Nina e o Farol da Ilha da Gaivota

Na Ilha da Gaivota, que era tão pequena que dava para atravessar a pé antes do almoço, tinha um farol branco com uma faixa vermelha.
E, na casinha grudada no pé do farol, morava a Nina com o avô dela, o Seu Lauro.
Seu Lauro era faroleiro fazia quarenta anos. Todo fim de tarde ele subia os cento e doze degraus da escada de caracol, limpava o vidro da lente, conferia a lâmpada e, quando o sol encostava no mar, acendia a luz.
A Nina ia junto até o degrau vinte.
Nunca passava do vinte.
O degrau vinte
Não era preguiça. Era a altura.
A escada do farol era de ferro, em espiral, e no meio dela tinha um buraco que ia do chão até lá em cima. Quando a Nina olhava para baixo pelo vão, a barriga dela gelava, as pernas amoleciam e o coração começava a bater nas orelhas.
Então ela parava no vinte, sentava no degrau e ficava esperando o avô descer.
— Um dia você sobe — dizia Seu Lauro, sem pressa.
— Um dia — respondia a Nina, sem acreditar.
O pai dela era pescador e saía de barco toda madrugada. Ele sempre dizia que, quando estava voltando para casa no escuro, a primeira coisa que procurava era a luz do farol. Três piscadas e uma pausa. Três piscadas e uma pausa. Era assim que ele sabia onde ficavam as pedras e onde ficava a entrada do porto.
E, quando avistava a luz, ele respondia lá do barco com a lanterna dele: três piscadas e uma pausa. Era o jeito de dizer estou chegando.
A tempestade
Numa tarde de junho, o céu ficou cor de chumbo antes da hora.
O vento começou a assobiar na fresta das janelas, as gaivotas sumiram e o mar ficou cheio de espuma branca.
O barco do pai ainda não tinha voltado. A Nina tinha ido até o píer de capa de chuva amarela, olhado o mar vazio e voltado correndo, encharcada.
Seu Lauro subiu para acender a luz mais cedo. A Nina ficou no degrau vinte, ouvindo o avô lá em cima, ouvindo a chuva batendo no vidro.
Aí aconteceram duas coisas quase ao mesmo tempo.
A primeira foi um estalo, e a casa inteira ficou no escuro. A luz tinha acabado na ilha toda.
A segunda foi um barulho de ferro e um gemido lá do alto da escada. Seu Lauro vinha descendo no escuro, para buscar a luz de reserva, e errou um degrau.
— Vô?
— Tô aqui — respondeu a voz dele, de longe. — Escorreguei no escuro e torci o pé. Não consigo pisar.
O lampião de reserva
Seu Lauro terminou de descer devagarinho, sentado, degrau por degrau, até chegar onde a Nina estava. Demorou muito. O pé dele estava inchado e ele fazia careta a cada degrau.
— Escuta, filha — disse ele, respirando fundo. — Na cozinha, em cima do armário, tem um lampião de querosene. É a luz de reserva, pra quando falta energia. Alguém tem que levar ele lá pra cima e pendurar no gancho de dentro da lente.
A Nina entendeu antes de ele terminar.
— Eu não consigo, vô.
— Eu sei que parece que não.
— São cento e doze degraus.
— São noventa e dois — disse Seu Lauro. — Os primeiros vinte você já sobe todo dia.
Lá fora, o vento uivava. E em algum lugar no meio daquele mar escuro, o pai dela estava procurando três piscadas e uma pausa.
Um degrau de cada vez
A Nina pegou o lampião no armário. O avô ensinou a acender: girar a rodinha para subir o pavio, riscar o fósforo, baixar o vidro. A chama ficou amarela e firme. Ela enfiou também uma lanterninha no bolso da capa, que ainda pingava, e começou a subir.
No degrau vinte e um, as pernas tremeram.
No degrau trinta, ela olhou para o vão, e o vão parecia um poço sem fundo. Ela sentou. Fechou os olhos.
Aí lembrou de uma coisa que o avô falava quando consertava rede de pesca: rede grande a gente não conserta inteira. Conserta um nó. Depois o outro.
Então ela decidiu que não ia subir o farol.
Ia subir um degrau.
Depois outro.
Com uma mão no corrimão, a outra segurando o lampião bem longe do corpo e os olhos fixos no degrau da frente, nunca no vão, ela foi contando baixinho: trinta e um, trinta e dois, trinta e três. Quando o medo apertava, ela parava, respirava fundo três vezes, contando igual ao farol, e continuava.
No sessenta, a chuva batia tão forte na janelinha que parecia pedra.
No noventa, as pernas doíam.
No cento e doze, ela empurrou a portinhola de ferro e entrou na sala da lente.
A luz
A sala lá de cima era toda de vidro, e o vento sacudia a torre inteira.
No meio dela ficava a lente, enorme, parecendo uma colmeia de cristal, com uma portinhola de vidro na lateral.
As mãos da Nina tremiam tanto que ela precisou de duas tentativas para abrir o trinco. Na terceira, abriu.
Ela pendurou o lampião no gancho de dentro da lente, como o avô tinha explicado, e a lente pegou aquela chaminha pequena e transformou numa luz enorme, que saiu pelo vidro e atravessou a chuva, longe, bem longe, por cima do mar.
Não piscava três vezes. Mas era luz.
E luz, numa noite daquelas, era tudo.
Três piscadas
A Nina ficou lá em cima, sentada no chão, abraçada aos joelhos, olhando o mar.
Nunca soube dizer quanto tempo passou.
Até que, lá no meio da escuridão, apareceu uma luzinha pequena, balançando. Uma lanterna de barco. E ela piscou: uma, duas, três vezes. E uma pausa.
Era o sinal que o pai dela sempre fazia quando via o farol.
A Nina levantou num pulo, tirou a lanterninha do bolso e respondeu: uma, duas, três. E uma pausa.
O café da manhã
De manhã, a tempestade tinha ido embora, e o mar estava liso feito um prato.
O pai da Nina estava sentado na cozinha, de cabelo ainda molhado, com as mãos em volta de uma caneca de café. Seu Lauro estava do lado, com o pé enfaixado em cima de uma cadeira.
— Eu estava perdido — contou o pai. — Não enxergava nada. Aí vi uma luz amarela no alto da ilha e fui na direção dela. Passei rente às pedras.
Ele olhou para a filha.
— Quem acendeu?
Seu Lauro não respondeu. Só apontou com o queixo.
Degrau cento e doze
A Nina não perdeu o medo de altura de uma vez. Quando olha pelo vão da escada, a barriga gela um pouquinho.
Mas agora, todo fim de tarde, enquanto o pé do avô sara, é ela quem sobe os cento e doze degraus, um de cada vez, contando baixinho.
E, quando chega lá em cima, antes de acender a luz, ela sempre olha para o mar e pensa no pai.
Depois aperta o botão. E o farol pisca três vezes, e faz uma pausa.
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