotes. — Quando eles saem do ninho, procuram a parte mais clara do horizonte. Que sempre foi o mar, com o brilho da lua e das estrelas na água. Milhões de anos funcionando assim.
— E aí chegou a gente com as luzes.
— E aí chegou a gente. Uma lanterna, um poste, um hotel. E eles andam pro lado contrário, pra cidade. E não chegam.
Sofia olhou para a lanterna vermelha, apoiada na areia.
— Essa aqui eles não enxergam desse jeito — disse a tia. — Por isso vermelha.
Sofia não achou mais a regra nem um pouquinho esquisita.
A última
Os filhotes chegaram na parte molhada, onde a espuma da onda escorre.
A primeira onda pegou os da frente e levou embora, num puxão só.
Depois outra levou mais um monte.
Sofia acompanhou até o último. Era o da valeta, o mais devagar de todos. Ele chegou na beirada, tomou uma ondinha no rosto, quase voltou rolando, se firmou, deu mais três remadas e sumiu na água escura.
Ficou a areia vazia, cheia de risquinhos de patinha, como se alguém tivesse passado um pente por ali.
Na volta
Andando de volta para casa, com o chinelo na mão, Sofia perguntou:
— Tia. Quantos voltam?
A tia demorou para responder.
— Pouquinhos. O mar é grande e é difícil. Mas as fêmeas que conseguem voltam pra botar ovos na mesma praia onde nasceram. Daqui a uns trinta anos, uma delas pode subir bem naquele pedaço de areia.
Sofia olhou para trás, para o escuro.
— Então uma daquelas ali pode voltar.
— Pode.
Naquela noite, deitada com os pés ainda cheios de areia, Sofia ficou de olhos abertos no escuro, ouvindo o barulho do mar pela janela.
Ela pensou no filhote da valeta, nadando lá fora, sozinho, no meio daquela água toda.
E prometeu para si mesma que, quando fosse gente grande, ela ia estar naquela praia. De lanterna vermelha. Esperando.
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