Elara e a Engrenagem da Coragem

Na cidade flutuante de Aethelgard, tudo funcionava no ritmo perfeito de um tic-tac. A cidade pairava acima das nuvens graças à Grande Engrenagem, uma máquina mágica e ancestral que girava silenciosamente no centro da praça.
Elara era uma menina de doze anos com mãos sujas de graxa e cabelos presos por um par de óculos de proteção. Ela era a aprendiz do relojoeiro da cidade e adorava a sua vida. Dentro da oficina, tudo fazia sentido. Se uma mola quebrava, ela sabia como consertar. Se um pêndulo parava, ela sabia como balançar. Tudo era previsível, seguro e perfeitamente calculado.
Fora da oficina, porém, o mundo a aterrorizava. Ela tinha medo de tempestades, detestava lugares desconhecidos e nunca, jamais, chegava perto da beirada da cidade flutuante. O caos do mundo exterior fazia seu estômago revirar.
Mas, em uma manhã de ventos gelados, o tic-tac perfeito de Aethelgard falhou.
Um som terrível de metal quebrando ecoou pelas ruas. A cidade inteira tremeu e desceu alguns metros em direção ao abismo escuro lá embaixo. A Grande Engrenagem havia rachado.
O Prefeito convocou os Cavaleiros do Céu, homens e mulheres grandes, fortes e destemidos.
— Precisamos do Metal-Estrela para forjar um remendo! — anunciou o Prefeito. — Ele só é encontrado no topo da Montanha dos Ventos Uivantes, um lugar de tempestades caóticas e magia selvagem. Quem irá?
Os cavaleiros partiram com suas armaduras brilhantes. Mas, dois dias depois, voltaram de mãos vazias. As tempestades da montanha eram imprevisíveis demais; os ventos mudavam de direção a cada segundo e a névoa criava ilusões assustadoras. A força bruta e as espadas não serviam de nada contra o caos.
Enquanto isso, a cidade descia mais e mais. O chão tremia constantemente.
Naquela noite, Elara olhou para suas ferramentas perfeitamente alinhadas sobre a mesa. Ela olhou para a engrenagem rachada pela janela. Ela sabia, melhor do que ninguém, que o Metal-Estrela era delicado. Ele não podia ser arrancado com espadas; precisava ser extraído com precisão cirúrgica, ou se desfaria em pó. Apenas um relojoeiro poderia colhê-lo. Seu mestre estava velho demais para a viagem. Só restava ela.
O coração de Elara batia tão rápido que parecia um relógio quebrado. Ela estava apavorada. Suas mãos suavam. Mas o amor por sua cidade e por seu velho mestre foi mais forte que o pânico de ficar parada esperando o fim.
Ela vestiu um casaco grosso, colocou suas chaves de fenda e pinças na mochila e, sem contar a ninguém, pegou um pequeno balão planador até a base da Montanha dos Ventos Uivantes.
Assim que seus pés tocaram a montanha, o caos começou. O vento não soprava; ele gritava. Pedras flutuavam ao redor dela, a gravidade parecia confusa, e a névoa desenhava monstros no ar. Elara quis chorar. Ela quis dar meia-volta e correr para debaixo de sua cama.
Tic-tac, ela pensou, fechando os olhos. Respire no ritmo de um relógio de bolso.
— O medo é só uma mola apertada demais — sussurrou para si mesma. — Um passo de cada vez.
Ela começou a subir. Quando o vento mudava bruscamente e tentava derrubá-la, ela não lutava com força como os cavaleiros; ela se abaixava, observava o padrão oculto na tempestade (pois até o caos tem um ritmo, se você olhar com atenção) e avançava no segundo de calmaria.
Ela escorregou, ralou os joelhos e perdeu os óculos de proteção. A montanha rugia, tentando assustá-la com barulhos de trovão e sombras. Mas Elara não parou. Toda vez que o medo paralisava suas pernas, ela focava na batida do seu próprio coração. Tic-tac, tic-tac. Continue andando.
Após uma subida exaustiva que testou todos os seus limites, ela chegou ao cume. Lá, no olho do furacão, flutuava um minério brilhante e prateado: o Metal-Estrela.
Mas a tempestade ao redor do minério era violenta. Pedaços de gelo rodopiavam como facas. Qualquer um que tentasse agarrar o metal à força perderia a mão.
Elara se ajoelhou. Ela estava no lugar mais assustador e perigoso do mundo, mas o que ela precisava fazer agora era o que ela fazia de melhor. Ela tirou suas pequenas ferramentas da mochila. Com as mãos trêmulas de frio, mas guiadas por anos de foco e precisão, ela encontrou o ponto exato onde a pedra se prendia à montanha.
Ela ignorou o vento uivando em seus ouvidos. Ignorou a altura aterrorizante. Ela focou na pequena dobradiça de pedra. Gira a chave. Solta a trava. Clique.
O minério se soltou perfeitamente em suas mãos, intacto.
A descida foi rápida, e quando Elara retornou a Aethelgard, a cidade estava a poucos metros de mergulhar nas nuvens escuras. Ela correu até a praça, empurrou os guardas perplexos e, usando o fogo da forja central e suas ferramentas, derreteu o Metal-Estrela e selou a rachadura da Grande Engrenagem.
A máquina rangeu, zumbiu e, lentamente, voltou a girar em seu tic-tac perfeito. A cidade parou de cair e voltou a subir suavemente em direção ao sol.
O silêncio tomou conta da praça, até que o Prefeito e a cidade inteira explodiram em aplausos. Os grandes Cavaleiros do Céu se ajoelharam perante a pequena relojoeira de joelhos ralados e cabelos bagunçados.
— Você é a pessoa mais corajosa que já conheci, Elara — disse o velho relojoeiro, abraçando a aprendiz com lágrimas nos olhos. — Você não teve medo?
Elara riu, sentindo as pernas ainda tremerem de exaustão e alívio.
— Eu tive medo o tempo todo, mestre. Eu estava apavorada a cada segundo. Mas eu descobri que a coragem não é não sentir medo. Coragem é estar morrendo de medo, e decidir dar o próximo passo de qualquer maneira.
E a partir daquele dia, Elara ainda preferia o silêncio de sua oficina, mas ela nunca mais teve medo de abrir a porta para ver o mundo lá fora. Afinal, ela sabia que dentro de si, batia um coração mais forte que a maior das tempestades.
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