A Princesa que Falava com o Vento

10 min de leituraHistorinha para dormir
A Princesa que Falava com o Vento
Ads

Era uma vez, no reino alto e ventoso de Zefíria, uma princesa chamada Áurea. Ao contrário das outras princesas, que recebiam presentes de fadas ou bênçãos de beleza ao nascer, Áurea recebeu algo muito mais antigo e incontrolável: o Vento Norte soprou em seu berço e lhe deu o dom da escuta.

Áurea cresceu ouvindo o que ninguém mais ouvia. Para o rei e a rainha, o vento era apenas uma brisa que bagunçava os cabelos ou uma tempestade que batia as janelas. Mas, para Áurea, o vento tinha voz. Ele tinha vocabulário, entonação e, acima de tudo, uma honestidade brutal.

No começo, o dom parecia divertido. Quando Áurea tinha cinco anos, ela ria sozinha no jardim enquanto a brisa de verão lhe contava que o padeiro real tinha queimado os bolos e estava tentando escondê-los debaixo de uma toalha chique.

— O bolo está queimado, papai! — disse ela durante o chá, apontando para o prato coberto.

Todos riram quando descobriram que era verdade. “Que criança perspicaz!”, diziam.

Mas, à medida que Áurea crescia, o vento deixava de contar travessuras infantis. O vento via tudo, passava por frestas, cruzava oceanos e entrava em salas trancadas. E o problema do vento é que ele não entende a etiqueta, a diplomacia ou as “mentiras gentis” que as pessoas usam para conviver em sociedade. O vento só conhece a verdade nua e crua.

Quando Áurea completou doze anos, um duque vizinho veio visitar o castelo, trazendo presentes extravagantes e sorrisos largos. — Ele é o homem mais generoso do continente — disse o Rei, encantado.

Mas o Vento Leste sussurrou violentamente no ouvido de Áurea, despenteando sua trança: “Ele não é generoso. Ele está falido. Ele quer casar com sua irmã mais velha para roubar o ouro de Zefíria e pagar as dívidas de jogo.”

Áurea, inocente, repetiu o que ouviu. O banquete parou. O silêncio foi ensurdecedor. O duque ficou vermelho, o Rei ficou furioso, e Áurea foi mandada para o quarto. Dias depois, descobriram que era verdade, mas ninguém agradeceu à princesa. Pelo contrário, os nobres começaram a evitá-la.

— Lá vem ela — cochichavam as damas da corte, cobrindo a boca. — A Princesa das Verdades Feias. Não chegue perto, ou ela revelará que seu colar é falso ou que você não gosta da Rainha.

Áurea tornou-se solitária. Ela tentou tapar os ouvidos, usar chapéus grossos, fechar as janelas. Mas o vento uivava nas chaminés. — Por que se esconde, Pequena Flor? — assobiava o vento. — A mentira é uma névoa, mas a verdade é a luz do sol. Dói nos olhos, mas é a única coisa que permite ver o caminho.

— Ninguém quer ver o caminho! — gritava Áurea de volta, chorando. — Eles preferem a névoa! Eles me odeiam porque eu rasgo a névoa!

O reino de Zefíria, porém, adoeceu. Não foi uma doença de febre, mas uma doença de silêncio. Uma seca terrível começou a assolar as terras. Os rios baixaram, as colheitas secaram e o gado emagreceu.

O Rei convocou seus melhores conselheiros. — O que está havendo? — perguntava o monarca. — É apenas um ciclo natural, Majestade — dizia o Astrólogo, com medo de admitir que não sabia. — Os deuses estão testando nossa fé — dizia o Sacerdote, escondendo que os templos estavam vazios. — Temos reservas suficientes para anos — mentia o Tesoureiro, suando frio, pois os celeiros estavam quase vazios devido à má gestão.

Todos mentiam para manter o Rei calmo. Todos mentiam para manter seus cargos. E, enquanto mentiam, o povo passava fome.

Áurea estava em sua torre, observando a poeira cobrir o reino. O Vento Sul, quente e seco, entrou pela janela aberta. Ele não sussurrou; ele gritou com a voz de mil folhas secas se arrastando.

— Eles cavam no lugar errado! — rugiu o vento. — A água não sumiu. Ela foi bloqueada. O Grande Dique nas montanhas, construído pelo avô do seu pai, desmoronou e desviou o rio para uma caverna subterrânea. Ninguém vai lá ver porque têm medo dos lobos. Se não consertarem o dique em três dias, a água encontrará um novo caminho para o mar e Zefíria será um deserto para sempre.

Áurea sentiu um frio na espinha. Ela sabia a verdade. Mas também sabia que, se descesse até o Salão do Trono e dissesse que o Tesoureiro e os conselheiros eram incompetentes e mentirosos, seria expulsa novamente.

“Deixe que descubram sozinhos”, pensou ela.

Ads

Mas o vento soprou suavemente em seu rosto, como um beijo de mãe. — A verdade sem amor é uma arma, Áurea. Mas a verdade com coragem é a cura. Você não diz isso para feri-los. Você diz isso para salvá-los.

Áurea respirou fundo. Ela vestiu seu manto mais simples e desceu as escadas.

Ela entrou no Salão do Trono no momento em que o Tesoureiro garantia ao Rei que tudo ficaria bem. — Pai — disse Áurea. Sua voz não tremia.

O Rei suspirou, cansado. — Áurea, por favor. Não hoje. Não preciso saber quem não gosta da sopa ou quem tingiu o cabelo. Estamos em crise.

— Eu sei — disse ela, caminhando até o centro do salão. O vento girava ao redor dela, levantando a poeira do chão. — E a crise não vai acabar com palavras bonitas. O vento me disse onde está a água.

Os conselheiros riram nervosamente. — O vento? — zombou o Astrólogo. — Fantasias de criança.

— O vento diz que o Grande Dique nas montanhas ruiu — Áurea continuou, ignorando os risos. — A água está caindo nas cavernas profundas. Vocês têm medo dos lobos, e por isso nenhum guarda patrulha a fronteira norte há meses. É por isso que ninguém viu.

O Capitão da Guarda empalideceu. Ele vinha falsificando relatórios de patrulha para evitar o frio das montanhas. O silêncio que caiu sobre a sala foi pesado, mas diferente das outras vezes. Não era o silêncio do constrangimento, mas o do medo real.

— Se não consertarmos em três dias — disse Áurea, olhando nos olhos do pai —, Zefíria morrerá. O Tesoureiro diz que temos reservas, mas o vento que passa pelos celeiros me diz que o eco lá dentro é de espaços vazios.

O Rei olhou para o Tesoureiro, que baixou a cabeça. Olhou para o Capitão, que tremia. A verdade doeu. Doeu ver que seu reino era frágil e que seus homens de confiança eram falhos. O Rei sentiu uma pontada de orgulho ferido, mas, ao olhar para a filha, viu que ela não estava ali para humilhá-lo. Ela estava ali, parada sozinha contra a corte inteira, porque amava o reino mais do que temia a rejeição.

— Preparem os cavalos — ordenou o Rei, com a voz rouca. — Vamos para as montanhas.

A viagem foi dura. Encontraram os lobos, encontraram o frio, mas, ao chegarem ao local indicado, encontraram o dique rompido. A água preciosa rugia para dentro da terra escura. Homens trabalharam dia e noite, com o Rei e a Princesa carregando pedras lado a lado.

Três dias depois, a água voltou a correr pelo leito do rio. Quando a água chegou à cidade, o povo chorou de alegria.

Naquela noite, o Rei foi ao quarto de Áurea. As janelas estavam abertas. — Eu tive medo de você por muito tempo, minha filha — admitiu ele. — Eu achava que você trazia más notícias. Mas você apenas trazia a realidade, e eu era fraco demais para carregá-la.

— O vento não mente, papai — disse ela, sorrindo. — Mas às vezes ele é muito gelado.

— Então construiremos casacos mais fortes — respondeu o Rei, abraçando-a.

Daquele dia em diante, Áurea não foi mais a “Princesa das Verdades Feias”. Ela se tornou a Conselheira Real. As pessoas ainda ficavam nervosas perto dela, com medo de que seus segredos fossem revelados, mas aprenderam uma lição valiosa: em Zefíria, ninguém mais vivia na névoa.

E Áurea aprendeu que seu dom não era uma maldição. O vento continuava a sussurrar verdades que ninguém queria escutar, mas agora ela sabia como traduzi-las em verdades que todos precisavam ouvir.

 

✦

O Que Achou da Historinha?

Toque nas estrelas para avaliar

O que achou desta história?

Compartilhe a Historinha:

Comentários (0)

Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar!

Historinhas Relacionadas