A Noite em que os Leões Dormiram

Daniel tinha uma janela.
Era uma janela do andar de cima da casa dele, virada para o lado da cidade onde ele tinha nascido, muito longe dali.
Três vezes por dia — de manhã, na hora do almoço e à noite —, Daniel abria aquela janela, se ajoelhava e rezava.
Ele fazia isso todo dia, havia tantos anos que nem lembrava de ter começado.
O homem de confiança
Daniel morava na Babilônia, mas não tinha nascido lá. Tinha sido levado para aquele país ainda menino, numa guerra, junto com muita gente do povo dele.
E, mesmo sendo de fora, ele foi crescendo e ficando conhecido por uma coisa: era o homem mais honesto do reino.
Tão honesto que o rei Dario, quando assumiu o trono, colocou Daniel como um dos chefes de todo o governo. E estava pensando em colocar ele acima de todos os outros.
Foi aí que começou o problema.
A inveja
Os outros chefes ficaram com uma inveja enorme.
— Por que logo ele? — resmungavam. — Ele nem é daqui!
Então eles se juntaram e passaram semanas investigando a vida de Daniel, procurando qualquer coisa errada.
Procuraram dinheiro desviado. Não acharam.
Procuraram documento falsificado. Não acharam.
Procuraram trabalho malfeito. Não acharam nada, nadinha.
Até que um deles disse:
— A gente nunca vai achar defeito nesse homem. Só tem um jeito: a gente inventa uma lei que ele não vai conseguir obedecer.
A lei da janela
Eles foram até o rei Dario, todos sorrisos, cheios de elogio.
— Ó rei, que viva para sempre! Tivemos uma ideia maravilhosa para mostrar como o senhor é grande. Faça uma lei: durante trinta dias, ninguém no reino pode fazer pedido a nenhum deus nem a nenhuma pessoa. Só ao senhor. E quem desobedecer vai para a cova dos leões.
O rei Dario gostou da ideia. Achou que era uma homenagem bonita.
E assinou a lei, sem desconfiar de nada.
A janela continuou aberta
A notícia correu a cidade inteira naquele mesmo dia.
Quando Daniel soube, ele subiu para o quarto de cima.
E ele podia ter feito várias coisas. Podia ter rezado escondido, debaixo do lençol. Podia ter fechado a janela e rezado baixinho. Podia ter parado por trinta dias, e depois tudo voltaria ao normal.
Daniel não fez nada disso.
Ele abriu a janela, do mesmo jeito de sempre, se ajoelhou e rezou. De manhã, na hora do almoço e à noite.
Os homens invejosos estavam esperando na rua. Viram tudo.
E foram correndo contar para o rei.
O rei descobre tarde demais
Quando o rei Dario entendeu o que tinha feito, ficou desesperado.
— Mas eu não queria pegar o Daniel!
— Ó rei — disseram os homens, muito satisfeitos —, o senhor mesmo assinou. E lei de rei não pode ser desfeita.
Dario passou o dia inteiro procurando um jeito de salvar Daniel. Consultou conselheiros, leu papéis, andou de um lado para o outro da sala do trono.
Não tinha jeito. A lei que ele mesmo tinha assinado prendia ele também.
Quando o sol se pôs, os guardas levaram Daniel para a cova dos leões.
Antes de fecharem a pedra da entrada, o rei se debruçou na beirada e disse, com a voz falhando:
— Que o seu Deus, a quem você serve sem parar, salve você.
E a pedra foi colocada no lugar.
A noite do rei
Aquela noite foi terrível para o rei Dario.
Ele voltou para o palácio e não quis jantar.
Mandou embora os músicos que tocavam para ele dormir.
Deitou na cama enorme dele, de olhos abertos no escuro, e ficou assim a noite inteira, ouvindo o vento nas cortinas e pensando no homem lá dentro da cova.
Não pregou o olho.
Mal o céu começou a clarear, ele levantou, vestiu o manto e saiu correndo pelo palácio, atravessou o pátio e foi até a cova, com os guardas correndo atrás, sem entender nada.
A noite de Daniel
E dentro da cova?
Dentro da cova estava escuro e cheirava a bicho.
Daniel ouviu os leões se mexerem quando ele desceu. Ouviu a respiração deles, grande e funda. Sentiu o cheiro quente.
Ele se ajoelhou no chão de pedra, do mesmo jeito que se ajoelhava na frente da janela.
E rezou.
O que aconteceu depois ninguém sabe explicar direito.
O fato é que os leões não encostaram nele.
Eles chegaram perto. Cheiraram. Deram uma volta. E depois foram deitando, um por um, no chão da cova, como gatos enormes com sono.
E dormiram.
Daniel passou a noite ali no meio deles, com a mão apoiada no chão frio, ouvindo aquela respiração toda, e acabou dormindo também.
De manhã
Lá de cima, bem cedinho, veio uma voz aflita, gritando:
— Daniel! Daniel, servo do Deus vivo! O seu Deus conseguiu livrar você dos leões?
Daniel acordou, se espreguiçou e respondeu:
— Ó rei, que viva para sempre! O meu Deus mandou um anjo e fechou a boca dos leões. Eles não me fizeram nada.
Dario deu um grito de alegria que acordou o palácio inteiro.
Mandou tirar a pedra na mesma hora, mandou puxar Daniel para cima com cordas, e, quando olharam bem, não tinha nem um arranhão nele.
Para pensar antes de dormir
Tem uma parte dessa história que é fácil de esquecer.
Enquanto Daniel dormia no meio dos leões, quem passou a noite acordado, angustiado, sem conseguir comer nem dormir, foi o rei — o homem mais poderoso do reino, deitado na cama mais confortável do palácio.
Daniel estava no pior lugar do mundo. Mas estava em paz, porque não tinha feito nada de errado e sabia de quem era a mão que segurava ele.
Hoje à noite, quando você deitar, lembre disso: dormir bem não depende do tamanho da cama. Depende de saber que a gente não está sozinho.
Essa história está na Bíblia, no livro de Daniel, capítulo 6.
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