Bolinha, o Tatu que Vivia Fechado

4 min de leituraHistorinha para dormir
Bolinha, o Tatu que Vivia Fechado
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Lá no sertão, na Caatinga, onde o chão é de terra rachada e o mandacaru cresce alto feito um candelabro, morava um tatu chamado Bolinha.

O Bolinha não era um tatu qualquer. Era um tatu-bola.

E o tatu-bola tem um talento que quase nenhum outro tatu do mundo tem: quando fica com medo, ele se enrola inteiro, encaixa a cabeça e o rabo direitinho nos buracos da casca, e vira uma bola perfeita. Sem nenhuma fresta.

Fica redondinho feito uma bola. Tanto que, um dia, um tatu-bola chegou a ser mascote de uma Copa do Mundo.

Fechado demais

O problema é que o Bolinha se fechava por tudo.

Um galho estalou? Clac. Bola.

Uma folha seca caiu? Clac. Bola.

O vento assobiou mais forte na pedra? Clac. Bola.

E, enquanto ficava ali fechado, escuro, quentinho e seguro, o Bolinha perdia tudo o que acontecia do lado de fora.

Perdeu o dia em que choveu e a Caatinga, que estava cinza, ficou verde em uma semana.

Perdeu a revoada das maritacas.

Perdeu a primeira flor do mandacaru, que abre de noite e dura só até a manhã seguinte.

Quando ele abria a casca, desconfiado, já tinha passado.

A rolinha

Quem mais reclamava era a Fifi, uma rolinha marrom que ciscava por ali.

A Fifi era a melhor amiga do Bolinha. Mas era difícil ser amiga de alguém que virava bola no meio da conversa.

— Bolinha! Olha o pôr do sol! Olha que laranja!

Clac.

— Bolinha, era só um besouro.

A Fifi batia com o bico, de leve, na casca dele. Toc, toc.

— Pode sair.

E o Bolinha saía, bem devagar, olhando para todo lado. Mas o sol já tinha ido embora.

O conselho do tatu velho

Um dia, o Bolinha foi falar com o Seu Tonho, um tatu-bola velhíssimo que morava debaixo de um juazeiro.

— Seu Tonho, eu tô perdendo tudo. Mas eu não consigo não fechar.

O Seu Tonho coçou a orelha com a unha comprida.

— A bola é boa, menino. Ela salvou a minha vida mais de uma vez. — Ele olhou para o Bolinha com calma. — Mas ela não serve para barulho. Serve para perigo. Quem fecha para tudo não vê o perigo chegar e também não vê o resto.

— E como é que eu sei a diferença?

— Olhando antes. Quando o barulho vier, conta até três e olha. Se for perigo, fecha. Se não for, fica aberto e aproveita.

Um, dois, três

O Bolinha começou a treinar.

Um galho estalou. O coração dele pulou, a casca quase fechou. Mas ele segurou.

Um. Dois. Três.

E olhou.

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Era um preá passando. Só isso.

Um vento forte assobiou na pedra.

Um. Dois. Três.

Era só vento. E o vento trazia um cheiro bom de chuva chegando.

Aos poucos, o Bolinha foi descobrindo que quase nada do que fazia barulho na Caatinga era perigo. Era bicho vivendo, planta balançando, a vida acontecendo.

E, com os olhos abertos, ele viu o céu ficar laranja no fim da tarde. Viu os mandacarus fazendo sombra comprida. Viu a Fifi dançando de alegria no chão quando o Bolinha ficou aberto até o fim do pôr do sol.

O dia do perigo de verdade

Numa tarde, o Bolinha e a Fifi estavam perto de uma moita, ciscando e fuçando, quando ele escutou uma coisa diferente.

Não era estalo de galho. Não era vento.

Era um arrastado baixinho, lento, no chão.

Um. Dois. Três.

Ele olhou.

Uma cobra, deslizando entre as pedras, bem atrás da Fifi, que estava distraída com uma sementinha e não tinha visto nada.

Um mês antes, o Bolinha teria virado bola na hora. E não teria visto a cobra, nem a Fifi, nem nada.

Mas agora ele estava de olhos abertos.

— FIFI! VOA!

A Fifi levou um susto, bateu as asas e voou para o galho do juazeiro, bem alto.

E o Bolinha, que tinha ficado sozinho no chão, fez a única coisa certa.

Clac.

Bola.

A cobra chegou perto, tocou com a língua aquela bola dura, sem nenhuma fresta, empurrou com o focinho, desistiu e foi embora pelas pedras.

Aberto e fechado

Quando o perigo passou, a Fifi desceu do galho e bateu de leve na casca dele. Toc, toc.

— Pode sair.

O Bolinha abriu. Olhou para os lados.

— Ela foi embora?

— Foi. Você me salvou, Bolinha.

— Eu só olhei antes de fechar.

A Fifi pousou do lado dele.

E os dois ficaram ali, na terra ainda morna do dia, vendo as primeiras estrelas aparecerem em cima dos mandacarus, uma de cada vez.

O Bolinha não fechou nenhuma vez.

Uma curiosidade

O tatu-bola existe de verdade e só vive no Brasil, principalmente na Caatinga e no Cerrado. Ele e um primo dele, que vive mais para o sul, no Pantanal e em países vizinhos, são os únicos tatus do mundo que conseguem virar uma bola completa. Ele foi escolhido como mascote da Copa do Mundo de 2014 e hoje está ameaçado de extinção, por isso precisa muito de proteção.

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