O Carneirinho Número Quarenta e Sete

A Lívia tinha seis anos e um problema: o sono dela demorava para chegar.
Ela deitava, apagava a luz, virava para um lado, virava para o outro, e nada.
Então a vó dela ensinou um truque antigo.
— Fecha os olhos e imagina um campo — disse a vó. — No meio do campo tem uma cerquinha. E aí vêm os carneirinhos, um de cada vez, pulando a cerca. Você vai contando. Antes de chegar no cem, você dorme.
A Lívia achou aquilo meio bobo.
Mas tentou.
O campo
Ela fechou os olhos e imaginou o campo.
Era um campo de grama macia, azulada por causa da noite, com uma lua redonda e amarela lá em cima. No meio, uma cerquinha de madeira, baixinha.
E aí veio o primeiro carneirinho. Branco, fofo, redondo feito uma nuvem com pernas. Ele tomou distância, correu e pulou a cerca com um hop.
— Um — contou a Lívia.
Hop. Dois.
Hop. Três.
Funcionava. Tinha noite em que ela dormia no dezoito. Noutras, em vinte e poucos. Numa noite difícil, chegou a quarenta e um.
Os carneirinhos eram sempre os mesmos, e com o tempo ela foi conhecendo um por um. O sete tinha uma orelha dobrada. O doze pulava de olhos fechados. O trinta sempre esbarrava de leve na cerca e fingia que não tinha esbarrado.
A noite do quarenta e sete
Numa noite de inverno, a Lívia estava especialmente acordada.
Ela contou até dez. Até vinte. Até trinta. Até quarenta. O sono não vinha.
Quarenta e cinco. Quarenta e seis.
E aí o carneirinho quarenta e sete chegou na frente da cerca… e parou.
Não pulou.
Ficou ali, olhando para a cerca. Depois olhou para a Lívia. E sentou na grama.
— Ué — disse a Lívia, lá no pensamento dela. — Você tem que pular.
— Eu sei — respondeu o carneirinho, com uma voz fininha e cansada. — Mas eu tô com sono.
Um carneirinho cansado
A Lívia nunca tinha pensado nisso.
— Carneirinho sente sono?
— A gente pula a noite inteira — disse o quarenta e sete, bocejando tanto que a lã da cara dele se esticou toda. — Não é só você que a gente ajuda. Tem criança no mundo inteiro contando carneirinho. Quando você dorme, a gente vai correndo pro campo de outra criança. E depois de outra. E de outra.
Atrás dele, a fila de carneirinhos tinha parado também. O quarenta e oito estava de olhos meio fechados. O cinquenta tinha deitado na grama. O cinquenta e dois roncava baixinho, em pé.
A Lívia ficou com pena.
— E quando é que vocês dormem?
— Só quando as crianças dormem — disse o quarenta e sete. — Todas.
O cobertor
A Lívia pensou um pouco.
Depois fez uma coisa que nunca tinha feito antes: entrou no campo. No pensamento dela, levantou da cama, calçou o chinelo e foi andando pela grama macia até a cerca, com o cobertor dela nas costas.
Sentou do lado do carneirinho quarenta e sete.
— Então hoje ninguém precisa pular — disse ela.
O carneirinho arregalou os olhos.
— Ninguém?
— Ninguém. Vocês podem deitar aqui. Eu fico contando vocês deitados mesmo.
A notícia passou pela fila inteira, de orelha em orelha, feito um sussurro de vento. E os carneirinhos, um de cada vez, foram se deitando na grama. Do outro lado da cerca, os que já tinham pulado deitaram também. Uns encostados nos outros. Uns com a cabeça em cima da barriga do outro. O doze deitou de olhos fechados, como sempre. O trinta tentou deitar e esbarrou na cerca, e fingiu que não tinha esbarrado.
Contando devagar
A Lívia abriu o cobertor por cima do quarenta e sete, que já estava encostado nela, quentinho feito uma almofada.
E começou a contar de novo, bem baixinho, para não acordar ninguém.
— Quarenta e oito… dormindo.
— Quarenta e nove… dormindo.
— Cinquenta… dormindo.
A lua lá em cima parecia ter abaixado um pouco, para escutar melhor. Os vaga-lumes piscavam devagar sobre a grama. O campo inteiro respirava junto, subindo e descendo, subindo e descendo, feito uma onda de lã.
— Cinquenta e um… dormindo.
— Cinquenta e dois…
A Lívia bocejou.
— …dormindo.
De manhã
A Lívia acordou com o sol na janela.
Ela não lembrava em que número tinha parado. Só lembrava de estar quentinha, encostada numa coisa macia, ouvindo uma porção de respiraçõezinhas em volta.
No café da manhã, ela contou tudo para a vó.
A vó ouviu com atenção, mexendo o café.
— E aí? — perguntou a vó. — Hoje à noite você vai contar os carneirinhos pulando ou deitados?
A Lívia pensou.
— Deitados — disse ela. — Eles também merecem descansar.
A vó sorriu, daquele jeito de quem já sabia desde o começo.
E, a partir daquela noite, no campo da Lívia, ninguém mais precisou pular a cerca.
Bastava deitar.
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