A Princesa que Via o Mundo Embaçado

5 min de leituraHistorinha para dormir
A Princesa que Via o Mundo Embaçado
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A princesa Olívia morava num castelo em cima de um morro, com uma sacada de pedra que dava para o reino inteiro.

Todo mundo dizia que a vista de lá era a coisa mais bonita do mundo.

Olívia concordava, para não ser mal-educada. Mas, sinceramente, ela não entendia a graça. Para ela, dali de cima o reino era um borrão verde com uns borrões marrons no meio.

Os enganos da princesa

Olívia vivia se enganando.

Ela chamava o embaixador de "senhor jardineiro" e o jardineiro de "senhor embaixador". Os dois eram baixinhos e usavam chapéu, e de longe ficavam exatamente iguais.

No pátio, uma vez, ela acenou a tarde inteira para uma estátua achando que era a governanta.

Na aula, quando o professor escrevia no quadro, ela copiava tudo errado. Depois o pai olhava o caderno e perguntava por que ela tinha escrito que o reino tinha doze vilas, se o certo era doze ilhas.

— É que o giz é muito fininho — dizia Olívia.

E, à noite, na sacada, quando a cozinheira falava das estrelas, Olívia ficava meio sem graça.

Porque ela olhava para cima e não via estrela nenhuma. Via umas manchinhas claras, tremidas, borradas, como se alguém tivesse cuspido leite no céu.

Ela achava que era assim para todo mundo. Nunca tinha pensado que pudesse ser diferente.

O dia do desfile

O problema ficou grande no dia do desfile dos cavalos.

O reino inteiro se juntou no pátio. Olívia tinha que ficar na escadaria, cumprimentar cada cavaleiro pelo nome e entregar uma fita de honra.

Ela treinou a semana inteira. Decorou os nomes na ordem.

Só que os cavaleiros chegaram fora da ordem.

E Olívia, que não conseguia distinguir um rosto do outro a três passos de distância, chamou o cavaleiro Lucas de "cavaleiro Tomás", entregou a fita azul para quem devia receber a verde e, no fim, cumprimentou o próprio primo achando que era o ferreiro.

Todo mundo riu. Não riu com maldade, mas riu.

Olívia subiu para o quarto, fechou a porta e não quis jantar.

A cozinheira

Quem bateu na porta foi a Dona Zefa, a cozinheira do castelo, com um prato de bolo.

Dona Zefa era baixinha, tinha as mãos grossas de tanto sovar pão e não tinha paciência nenhuma para tristeza comprida.

— Abre essa porta, menina.

Olívia abriu.

Dona Zefa entrou, colocou o prato na mesa e ficou olhando para a princesa com os olhos apertados.

— Você não é atrapalhada, não. Eu já reparei faz tempo.

— Reparou o quê?

— Que você chega perto demais das coisas. Você encosta o nariz no livro. Você aperta os olhos pra olhar o relógio da torre. E, ontem, você me chamou de "vossa alteza" no corredor.

Olívia ficou vermelha.

— Você não tá confundindo as pessoas, minha filha. Você não tá enxergando as pessoas.

A lente do relojoeiro

No dia seguinte, Dona Zefa levou Olívia até a oficina do relojoeiro do reino, no fim da rua de baixo.

O relojoeiro era um velhinho cheio de lentes espalhadas pela bancada, dessas que ele encaixava no olho para mexer nas peças pequenininhas dos relógios.

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Ele mexeu na bancada, achou uma lente diferente das outras — fininha no meio, grossa nas beiradas — e segurou na frente do olho de Olívia.

— Olha pela janela e me diz o que você vê.

Olívia olhou.

E quase caiu para trás.

A árvore do outro lado da rua, que ela sempre tinha visto como uma mancha verde, tinha folhas. Folhas separadas, uma do lado da outra, mexendo com o vento, cada uma com um risquinho no meio.

— Tem folha — ela disse, com a voz esquisita. — Tem um monte de folha.

— Tem — disse o velhinho, tranquilo. — Sempre teve.

Os óculos

O relojoeiro passou três dias trabalhando. Fez uma armação de metal dourado, fininha, com duas lentes redondas, do jeitinho que servia nos olhos da princesa.

Quando Olívia colocou os óculos pela primeira vez, ela não disse nada por um tempo bem comprido.

Depois começou a andar pelo castelo apontando as coisas.

— A tapeçaria tem um cachorro! Eu achava que aquilo era uma mancha!

— O escudo tem letras!

— Dona Zefa, a senhora tem uma pinta aqui no queixo!

— Tenho desde que nasci, menina.

A noite na sacada

Mas a melhor parte foi de noite.

Olívia subiu correndo na sacada de pedra, com Dona Zefa atrás, reclamando da escada.

A princesa levantou a cabeça.

E lá estavam elas.

Não eram manchinhas tremidas. Eram estrelas. Pontinhos nítidos, firmes, afiados, espalhados por todo lado, alguns maiores, outros miudinhos, uns azulados, uns amarelados. Tinha tanta estrela que ela não conseguia olhar para todas.

Olívia ficou de boca aberta.

— Dona Zefa… é assim que a senhora sempre viu?

— É assim.

— E ninguém nunca me falou?

Dona Zefa deu de ombros.

— Ninguém sabia que você via diferente, minha filha. Nem você.

O desfile de novo

No desfile do ano seguinte, a princesa Olívia ficou na escadaria de óculos.

Chamou cada cavaleiro pelo nome certo, entregou cada fita na cor certa, e ainda reparou que o cavaleiro Tomás tinha cortado o cabelo.

Mas o que ela mais gostou não foi o desfile.

Foi de noite, quando todo mundo já tinha ido embora e ela subiu na sacada, encostou os cotovelos na pedra e ficou olhando o céu inteiro, sem pressa nenhuma, contando estrelas que ela nem sabia que existiam.

Ela dormiu tarde naquele dia. E dormiu com os óculos guardados na mesinha do lado da cama, bem no lugar onde a mão alcança de primeira quando a gente acorda.

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