As dez lamparinas

No Vale do Sol, onde um rio azul serpenteava entre colinas verdes, viviam dois grandes amigos: Beto e Zeca.
Beto e Zeca tinham o mesmo sonho. Ambos queriam construir a casa mais legal do mundo. Eles imaginavam um lugar onde poderiam guardar seus brinquedos, dormir ouvindo os grilos e receber os amigos para lanchar bolo de cenoura.
— Vamos começar hoje mesmo! — disse Zeca, pulando de alegria. Zeca era um menino muito apressado. Ele gostava de tudo “para ontem”. Se fosse comer uma banana, não queria nem descascar. Se fosse correr, queria chegar antes da largada.
Beto, por outro lado, era observador e paciente. Ele gostava de montar quebra-cabeças de mil peças e não se importava de demorar, desde que a última peça se encaixasse perfeitamente.
Os dois pegaram suas ferramentas: martelos, serrotes, pregos e tábuas de madeira cheirosa. Eles caminharam até a beira do rio para escolher o terreno.
A Escolha do Lugar
Zeca olhou para uma prainha linda, bem pertinho da água. A areia era fofa, dourada e plana. — Achei! — gritou Zeca. — Vou construir minha casa aqui na areia. — Mas Zeca… — alertou Beto. — A areia é mole. Se chover muito, o rio pode subir. Não é seguro. — Ah, Beto, você pensa demais! — riu Zeca. — Olha como é fácil cavar aqui! Não preciso fazer força. Vou terminar minha casa antes do almoço e passar a tarde toda brincando.
Beto balançou a cabeça. Ele olhou para cima e viu uma colina alta, feita de pedra sólida. Era longe da água, o chão era duro e cheio de pedregulhos. — Vou construir lá em cima — decidiu Beto. — Lá? — Zeca gargalhou. — Você vai demorar um ano para furar aquela pedra! Boa sorte com seu trabalho duro, eu vou ficar aqui no fácil.
A Construção
E assim começou a obra.
Do lado de baixo, na areia, a construção de Zeca voava! Pof, pof, pof. Como a areia era macia, ele fincou as estacas de madeira num piscar de olhos. Ele não precisou cavar fundo. Ele apenas colocou as tábuas por cima, pregou rapidinho (alguns pregos ficaram tortos, mas ele não ligou) e pintou a porta de vermelho. — Terminei! — gritou Zeca ao meio-dia. — Minha casa é linda! Agora vou descansar.
Enquanto Zeca tomava suco de uva na varanda de sua casa nova, Beto estava suando lá no alto da colina.
Toc… Toc… Clang! O barulho era diferente. Beto estava tentando abrir buracos na rocha para fazer a fundação (que é como se fossem as raízes da casa). A pedra era dura. A picareta batia e soltava faísca. As mãos de Beto doíam. O sol estava quente.
Zeca gritava lá de baixo: — Ei, Beto! Desce logo! Vem brincar! Para que tanto esforço? Ninguém vai ver a fundação, ela fica embaixo da terra!
Beto limpou o suor e respondeu: — Ninguém vê, Zeca, mas é a parte mais importante. Se a base não for forte, a casa não aguenta. Eu prefiro demorar agora e ficar seguro depois.
O dia passou. A noite chegou. Zeca já tinha dormido, brincado e comido. Beto só terminou quando a lua apareceu. Ele estava exausto, sujo de poeira de pedra, mas sua casa estava “chumbada” na rocha. Ela não balançava nem um milímetro.
A Grande Tempestade
Durante algumas semanas, tudo foi maravilhoso. O sol brilhava e as duas casas pareciam ótimas. Zeca ria de Beto, dizendo que ele tinha trabalhado à toa.
Mas, em uma tarde de verão, o tempo mudou. O céu, que era azulzinho, começou a ficar da cor de um hematoma roxo. Nuvens pesadas e escuras se acumularam em cima do Vale do Sol. Os passarinhos pararam de cantar e se esconderam. O vento começou a soprar, primeiro devagar (fuuu…), depois com força (VUUUUUSH!).
CABRUM! Um trovão sacudiu o vale. E a chuva desceu.
Não foi uma chuvinha de molhar plantas. Foi um dilúvio! Parecia que alguém tinha virado um balde gigante no céu. A água caía com força nos telhados. Plaft! Plaft! Plaft!
Beto, dentro de sua casa na rocha, fechou as janelas. Ele acendeu uma lanterna, pegou um livro e sentou-se em sua poltrona. O vento uivava lá fora, tentando empurrar as paredes. A chuva batia com raiva. Mas a casa de Beto nem tremia. Ela estava abraçada à rocha, firme como uma montanha. Beto estava quentinho e seguro.
Lá embaixo, porém, a situação era terrível.
O rio, que era calmo, começou a subir. A água ficou marrom e brava. Ela saiu da borda e começou a lamber a varanda da casa de Zeca. E o pior aconteceu: a areia, que era fofa e gostosa quando estava seca, virou lama. Uma sopa mole e escorregadia.
Zeca estava dentro de casa, segurando seu ursinho, tremendo de medo. De repente, o chão inclinou. As estacas de madeira, que não estavam presas em nada firme, começaram a escorregar. Creeeec… fez a madeira. — Socorro! — gritou Zeca.
Uma onda maior bateu na base da casa. A areia desmanchou. Com um barulho triste e molhado — SPLAFT! — a casa de Zeca tombou de lado. A porta abriu, o telhado voou e a água entrou por todo lado.
Zeca saiu correndo na chuva, molhado até os ossos, chorando. Ele olhou para cima e viu uma luzinha brilhando no alto da colina. Era a casa de Beto.
Ele escalou as pedras escorregadias o mais rápido que pôde e bateu na porta do amigo. Tum, tum, tum!
Beto abriu a porta imediatamente. Ele não disse “eu te avisei”. Ele não riu. Ele puxou o amigo para dentro, deu-lhe uma toalha seca e uma caneca de chocolate quente.
A Lição do Construtor
Na manhã seguinte, a tempestade passou. O sol voltou a brilhar. Os dois amigos saíram na varanda da casa de Beto e olharam para baixo.
Lá na beira do rio, a casa de Zeca não existia mais. Era apenas uma pilha de tábuas espalhadas na lama. Zeca suspirou, triste. — Minha casa se foi, Beto. Você estava certo. Eu quis o caminho fácil e rápido, e acabei sem nada. Sua casa deu trabalho, mas ela protegeu você e me protegeu também.
Beto colocou a mão no ombro do amigo. — Não fique triste, Zeca. Madeira a gente arranja mais. Agora você aprendeu o segredo. — Qual segredo? — Que as coisas mais importantes da vida precisam de uma base forte. Não adianta ser bonito por fora se não estiver firme por dentro.
Zeca sorriu. — Você me ajuda a construir uma casa nova? — Claro! — disse Beto. — Mas dessa vez… — completou Zeca, pegando uma picareta. — Vamos construir aqui em cima, na rocha. Vai demorar, vai dar calo na mão, mas eu nunca mais quero construir na areia.
E assim, os dois amigos trabalharam juntos. Zeca aprendeu a ter paciência, e Beto ganhou um vizinho. E, dizem as lendas do Vale do Sol, que aquelas duas casas na colina enfrentaram muitas outras chuvas e ventos, mas nunca, jamais caíram, porque estavam fundadas sobre a Rocha.
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