A Coroa de Papelão

O convite chegou numa segunda-feira, dentro da mochila da Aninha. Era cor-de-rosa, tinha glitter que soltava em tudo e dizia, com letras cheias de curvinhas:
Festa da Sofia — 6 anos. Tema: Princesas. Venha fantasiada!
A Aninha leu o convite umas vinte vezes no caminho de casa.
A conta do fim do mês
À noite, a mãe da Aninha sentou-se à mesa da cozinha com um caderninho e uma calculadora. Era o que ela sempre fazia no fim do mês. Escrevia uns números, apagava, escrevia de novo, e suspirava.
A Aninha tinha visto a fantasia de princesa na vitrine da loja do centro. Um vestido azul brilhante, com capa, luvinhas e uma coroa de plástico que parecia de diamante.
Ela abriu a boca para pedir.
Depois olhou para o caderninho. Olhou para a testa franzida da mãe.
E fechou a boca.
— Mãe, eu nem ligo pra fantasia — ela disse, dando de ombros. — Posso ir com o vestido de domingo.
A mãe olhou para ela por cima da calculadora. Conhecia aquele dar de ombros.
— Sabe o que eu acho? — disse a mãe, fechando o caderninho. — Que princesa de verdade faz a própria coroa.
A oficina da cozinha
No sábado de manhã, a mesa da cozinha virou uma oficina.
A mãe recortou uma caixa vazia de sabão em pó e desenhou as pontas da coroa com uma caneta. A Aninha cobriu tudo com papel-alumínio, bem esticadinho, sem deixar nenhum pedaço aparecendo.
Depois vieram as joias. A Aninha tinha uma coleção de tampinhas de garrafa guardada num pote: vermelhas, verdes, azuis, douradas. Colaram uma em cada ponta da coroa.
Para a capa, a mãe foi até o armário e tirou uma cortina de renda branca, velhinha, que tinha sido da avó. Deu dois pontos de linha num lado, amarrou uma fita no outro, e pronto.
A Aninha se olhou no espelho do guarda-roupa.
A coroa brilhava. A capa arrastava no chão. As tampinhas pareciam pedras preciosas.
Ela achou lindo.
A festa
A festa da Sofia era no quintal, cheio de bandeirinhas e balões cor-de-rosa. Quando a Aninha chegou, parou no portão.
Todas as meninas estavam com fantasias de loja. Vestidos azuis, vestidos amarelos, vestidos com saia de tule que fazia shhh quando elas andavam. Coroas de plástico brilhante. Sapatinhos que acendiam luz no calcanhar.
A Aninha puxou a capa de renda para perto do corpo.
Uma menina chamada Letícia olhou para ela e riu.
— Sua coroa é de caixa!
Algumas meninas riram junto. A Aninha sentiu o rosto ficar quente. Pensou em tirar a coroa e esconder debaixo da mesa. Pensou em ir embora.
Mas, antes que ela conseguisse decidir, a Sofia, a aniversariante, veio correndo e parou bem na frente dela.
A pergunta da Sofia
A Sofia ficou olhando para a coroa da Aninha com a cabeça inclinada.
— Isso aí é tampinha?
— É — a Aninha respondeu, bem baixinho.
— Foi você que fez?
— Eu e minha mãe.
A Sofia arregalou os olhos.
— Você fez uma coroa?
A Aninha fez que sim com a cabeça.
— E dá pra fazer outra?
A Aninha pensou. Olhou em volta. Viu, perto da churrasqueira, uma pilha de caixas de papelão vazias, das bebidas da festa.
— Dá. Se tiver tesoura e cola.
A fábrica de coroas
A mãe da Sofia achou a tesoura sem ponta e a cola. O pai da Sofia trouxe o rolo de papel-alumínio da cozinha. A Sofia juntou as tampinhas das garrafas de refrigerante da festa. E, de repente, a mesa comprida da festa virou uma fábrica de coroas.
A Aninha mostrava como fazer:
— Primeiro desenha as pontas. Depois recorta devagar. Depois cobre com o papel prateado, bem esticadinho. E as joias por último.
Cada criança fazia a sua de um jeito. Teve coroa com cinco pontas e coroa com vinte. Teve coroa com tampinha verde e coroa com tampinha de todas as cores. Um menino fez uma coroa tão alta que ela caía para trás e ele teve que segurar com a mão.
Até a Letícia, a que tinha rido, chegou perto, meio envergonhada.
— Aninha… me ajuda a fazer a minha?
A Aninha ajudou.
Quando cantaram parabéns, a Sofia não estava com a coroa de plástico brilhante. Estava com uma coroa de papelão, meio torta, cheia de tampinhas vermelhas, que ela tinha feito com as próprias mãos.
A volta para casa
No caminho de volta, a Aninha foi segurando a mão da mãe e contando tudo, sem parar para respirar.
— E aí a Sofia perguntou se dava pra fazer outra, e eu disse que dava, e aí todo mundo fez, até a Letícia, mãe, até a Letícia!
A mãe só sorria.
— Mãe — disse a Aninha, já quase em casa. — Acho que você estava certa. Princesa de verdade faz a própria coroa.
— E ainda ensina as outras a fazer — completou a mãe.
Na prateleira
Naquela noite, a coroa de papelão foi para a prateleira em cima da cama da Aninha.
A luz do poste da rua entrava pela fresta da janela e batia bem nela, fazendo o papel-alumínio brilhar e as tampinhas acenderem, uma por uma: vermelha, verde, azul, dourada.
A Aninha ficou olhando para a coroa até os olhos ficarem pesados.
E dormiu antes que a última tampinha apagasse.
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