A Princesa e a Palavra Errada

O rio Lume dividia dois reinos.
De um lado ficava Aleria, com o castelo de pedra clara. Do outro ficava Belmonte, com os telhados vermelhos.
Os dois povos eram vizinhos havia séculos. Trocavam trigo por sal, lã por madeira, e atravessavam a ponte quase todo dia.
Só que eles falavam línguas diferentes. E, para conversar, dependiam sempre da mesma pessoa: o velho tradutor da corte, o Mestre Aldo. No mercado, todos se entendiam com sinais e números nos dedos, mas ninguém dos dois lados sabia ler uma frase inteira da língua do outro.
A carta
Numa primavera, o rei de Belmonte mandou uma carta a Aleria.
O Mestre Aldo estava de cama. A gripe dele tinha virado febre, e o médico avisou que ele levaria semanas para conseguir sentar. Então o rei de Aleria chamou um ajudante para traduzir a carta ali mesmo, na sala do trono, na frente de todos os conselheiros.
O ajudante leu, ficou pálido e disse:
— Majestade… eles dizem que vão tomar o moinho do rio.
Fez-se um silêncio horrível na sala.
O moinho ficava bem no meio da ponte e moía o trigo dos dois reinos.
— Tomar? — repetiu o rei, devagar. — Eles vão tomar o nosso moinho?
Os conselheiros começaram a falar todos ao mesmo tempo. Alguém disse "afronta". Alguém disse "exército". Alguém mandou fechar a ponte naquele mesmo dia.
E a ponte foi fechada.
Com ela parou também o moinho, lá no meio, moendo trigo de ninguém.
O que ninguém fez
Nos dias seguintes, tudo piorou depressa.
Belmonte não entendeu por que a ponte tinha sido fechada e parou de mandar o sal. Aleria, sem sal, parou de mandar o trigo. Os dois lados começaram a treinar soldados na beira do rio, à vista um do outro.
E, em nenhum desses dias, ninguém dos dois reinos fez a coisa mais simples do mundo.
Ninguém perguntou.
A princesa Inês
A princesa Inês tinha doze anos e estava sempre na biblioteca.
Ela ficou pensando naquela palavra.
Porque tinha uma coisa esquisita: se os dois reinos eram vizinhos havia séculos, por que iriam tomar um moinho que já era dos dois?
Ela foi falar com o Mestre Aldo, que ainda estava de cama, com um cobertor até o nariz.
— Mestre, na língua de Belmonte, como se diz "tomar"?
O velho tossiu, cansado, e pensou.
— Depende, minha princesa. Tem uma palavra lá que quer dizer "tomar" de pegar à força. E tem outra, quase igual, mudando só uma letrinha no meio, que quer dizer "cuidar", "consertar". — Ele fez uma careta. — Quem não estudou direito troca as duas.
A Inês sentiu um arrepio.
A carta podia estar dizendo que Belmonte ia consertar o moinho. Que estava caindo aos pedaços mesmo, todo mundo sabia.
A menina da outra margem
Ela contou ao pai. O rei achou arriscado demais acreditar naquilo e mandou a filha ficar quieta.
Então a Inês fez o que pôde sozinha.
Foi até a beira do rio, num trecho onde a água era rasa e dava para conversar de uma margem para a outra, e esperou.
No fim da tarde, apareceu do outro lado uma menina mais ou menos da idade dela, com uma cesta, procurando amoras.
A Inês acenou.
A menina acenou de volta, desconfiada.
E aí a Inês apontou para a cesta e disse, na própria língua:
— Amora!
A menina riu e disse a palavra dela para amora, que era completamente diferente.
A Inês tirou o caderninho do bolso e anotou.
O caderno
Elas se encontraram no dia seguinte. E no outro.
A menina se chamava Tessa. Ela também levou um caderno.
E as duas começaram a trocar palavras, apontando para as coisas: rio, pão, pedra, mão, pai, medo, amiga.
Foi devagar, e foi cheio de enganos engraçados. Uma vez a Inês apontou para o céu querendo dizer "nuvem" e aprendeu, sem saber, a palavra "chuva". Levou três dias para descobrir e as duas riram tanto que a Inês quase caiu da pedra.
No fim de duas semanas, elas já conseguiam conversar um pouquinho.
E foi assim que a Inês perguntou o que ninguém tinha perguntado.
— Tessa. A carta do seu rei. O que ela dizia sobre o moinho?
A Tessa não entendeu de primeira. Depois entendeu. E ficou de boca aberta.
— Consertar — disse ela. — Estava caindo. Meu pai é pedreiro. Ele ia junto.
A ponte
A Inês voltou correndo ao castelo, com o caderninho na mão, e pediu para falar com o pai e os conselheiros.
Mostrou o caderno. Mostrou as duas palavras, escritas uma embaixo da outra, quase iguais, diferentes por uma letra só.
Depois disse:
— E tem mais uma coisa. Eu perguntei.
O rei ficou muito quieto.
No dia seguinte, ele mandou reabrir a ponte e escreveu uma carta a Belmonte. Antes de mandar, pediu que a princesa lesse — e ela achou dois erros.
A resposta de Belmonte chegou em três dias. Eles também tinham achado estranho, e também tinham ficado com medo, e também não tinham perguntado.
O moinho
Naquele ano inteiro, a Inês continuou estudando: atravessou a ponte quase todo dia, com o caderninho debaixo do braço.
Naquele verão, os dois reinos consertaram o moinho juntos.
Na primeira manhã de obra, a Tessa apareceu na ponte com uma cesta de pães quentes, e as duas sentaram no parapeito para comer, conversando metade numa língua e metade na outra.
O pai da Tessa trabalhou na pedra. Os carpinteiros de Aleria refizeram a roda-d'água. E a ponte ficou tão cheia de gente indo e vindo que precisaram alargar a passagem.
Na inauguração, os dois reis fizeram discursos.
E foi a princesa Inês quem traduziu.
Depois
Anos depois, quando a Inês já era rainha, ela mandou fazer uma coisa que Aleria nunca tinha tido: uma escola de línguas, bem ao lado da ponte, aberta para os dois lados do rio.
Na parede da entrada, ela mandou escrever uma frase:
Antes de responder, pergunte. Antes de brigar, entenda.
E, embaixo, a mesma frase escrita na língua de Belmonte — revisada pela Tessa, que virou a primeira professora da escola.
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