A sementinha feliz

10 min de leituraHistorinha para dormir
A sementinha feliz
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Era uma vez uma sementinha muito pequena, redondinha e brilhante chamada Pipo.

Pipo morava dentro de uma sacola de tecido marrom, muito confortável e quentinha, junto com centenas de seus irmãos e primos. Lá dentro era escuro, mas era um escuro gostoso, como quando a gente se esconde debaixo do cobertor em dia de chuva.

Pipo era uma sementinha muito especial porque ele era extremamente curioso e, acima de tudo, muito feliz. Ele tinha um sonho gigante guardado dentro de sua casca pequenina: ele queria virar uma planta enorme, forte e cheia de vida.

— Um dia — dizia Pipo para sua amiga, a sementinha Lila —, eu vou sair daqui e vou tocar o céu! Vou ter folhas verdes que dançam com o vento e vou dar comida para quem tem fome.

Lila ria baixinho. — Calma, Pipo! Para isso acontecer, a gente precisa encontrar a Casa Certa. O Vovô Grão sempre disse: “Não adianta querer crescer se você não tiver onde morar.”

Pipo não entendia muito bem o que era a “Casa Certa”, mas confiava que, quando a hora chegasse, ele saberia.

O Grande Dia do Passeio

Certa manhã, a sacola de tecido começou a balançar. Balança pra cá, balança pra lá. Pipo e seus amigos rolaram uns por cima dos outros, rindo e fazendo cócegas. De repente, a boca da sacola se abriu e uma luz forte e dourada entrou. Era o sol!

Uma mão gigantesca e gentil entrou na sacola. Era a mão do Grande Jardineiro. O Jardineiro tinha olhos bondosos e cantarolava uma melodia alegre enquanto trabalhava. Pipo sentiu um frio na barriga quando foi pego junto com um punhado de outras sementes.

— Lá vamos nós! — gritou Pipo.

O Jardineiro lançou as sementes ao ar. Para Pipo, aquilo parecia uma montanha-russa! Ele voou alto, sentindo o vento fresco bater em sua casquinha. Ele girou, piruetou e começou a cair em direção ao mundo lá embaixo.

Enquanto caía, Pipo observou onde seus amigos estavam pousando. Foi aí que ele começou a entender o que Lila tinha dito sobre a “Casa Certa”.

A Primeira Parada: O Caminho Duro

Pipo viu algumas sementinhas caindo bem na beira da estrada. Ali, a terra não era fofa. Era um chão batido, duro como pedra, onde muitas pessoas passavam pisando. As sementinhas bateram no chão — tuc, tuc, tuc — e ficaram ali, por cima da terra. Elas tentavam cavar com suas perninhas imaginárias, mas o chão era muito duro.

— Ei, entrem na terra! — gritou Pipo lá de cima.

Mas não deu tempo. Passarinhos coloridos e famintos, que estavam vigiando nos galhos das árvores, viram aquele monte de sementes dando sopa no meio do caminho. Vupt! Os passarinhos desceram e levaram as sementinhas embora no bico. Pipo ficou triste, mas o vento o empurrou para longe. Ele pensou: “Puxa, aquele caminho era duro demais. Um coração duro não deixa a gente morar dentro dele.”

A Segunda Parada: As Pedras Quentes

O vento soprou Pipo mais para a frente. Ele viu outro grupo de amigos caindo em um lugar cheio de pedras. Havia um pouquinho de terra por cima, mas embaixo era pura rocha.

Assim que as sementes caíram, elas ficaram animadas. Como a terra era rasinha, o sol as aqueceu rápido. — Olha, Pipo! Já estamos crescendo! — gritaram elas. E, de fato, brotinhos verdes surgiram num piscar de olhos. Mas, quando o sol ficou forte ao meio-dia, aquelas plantinhas começaram a ficar murchas. Elas tentaram esticar suas raízes para procurar água lá no fundo, mas toc! Batiam na pedra. Não tinha água. Não tinha frescor.

As plantinhas secaram de sede e calor. Pipo, ainda voando, suspirou: “Ah, não… Elas ficaram empolgadas rápido demais, mas não tinham raízes profundas. Sem raiz, a gente não aguenta o calor.”

A Terceira Parada: A Confusão dos Espinhos

Pipo já estava ficando preocupado. “Será que não existe um lugar bom para mim?”, pensou ele. O vento o levou para perto de um arbusto cheio de mato e espinhos. Algumas sementinhas caíram lá no meio. A terra parecia boa! As sementinhas caíram, se acomodaram e começaram a crescer.

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— Ufa! — pensou Pipo. — Ali vai dar certo.

Mas, à medida que as sementinhas cresciam, os espinhos cresciam também. E os espinhos eram malvados e espaçosos. Eles empurravam as plantinhas novas. — Sai pra lá! Esse sol é meu! — diziam os Espinhos. — Chega pra cá! Essa água é minha! — diziam os Matos.

As pobres sementinhas ficaram apertadas, sufocadas e sem ar. Elas não conseguiram crescer fortes porque havia “coisas demais” roubando a atenção e a energia delas. Pipo entendeu: “Um lugar cheio de preocupações e brigas não deixa a sementinha ser feliz.”

Finalmente, a Terra Boa

Pipo já estava quase chegando ao chão. Ele fechou os olhos e fez um pedido ao Grande Jardineiro: — Por favor, eu quero crescer! Eu quero ser útil! Me dê uma casa boa!

E então… PLUFT!

Pipo aterrissou. Mas não foi uma batida seca. Foi macio. Ele caiu em uma terra escura, cheirosa e fofinha. O Jardineiro tinha passado ali antes, tirado as pedras, arrancado os espinhos e afofado a terra com muito carinho.

Pipo se sentiu abraçado pela terra. Era o lugar perfeito.

— Olá, Sementinha — sussurrou a Terra Boa. — Seja bem-vinda. Aqui você pode descansar.

Pouco tempo depois, começou a chover. Mas não era uma tempestade assustadora. Era uma chuvinha mansa e refrescante. Pipo bebeu aquela água gostosa e se sentiu inchando de alegria. O Jardineiro veio e cobriu Pipo com um pouquinho mais de terra, como quem cobre um filho com um cobertor. Ficou tudo escuro.

Se fosse outra semente, teria ficado com medo do escuro. Mas Pipo era a Sementinha Feliz. Ele sabia que aquele escuro não era o fim; era o começo. Era ali, no silêncio e no escurinho, que a mágica acontecia.

A Grande Transformação

Passaram-se alguns dias. Pipo sentiu uma coceirinha na barriga. — Acho que está na hora! — disse ele.

Com muita coragem, Pipo rompeu sua casquinha. Crec! De dentro dele, saiu uma raiz pequena que foi descendo, descendo, descendo, bebendo água e se segurando firme na terra boa. E para cima, saiu um talinho verde, procurando a luz.

Pipo fez força. Força, força! Ele furou a terra e… POP! Viu o sol de novo! Mas agora ele não era mais uma sementinha redonda. Ele era um brotinho verde e lindo!

O Grande Jardineiro passava por ali todos os dias. Ele regava Pipo, sorria para ele e espantava os passarinhos que queriam bicar suas folhinhas. Pipo crescia feliz porque suas raízes estavam fundas (então o sol não o queimava) e ele tinha espaço (porque não tinha espinhos para sufocá-lo).

Os dias viraram semanas. O brotinho virou uma planta. A planta virou um caule forte. E então, numa manhã de primavera, algo maravilhoso aconteceu. No topo da cabeça de Pipo, brotaram espigas douradas, cheias, pesadas e lindas.

Pipo olhou para si mesmo. Ele não era mais apenas Pipo. Ele tinha se transformado em um Trigo Dourado, e dentro de suas espigas, havia trinta, sessenta, cem novas sementinhas!

Ele estava tão feliz que balançava de um lado para o outro quando o vento passava, como se estivesse dançando. Passarinhos vinham descansar em sua sombra (mas agora sem comê-lo). As formigas passeavam por seu caule. E o Grande Jardineiro olhou para ele, tocou suas folhas e disse: — Muito bem, meu amigo. Você encontrou a Terra Boa, e agora você alimenta o mundo.

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