A Ponte de Árvores dos Micos-Leões

5 min de leituraHistorinha para dormir
A Ponte de Árvores dos Micos-Leões
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Na Mata Atlântica de baixada, no interior do Rio de Janeiro, morava um grupo de micos-leões-dourados.

Eles eram do tamanho de um esquilo e tinham o pelo cor de laranja madura, brilhando no sol. Em volta do rosto, uma juba fofa, igual à de um leão bem pequeno. Por isso o nome.

O mais velho do grupo se chamava Dourado. Depois vinham a Tuca, o Pingo, a Amora e, agarradinhos nas costas do pai, dois filhotes gêmeos que ainda não tinham nome, porque eram tão pequenos que ninguém conseguia diferenciar um do outro.

O fim do mundo

A mata deles era boa. Tinha embaúba, tinha jaca, tinha bromélia cheia de bichinho gostoso escondido dentro.

Mas ela acabava.

De um lado, acabava no pasto. Do outro, acabava numa coisa comprida, preta e barulhenta, que os micos chamavam de "o rio duro".

Era uma estrada.

O Dourado levava os filhotes na beirada para mostrar.

— Tá vendo aquilo lá? Aquilo é o fim do mundo.

Do outro lado do rio duro dava para ver árvore. Muita árvore. Uma mata grande, verde, cheia de comida, com uns troncos tão gordos que nem dez micos abraçados dariam a volta.

— E por que a gente não vai lá?

— Porque ninguém vai — dizia o Dourado. — Quem desce, não volta.

Era verdade. Os micos vivem no alto, pulando de galho em galho. No chão, eles ficam lentos, atrapalhados, à vista de todo mundo. E, no chão do rio duro, ainda passavam aquelas coisas enormes e rápidas, roncando.

Um tio do Dourado tinha tentado, muito tempo antes.

Não voltou.

As pessoas do capacete

Um dia, apareceram pessoas.

Chegaram numa caminhonete, na beira da estrada, e ficaram lá embaixo o dia inteiro.

Os micos subiram no galho mais alto para espiar, prontos para fugir.

Mas as pessoas não olhavam para eles. Estavam ocupadas com umas cordas, umas tábuas e um monte de ferro comprido.

No primeiro dia, elas levantaram dois postes altos, um de cada lado da estrada.

No segundo dia, esticaram cabos de aço de um poste ao outro, bem lá em cima, na altura das copas.

No terceiro dia, amarraram tábuas e cordas nos cabos, uma depois da outra, até virar uma coisa comprida e estreita, pendurada no ar por cima do rio duro.

Aí elas guardaram tudo, entraram na caminhonete e foram embora.

E ficou aquilo.

O que é aquilo

O grupo passou uma semana só olhando.

— É armadilha — disse a Tuca.

— É ninho de gente — disse o Pingo.

— É caminho — disse o Dourado.

Todo mundo olhou para ele.

O velho estava sentado num galho, com a juba despenteada, coçando o queixo.

— Olha o formato. Começa aqui, termina lá. É caminho.

— E se for armadilha?

— Aí é armadilha. — Ele deu de ombros. — Mas eu já vi muita coisa nessa mata, e nunca vi um caminho aparecer sozinho no ar.

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O primeiro passo

Passaram mais dias.

Chegou a época seca, e a comida daquele lado foi ficando escassa. As embaúbas já estavam sem fruta, e as bromélias, secas.

Foi aí que o Dourado decidiu.

Numa manhã de névoa, ele subiu até o poste, pulou no cabo de aço e ficou de pé na primeira tábua.

A ponte balançou.

Ele agarrou a corda com as quatro patinhas, cravando as unhas no trançado. Esperou parar de balançar. Deu mais um passo.

Lá embaixo, muito embaixo, um caminhão passou roncando, e a ponte inteira estremeceu no vento.

O Dourado se agachou, se segurou e esperou.

Depois continuou.

Passo. Espera. Passo. Espera.

Do outro lado, a mata grande ia ficando cada vez mais perto.

E, quando ele finalmente pulou da última tábua para o galho de um jequitibá enorme, do outro lado, ele fez uma coisa que mico-leão faz quando está muito feliz: soltou um chamado agudo e comprido, que atravessou a estrada inteira.

Iiiiiiii!

Do lado de cá, o grupo inteiro respondeu junto.

A travessia

Depois daquele dia, a ponte virou coisa normal.

Atravessavam de manhã e voltavam de tarde. Ou atravessavam de tarde e dormiam do outro lado.

A Tuca atravessou. O Pingo atravessou. A Amora atravessou correndo, porque a Amora fazia tudo correndo.

E, quando os gêmeos ficaram grandes o bastante para largar as costas do pai, foi a vez deles.

O Dourado levou os dois até o poste.

— É a mesma coisa que galho — ele explicou. — Só que balança mais e não tem folha. Crava a unha. Não olha pra baixo.

Um dos gêmeos foi na frente, todo empolgado.

O outro ficou parado no começo da ponte, com a mãozinha agarrada na corda, sem sair do lugar.

O Dourado não empurrou. Sentou do lado dele e esperou.

Esperaram muito tempo, os dois ali, com a ponte balançando de leve e os caminhões passando embaixo.

Até que o filhote deu o primeiro passo sozinho.

A mata grande

Hoje, o grupo do Dourado usa os dois lados.

Eles acordam num lado, atravessam a ponte de manhã, passam o dia na mata grande comendo jaca e caçando bichinho nas bromélias, e voltam de tardinha, em fila, pela ponte, com o sol batendo de lado no pelo alaranjado.

De vez em quando, um carro para na beira da estrada. Desce gente com câmera, apontando para cima, dizendo "olha, olha, olha!".

Os micos nem ligam. Eles têm mais o que fazer.

E, ao anoitecer, o grupo inteiro se enfia num buraco de tronco oco para dormir, todos juntos, amontoados, com os rabos compridos pendurados para fora.

O Dourado dorme por último, como sempre.

Ele fica um tempinho olhando a ponte, ali no escuro, balançando devagar entre as duas matas.

E pensa que, às vezes, o fim do mundo é só um lugar onde ainda não construíram o caminho.

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