A Princesa que Sempre Queria Ganhar

A princesa Cora ganhava sempre.
Ganhava no jogo das cinco marias. Ganhava na corrida do corredor. Ganhava no jogo de adivinhar quantos dedos estavam escondidos atrás das costas.
Ganhava de todo mundo do castelo: das damas, dos guardas, do cozinheiro, do próprio pai.
E ela achava isso completamente normal.
O problema de ganhar sempre
O que Cora não sabia é que tinha um combinado.
Era assim: quando alguém do castelo ia jogar com a princesa, um dos mais velhos chegava perto e cochichava:
— Deixa ela ganhar. Senão ela chora, e quando ela chora o rei fica de mau humor, e quando o rei fica de mau humor o jantar atrasa.
Então o guarda corria mais devagar. A dama errava a contagem de propósito. O cozinheiro fingia que tinha se enganado.
E a Cora ganhava, e batia palma, e dizia:
— Ganhei de novo! Eu sou muito boa nisso!
E todo mundo dizia "é mesmo, alteza", e olhava para o chão.
A menina nova
Um dia, chegou ao castelo um tratador de cavalos novo. E, junto com ele, veio a filha, que tinha mais ou menos a idade da princesa e se chamava Dita.
A Dita não sabia de combinado nenhum. Tinha chegado naquela manhã.
Na primeira tarde, ela estava sentada no chão do pátio, jogando cinco marias sozinha, com cinco pedrinhas de rio.
A princesa Cora chegou perto.
— Eu jogo isso.
— Então joga — disse a Dita, e empurrou as pedrinhas para o meio.
A partida
Cora jogou primeiro.
Foi bem na primeira rodada, foi bem na segunda, e deixou a pedrinha cair na terceira.
— Sua vez — ela disse, esperando que a menina errasse logo.
A Dita pegou as pedrinhas.
E aí a princesa viu uma coisa que nunca tinha visto na vida.
A Dita jogava rápido. A pedrinha subia, ela pegava uma do chão, virava a mão e aparava a de cima, tudo num movimento só, sem nem parecer que estava pensando. Passou da primeira, da segunda, da terceira, da quarta.
Fez a rodada inteira sem errar uma vez.
Depois olhou para a princesa e falou:
— Ganhei.
O chilique
Cora ficou branca. Depois vermelha.
— Você trapaceou.
— Trapaceei nada.
— Trapaceou! Ninguém passa a rodada inteira sem errar!
— Eu pego. Eu jogo isso desde os quatro anos com meus irmãos. — A Dita deu de ombros. — Quer de novo?
Cora levantou, chutou as pedrinhas para longe e saiu andando dura, com os olhos cheios d'água, até o quarto.
Bateu a porta.
E o jantar atrasou.
O que o rei falou
À noite, o rei entrou no quarto e sentou na beirada da cama.
Ele não era de dar sermão. Era mais de ficar quieto até a pessoa falar sozinha.
Deu certo.
— Pai, aquela menina trapaceou.
— Trapaceou?
— Ela passou a rodada inteira sem errar nenhuma vez.
— Isso é trapaça ou é habilidade?
Cora ficou emburrada.
— Eu perdi.
— Perdeu. — O rei coçou a barba. — Sabe há quanto tempo você não perdia?
— Eu nunca perdi.
— Pois é. — Ele olhou para ela. — E você não achou isso estranho?
Cora abriu a boca para responder. E fechou.
Porque, agora que o pai tinha falado, era estranho, sim.
Nunca? Nem uma vez? Nem no dia em que ela estava com sono e jogou torto? Nem naquela corrida contra o guarda das pernas compridas?
Ela ficou olhando para o teto, com uma coisa incômoda crescendo dentro dela.
— Pai. Todo mundo tava me deixando ganhar?
O rei demorou para responder.
— Estava.
— Você também?
— Eu também.
A descoberta ruim
Cora não dormiu direito naquela noite.
Ela ficou pensando em todas as vezes que tinha batido palma e dito "eu sou muito boa nisso".
E em todas as caras que tinham olhado para o chão.
De manhã, ela chegou na cozinha e perguntou para o cozinheiro:
— Você já me deixou ganhar?
O homem ficou sem graça e amassou o pano de prato na mão.
— Já, alteza.
— Quantas vezes?
— Todas.
Cora fez que sim com a cabeça, devagar. E foi embora sem dizer mais nada.
Não era raiva. Era outra coisa, pior. Era a sensação de que nada do que ela tinha ganhado na vida tinha acontecido de verdade.
O pedido
Naquela tarde, a princesa foi até o pátio dos cavalos.
A Dita estava lá, catando pedrinha no chão.
Cora respirou fundo.
— Desculpa por ontem. Você não trapaceou.
A Dita olhou desconfiada.
— Tá.
— Eu quero jogar de novo. — Cora sentou no chão de pedra, de vestido e tudo. — Mas jogando de verdade. Sem me deixar ganhar. Nunca.
— Eu nem sei deixar ganhar.
— Melhor ainda.
As trinta e uma derrotas
Cora perdeu naquele dia.
Perdeu no dia seguinte.
Perdeu na semana seguinte inteira.
Ela perdeu tanto que começou a achar graça de perder, o que é uma coisa que só acontece quando a gente joga muito com alguém.
E, enquanto perdia, ela ia aprendendo. Aprendeu a jogar a pedrinha mais baixo, que dá mais tempo. Aprendeu a deixar a mão solta em vez de dura. Aprendeu a olhar para o chão e não para o alto.
A Dita ensinava tudo, sem esconder nada.
A partida trinta e dois
Foi numa quinta-feira, no fim da tarde, com o sol batendo de lado no pátio.
Cora jogou a pedrinha, pegou uma, virou a mão e aparou.
Depois duas.
Depois três.
Depois quatro.
Passou a rodada inteira sem errar.
Ela ficou olhando para a mão fechada com as pedrinhas dentro, sem acreditar.
A Dita deu um assobio.
— Eita.
Cora não bateu palma. Não disse "eu sou muito boa nisso".
Ela só ficou ali, sentada no chão de pedra, com o coração batendo forte e um sorriso enorme que ela não conseguia segurar.
Porque aquela, de todas as vezes, foi a primeira que contou.
Depois
A princesa Cora continuou perdendo bastante, para ser sincera. A Dita era melhor, e pronto.
Mas, desde aquele dia, nunca mais ninguém no castelo deixou ela ganhar de propósito.
O guarda das pernas compridas passou a correr com tudo, e a Cora nunca mais venceu uma corrida no corredor.
O cozinheiro acertava a conta dos dedos escondidos quase sempre.
E o rei, que era muito bom no jogo de adivinhação, ganhava dela três vezes em cada quatro. Ficava até meio sem graça.
Mas a Cora não ligava.
De noite, quando ela deitava, tinha um potinho de barro na mesinha do lado da cama, com cinco pedrinhas de rio dentro.
Era o presente que a Dita tinha dado para ela.
E ela dormia ouvindo o barulhinho delas quando encostava a mão no pote.
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