A Última Herdeira da Torre de Cristal

No pico mais alto das Montanhas das Nuvens, onde o ar é rarefeito e o silêncio é absoluto, erguia-se a Torre de Cristal. Não era uma torre feita de tijolos ou pedras, mas esculpida em um único diamante gigantesco, multifacetado e indestrutível. Dentro dela vivia a Princesa Liana.
Liana era a última de sua linhagem, a chamada “Herdeira da Luz”. Desde que era um bebê, foi levada para a torre pelos Sábios de Prata, anciãos com barbas longas e mantos que arrastavam no chão polido. — O mundo lá fora acabou, Alteza — diziam eles todas as manhãs, trazendo frutas descascadas em bandejas de vidro. — O Caos devorou os reinos. Só restam monstros, sombras e doenças. Aqui, dentro do Cristal, a senhora está protegida. A senhora é a joia que devemos preservar para o futuro.
Liana cresceu acreditando neles. Como poderia não acreditar? As paredes da torre eram translúcidas, mas muito grossas. Quando ela olhava para fora, via formas borradas e cinzentas se movendo na neblina. O sol parecia uma mancha pálida e distante. O vento não tinha som. Dentro da torre, a temperatura era sempre perfeita, não havia poeira, e o chão era tão limpo que ela podia ver seu próprio reflexo a cada passo.
Mas era uma vida sem cheiros, sem texturas e sem surpresas.
O dia em que tudo mudou começou com uma tempestade. Não uma tempestade comum, mas um vendaval que fez as Montanhas das Nuvens tremerem. Pela primeira vez em dezoito anos, Liana sentiu o chão vibrar sob seus pés descalços.
Um som agudo, como um grito de vidro, ecoou pelo salão principal. Liana correu até a parede leste. Lá, perto do teto abobadado, havia surgido algo impossível: uma rachadura. Era fina como um fio de cabelo, mas suficiente.
Pela fenda, entrou uma lufada de ar.
Liana recuou, esperando que o ar fosse venenoso ou fétido, como os Sábios diziam ser o ar do mundo exterior. Mas o que atingiu seu nariz foi algo que ela nunca sentira antes. Cheirava a terra molhada. Cheirava a pinheiro, a ozônio e a algo doce e selvagem. Cheirava a vida.
E então, algo entrou pela fenda. Não um monstro de sombras, mas uma pequena coisa trêmula e colorida. Era uma borboleta azul, arrastada pelo vento forte. Ela caiu no chão imaculado da torre, batendo as asas feridas.
Liana se ajoelhou. — Cuidado! — gritou o Sábio Chefe, entrando no salão com os olhos arregalados. — Não toque! É uma criatura do Caos! Ela vai contaminá-la!
Mas Liana já havia estendido a mão. A borboleta subiu em seu dedo. Ela não era cinza, como o mundo lá fora parecia ser através das paredes. Ela era de um azul elétrico, vibrante, dolorosamente bonito.
— Ela não é um monstro — sussurrou Liana. — Ela é linda.
— É um truque! — insistiu o Sábio, levantando seu cajado para esmagar o inseto.
— Não! — Liana protegeu a borboleta com o corpo. — Se o mundo lá fora é feito de monstros, por que essa pequena coisa tem mais cor do que toda esta torre?
Liana correu para a rachadura na parede e colocou o olho bem perto da fenda, onde o cristal não distorcia a visão. O que ela viu a fez perder o fôlego.
O mundo não era cinza. Abaixo das nuvens de tempestade, ela viu florestas de um verde profundo, rios que brilhavam como prata líquida e pássaros voando em bandos. Ela viu fogueiras distantes de vilarejos. O mundo não havia acabado.
Ela se virou para o Sábio, e a compreensão caiu sobre ela como uma rocha. — O cristal não me protege do mundo — disse ela, com a voz tremendo de uma raiva nova e quente. — O cristal distorce o mundo para que eu tenha medo dele.
O Sábio baixou o cajado, sua expressão mudando de medo para uma frieza calculista. — O mundo é perigoso, Liana. As pessoas sofrem. Elas choram, sangram e morrem. Aqui, você é eterna. Você é a Herdeira. Se sair, deixará de ser perfeita.
Liana olhou para a borboleta em sua mão. Uma de suas asas estava rasgada, mas ela ainda tentava voar. — Esta torre não é um santuário — declarou a princesa. — É uma vitrine de museu. E eu não sou uma joia.
Liana fechou os olhos e fez algo que nunca lhe permitiram fazer: ela gritou. Mas não foi um grito de socorro. Foi um grito de liberdade, uma nota pura e ressonante que vinha do fundo de sua alma aprisionada.
A torre, feita para conter a delicadeza, não estava preparada para a força bruta da vontade humana. A vibração da voz de Liana atingiu a rachadura. A fenda se expandiu. O som de vidro estalando foi ensurdecedor.
— Pare! — imploraram os Sábios. — Você vai destruir a perfeição!
— Eu prefiro ser quebrada e livre do que perfeita e presa! — respondeu Liana.
Com um estrondo que sacudiu a montanha, a parede leste da Torre de Cristal cedeu. O vidro caiu em milhões de pedaços cintilantes montanha abaixo.
O vento entrou com força total. Era frio, sim, e despenteou o cabelo impecável de Liana, mas parecia um abraço. A chuva molhou seu vestido de seda, manchando-o, mas ela riu. Pela primeira vez, ela sentiu frio e, por isso, sentiu-se viva.
Os Sábios de Prata, vendo que a ilusão havia acabado, desapareceram na névoa, pois seu poder vinha apenas do medo da princesa.
Liana caminhou até a borda da ruína de cristal. A borboleta, recuperada, levantou voo e seguiu em direção à floresta abaixo. A princesa olhou para o horizonte vasto, cheio de perigos, sim, mas também cheio de possibilidades.
Ela desceu a montanha, deixando para trás os cacos de sua prisão brilhante. Ela não era mais a Herdeira da Torre. Ela era Liana, a menina que escolheu a tempestade. E, enquanto seus pés tocavam a grama real pela primeira vez, ela soube que nunca houve magia maior do que a simples coragem de viver.
O Que Achou da Historinha?
Toque nas estrelas para avaliar
O que achou desta história?
Comentários (0)
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar!



