Daniel na Cova dos Leões

Fazia muitos anos que Daniel tinha sido levado de Jerusalém para a Babilônia, ainda muito jovem, junto com outros da sua terra.
Ele cresceu longe de casa. Aprendeu a língua do lugar, estudou, trabalhou. E foi ficando conhecido por uma coisa simples: dava para confiar nele.
Quando Daniel dizia que ia fazer, fazia. Quando cuidava do dinheiro do reino, não sumia uma moeda. Quando não sabia alguma coisa, dizia que não sabia.
Impérios caíram, reis mudaram, e Daniel continuou servindo, sempre do mesmo jeito.
Por isso, quando o rei Dario assumiu o trono, escolheu Daniel como um dos três homens mais importantes do reino.
E logo pensou em colocá-lo acima de todos.
A inveja
Foi aí que começou o problema.
Os outros dois administradores e os sátrapas do reino ficaram furiosos. Um estrangeiro, velho, mandando em todos eles? Não aceitavam.
Então eles se juntaram e combinaram procurar algum erro de Daniel para contar ao rei.
Vasculharam as contas. Nada. Vasculharam os contratos. Nada. Procuraram alguma mentira, alguma trapaça, alguma coisa fora do lugar.
Não acharam absolutamente nada.
Até que um deles disse:
— Só vamos conseguir alguma coisa contra esse homem se for por causa da religião dele.
A lei da armadilha
Eles todos sabiam do costume de Daniel.
Três vezes por dia — de manhã, ao meio-dia e à tarde — ele subia para o quarto de cima da casa, abria a janela virada para Jerusalém, se ajoelhava e orava. Fazia isso desde jovem. Todo mundo sabia.
Então eles foram falar com o rei Dario, todos juntos, muito sorridentes.
— Majestade! Tivemos uma ideia maravilhosa para mostrar como o senhor é grande. Uma lei: durante trinta dias, ninguém pode fazer pedido a nenhum deus nem a nenhum homem, só ao senhor. Quem desobedecer vai para a cova dos leões.
O rei Dario gostou da ideia. Achou bonito.
E assinou.
Naquela época, uma lei assinada pelo rei não podia mais ser mudada. Nem pelo próprio rei.
Daniel abriu a janela
Daniel ficou sabendo da lei nova.
E foi para casa.
Subiu para o quarto de cima, abriu a janela virada para Jerusalém, se ajoelhou e orou — como fazia de manhã, ao meio-dia e à tarde, desde sempre.
Ele não gritou. Não discursou. Não fez nada diferente do que fazia todo dia.
Só não mudou.
Os acusadores, escondidos, viram tudo. Era o que eles estavam esperando.
O rei tentou
Eles correram ao palácio.
— Majestade, aquele tal de Daniel não respeitou a sua lei. Ele ora três vezes por dia, do jeito de sempre.
O rei Dario sentiu o chão sumir.
Ele só então entendeu a armadilha. E não era o Daniel que tinha caído nela: era ele.
O rei passou o dia inteiro procurando um jeito de salvar o amigo. Chamou conselheiros, leu a lei de novo, procurou uma brecha, uma exceção, qualquer coisa.
Não tinha. A lei assinada não podia ser mudada, nem pelo rei.
Ao pôr do sol, com o coração pesado, ele deu a ordem.
E, quando os soldados estavam levando Daniel, o rei disse a ele:
— Que o seu Deus, a quem você serve sem parar, salve você.
A pedra na entrada
A cova era funda, escavada na pedra, e era onde os leões do rei ficavam.
Puseram Daniel lá dentro.
Depois rolaram uma pedra enorme sobre a boca da cova, e o rei selou a pedra com o anel dele e com os anéis dos nobres, para que ninguém pudesse mexer — nem ele mesmo.
Ficou tudo escuro, tirando um fiozinho de luz que entrava por uma fresta do lado da pedra.
A noite do rei
Naquela noite, o rei Dario não jantou.
Mandou embora os músicos que costumavam tocar no palácio. Ficou andando de um lado para o outro nos salões vazios. Deitou e não conseguiu fechar os olhos um minuto.
Foi a noite mais longa da vida dele.
A noite de Daniel
Lá embaixo, na cova, Daniel também não dormiu logo.
Mas não foi por causa de barulho.
Foi por causa do silêncio.
Os leões, que eram grandes e estavam com fome, chegaram perto dele e… pararam. Ficaram ali, quietos, de boca fechada, como se alguém tivesse segurado o focinho de cada um.
Depois um deitou. Depois outro. Um deles encostou a cabeça no chão bem perto dele, e ficou respirando devagar, igual a um gato grande dormindo.
E Daniel, no meio deles, se ajoelhou e agradeceu.
Depois dormiu.
De manhãzinha
Assim que o céu começou a clarear, o rei Dario saiu correndo do palácio, sem esperar ninguém.
Chegou à cova e gritou, com a voz tremendo:
— Daniel! Servo do Deus vivo! O seu Deus conseguiu livrar você dos leões?
Houve um instante de silêncio.
E aí veio a voz, lá de baixo, calma como sempre:
— Ó rei, viva para sempre! O meu Deus mandou o anjo dele, que fechou a boca dos leões. Eles não me fizeram mal nenhum.
O dia depois
O rei mandou tirar Daniel da cova na mesma hora.
E, quando o examinaram, não acharam nele um arranhão sequer.
Dario castigou os homens que tinham armado aquela maldade. E mandou escrever uma carta para todos os povos do seu enorme reino, dizendo que o Deus de Daniel é o Deus vivo, que salva e que faz maravilhas no céu e na terra.
Daniel continuou trabalhando no palácio, com a mesma honestidade de antes, por muitos anos.
E continuou, todo dia, subindo ao quarto de cima, abrindo a janela virada para Jerusalém e orando três vezes por dia.
Do mesmo jeito.
Porque quem é firme quando tudo está bem também é firme quando tudo fica difícil.
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