A Princesa que Consertava Relógios

5 min de leituraHistorinha para dormir
A Princesa que Consertava Relógios
Ads

No reino de Vale Alto, todo mundo sabia que horas eram graças ao Grande Relógio.

Ele ficava no alto da torre mais alta do castelo, com um mostrador tão grande que dava para ler as horas do outro lado do rio. De hora em hora, o sino tocava, e o reino inteiro se organizava por ele: o padeiro tirava o pão do forno, a escola abria a porta, o barqueiro soltava a corda.

A princesa Amélia amava aquele relógio.

Mas não do jeito que as outras pessoas amavam. Ela não queria olhar para ele.

Ela queria saber como ele funcionava por dentro.

A oficina do Mestre Ângelo

Enquanto as outras princesas dos reinos vizinhos aprendiam a dançar e a bordar, a Amélia fugia para a oficina do Mestre Ângelo, o velho relojoeiro do castelo.

A oficina ficava no pé da torre e cheirava a óleo e madeira. Tinha relógio por todo lado: de parede, de bolso, de mesa, de cuco. E todos faziam tique-taque ao mesmo tempo, mas cada um no seu ritmo, de modo que a sala inteira parecia chover baixinho.

— Princesa não deveria estar aqui — dizia o Mestre Ângelo, todo dia.

— Eu sei — respondia a Amélia, todo dia, puxando um banquinho.

E ele, todo dia, ensinava alguma coisa.

Ensinou que todo relógio tem um coração, que se chama escapamento: uma pecinha que deixa a força da mola ou do peso escapar só um pouquinho de cada vez, e é daí que vem o tique-taque. Ensinou que engrenagem não gosta de sujeira nem de pressa. Ensinou a usar a lupa, a pinça e a chave pequena. E ensinou a coisa mais importante de todas:

— Antes de consertar, escuta.

A rainha não gostava

A rainha, mãe da Amélia, não achava aquilo nada apropriado.

— Uma princesa com as mãos sujas de graxa — suspirava ela. — O que é que vão dizer?

A Amélia escondia as mãos atrás das costas e prometia ir ao ensaio do baile. Ia. Dançava direitinho. E, no dia seguinte, voltava para a oficina.

A véspera da festa

Todo ano, no primeiro dia da primavera, Vale Alto fazia a sua maior festa.

E a festa começava de um jeito só: ao meio-dia em ponto, o Grande Relógio tocava doze badaladas, e na décima segunda todo mundo soltava as pipas coloridas no céu ao mesmo tempo.

Na véspera da festa, às seis da tarde, o sino tocou a sexta badalada…

…e o relógio parou.

Os ponteiros travaram. O tique-taque sumiu. A torre ficou num silêncio esquisito, que ninguém no reino se lembrava de já ter ouvido.

Mestre Ângelo de cama

O rei mandou chamar o relojoeiro na mesma hora.

Mas o Mestre Ângelo estava de cama, com febre e uma tosse feia. Não conseguia nem levantar, quanto mais subir os trezentos degraus da torre.

— Então chamem outro relojoeiro! — mandou o rei.

— Majestade, o mais perto fica a três dias de viagem.

A festa era no dia seguinte, ao meio-dia.

A Amélia estava no corredor, escutando. Ela olhou para a mãe. A mãe olhou para ela. E, pela primeira vez, a rainha não disse nada sobre mãos sujas.

Só disse:

— Vai.

Escuta primeiro

A Amélia subiu os trezentos degraus com uma lamparina, a caixa de ferramentas do Mestre Ângelo, o relógio de bolso dele e o avental de couro dele, que ficava enorme nela.

Ads

Lá em cima, na sala das engrenagens, era tudo gigante. Rodas dentadas do tamanho de uma mesa. Um pêndulo comprido parado no meio. E, pendurado numa corrente, o peso de ferro que dava força para tudo girar.

A primeira vontade dela foi mexer em tudo ao mesmo tempo.

Mas ela lembrou.

Antes de consertar, escuta.

Então ela ficou quieta. Deu um empurrãozinho no pêndulo, bem de leve, e encostou a orelha na grande roda do meio.

Tic… tic… crrr.

Ali. Um barulhinho arranhado, que não devia estar lá.

A pedrinha

A Amélia seguiu o barulho com a lupa, de roda em roda, de dente em dente.

Levou quase duas horas.

Até que achou: entre dois dentes de uma engrenagem pequena, perto do escapamento, estava presa uma pedrinha minúscula. Devia ter entrado com o vento, pela janelinha da torre. Era do tamanho de um grão de arroz, e estava travando o coração do relógio inteiro.

Com a pinça, bem devagar, sem pressa, ela puxou a pedrinha.

Depois limpou os dentes da engrenagem com um pincel. Pingou uma gota de óleo no eixo da roda, só uma, porque o Mestre Ângelo sempre dizia que óleo demais junta poeira. Conferiu cada roda mais uma vez.

E deu um empurrãozinho no pêndulo.

Tique.

Taque.

Tique.

Taque.

Meio-dia

O relógio tinha voltado a andar, mas estava atrasado. A Amélia acertou os ponteiros pelo relógio de bolso do Mestre Ângelo e passou a madrugada na torre, conferindo de hora em hora se ele não atrasava de novo.

No dia seguinte, a praça estava lotada. As crianças seguravam as pipas com força. O rei e a rainha estavam na varanda.

E, ao meio-dia em ponto, o sino tocou.

Uma. Duas. Três…

O reino inteiro contava junto.

…Onze. Doze.

E o céu de Vale Alto se encheu de pipas.

A tiara e o avental

Naquela tarde, a rainha foi até a oficina, onde a Amélia contava a história inteira para o Mestre Ângelo, que já estava melhor e tomava chá enrolado num cobertor.

A rainha trazia um pacote.

Dentro dele tinha um avental de couro novo, do tamanho da Amélia, com uma coroazinha bordada no bolso.

— Uma princesa com as mãos sujas de graxa — disse a rainha, e dessa vez sorria. — Vão dizer que o relógio do reino está em boas mãos.

Naquela noite, a Amélia dormiu com a janela aberta, ouvindo lá no alto da torre o tique-taque do Grande Relógio, marcando a hora certinha para todo mundo.

Ads

O Que Achou da Historinha?

Toque nas estrelas para avaliar

O que achou desta história?

Compartilhe a Historinha:

Comentários (0)

Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar!

Historinhas Relacionadas

A Princesa de Botas e a Bruxa dos Espinheiros
Historinha Para Dormir
5 min

A Princesa de Botas e a Bruxa dos Espinheiros

No Reino de Cristalina, as princesas deveriam usar sapatos de vidro e bordar lenços. Mas a Princesa Íris preferia usar botas de couro velhas e explorar cavernas. Quando uma antiga maldição transforma todos os rios do reino em pedra roxa e sólida, Íris decide procurar a temida Bruxa dos Espinheiros, a única que conhece a cura. Para a surpresa da princesa, a bruxa Morgana não é um monstro devorador de crianças, mas sim uma senhora rabugenta que só quer tomar seu chá em paz. Juntas, uma princesa aventureira e uma bruxa mal-humorada formarão a aliança mais improvável de todas para escalar a Montanha dos Ventos e salvar o reino, provando que nem toda bruxa é vilã e nem toda princesa precisa ser salva.

Leitura rápidaLer →