Duda e o Nascer do Sol no Morro do Cuscuz

5 min de leituraHistorinha para dormir
Duda e o Nascer do Sol no Morro do Cuscuz
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O Morro do Cuscuz tinha esse nome porque, de longe, parecia mesmo um cuscuz desenformado: redondo, alto, com o topo achatado.

Toda família da cidadezinha de Pedra Bonita subia o morro pelo menos uma vez na vida para ver o sol nascer lá de cima. Diziam que, em dia de sorte, dava para ver o vale inteiro coberto de nuvem, feito um mar branco, com o sol saindo de dentro dele.

A Duda tinha tentado no ano passado.

E não tinha conseguido.

O ano passado

No ano passado, a família inteira saiu de casa às quatro da manhã, no escuro, com lanterna.

A Duda saiu na frente de todo mundo. Correndo.

Ela queria ser a primeira a chegar. Subiu o primeiro trecho quase pulando, passou os primos, passou o pai, passou até o cachorro.

E, na metade da trilha, onde começa a subida de pedra, as pernas dela simplesmente acabaram. O peito doía. A boca estava seca. Ela sentou numa pedra e disse que não dava mais.

A mãe ficou com ela.

As duas viram o nascer do sol dali mesmo, pelo meio das árvores. Foi bonito. Mas não era o mar de nuvens.

E, quando o resto da família desceu, contando como tinha sido lá em cima, a Duda ficou quietinha no canto, com uma coisa amarga na garganta.

O avô Tião

Este ano, quem ia levar a Duda era o avô Tião.

Ele tinha setenta e um anos, usava um chapéu de feltro velho, andava com um cajado de bambu e era magrinho feito vara de pescar. Já tinha subido aquele morro mais vezes do que conseguia contar.

Na véspera, ele sentou com ela na varanda.

— Por que você cansou no ano passado?

— Porque a subida é muito difícil.

— A subida é a mesma pra todo mundo — disse o avô. — Eu vou te contar um segredo que meu pai me ensinou. Ele era tropeiro, subia serra com burro carregado. Sabe como ele chamava o jeito certo de subir morro?

A Duda fez que não.

— Passo de mineiro. — O avô sorriu. — Devagar, sempre no mesmo ritmo, sem parar e sem correr. Quem sobe correndo chega na metade. Quem sobe no passo de mineiro chega lá em cima.

A Duda achou aquilo esquisito. Como é que ir devagar fazia chegar?

Quatro da manhã

Às quatro, eles saíram.

A cidade estava toda dormindo. O céu ainda estava preto, cheio de estrela, e o ar era tão frio que saía fumacinha da boca.

A Duda, com a lanterna de cabeça acesa, sentiu a mesma vontade do ano passado: disparar na frente.

O avô pôs a mão no ombro dela.

— Passo de mineiro.

Então ela foi andando do lado dele. No ritmo dele. Um passo, uma respiração. Um passo, uma respiração.

No começo parecia lento demais. Parecia que eles nunca iam chegar a lugar nenhum. Uma família de outra cidade, pai, mãe e um menino, passou por eles correndo e rindo.

A Duda olhou para o avô. O avô continuou igual.

A pedra do ano passado

Depois de uma hora, a trilha começou a subir forte, e o chão virou pedra.

E lá estava ela: a pedra onde a Duda tinha sentado no ano passado. Ela reconheceu na hora, pela mancha de musgo em forma de coelho.

O coração dela deu uma apertada.

Mas ela reparou numa coisa estranha: as pernas não estavam doendo. Estavam cansadas, sim, mas era um cansaço que dava para carregar.

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E, sentados ali na pedra, ofegantes, estavam os três da família que tinha passado correndo por eles.

O avô deu bom-dia, ofereceu um gole de água e seguiu. A Duda seguiu atrás.

Ela não sentou na pedra.

A parte difícil

A parte de cima foi a mais dura.

Tinha um trecho de rocha lisa, onde precisava usar as mãos. O avô pendurou o cajado na mochila e foi mostrando onde pôr cada pé: aqui, nessa rachadura. Agora nessa saliência. Agora a mão naquela raiz.

Numa hora, a Duda escorregou um pouquinho e o joelho bateu na pedra. Doeu. Os olhos encheram d'água.

— Quer parar um pouco? — perguntou o avô.

Ela pensou.

— Posso parar sem sentar?

O avô riu.

— Pode. Isso tem nome também. Chama descansar de pé.

Eles ficaram parados um minuto, respirando. Depois continuaram.

Um passo, uma respiração.

O mar de nuvens

Eles chegaram ao alto quando o céu estava ficando azul-claro na beiradinha.

E a Duda perdeu a fala.

Lá embaixo, o vale inteiro tinha sumido. No lugar dele tinha um mar branco e macio de nuvens, que ia até as montanhas lá longe. As montanhas pareciam ilhas azuis boiando.

O avô abriu a garrafa térmica e serviu dois copinhos de café com leite. A Duda sentou do lado dele numa pedra fria, os dois enrolados no casaco.

E aí o sol saiu.

Primeiro um fiozinho vermelho. Depois uma bola laranja, crescendo de dentro das nuvens, pintando tudo de dourado. As nuvens ficaram cor-de-rosa. A cara do avô ficou dourada. As mãos da Duda também.

Ela levantou e abriu os braços, sem nem pensar.

O que ela contou

Quando eles desceram, a família estava esperando na casa, com pão de queijo na mesa.

— Chegou lá em cima? — perguntou o primo mais velho.

— Cheguei.

— Foi difícil?

A Duda pensou antes de responder.

— Foi. Mas foi mais fácil que no ano passado. E eu nem fiquei mais forte.

— Então o que mudou?

Ela olhou para o avô, que estava tirando a bota na varanda, fingindo que não estava ouvindo.

— Eu parei de ter pressa — disse a Duda.

Naquela noite, ela dormiu cedo, de perna cansada e coração cheio, sonhando com um mar de nuvens.

E, no sonho, ela andava por cima dele devagarinho, no passo de mineiro, sem nenhuma pressa de chegar.

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