A Mala que Nunca Parava de Crescer

Noé era um menino do tipo “mas e se…”. — Mas e se chover? — ele perguntava, colocando três capas de chuva na mochila. — Mas e se fizer sol? — ele continuava, enfiando dois bonés e um ventilador portátil. — Mas e se formos atacados por piratas espaciais? — e lá ia ele tentar empurrar sua espada de plástico e o capacete de astronauta.
A família de Noé estava prestes a sair para as férias de verão na Praia das Conchas. O carro já estava na garagem, o pai conferia o óleo e a mãe organizava os lanches. No quarto de Noé, porém, a situação era crítica. Sua pequena mala de rodinhas com estampa de dinossauro estava estufada, com o zíper gritando por socorro, prestes a explodir. Ele não tinha conseguido colocar nem metade do que achava “essencial”.
— Mãe! — gritou ele. — Não cabe o meu kit de mágica nem a minha coleção de pedras vulcânicas!
A mãe apareceu na porta, secando as mãos num pano de prato. — Noé, querido, vamos ficar fora só uma semana. Você precisa escolher. Leve apenas o que cabe na mala.
Noé bufou. Escolher era a pior coisa do mundo. Como escolher entre o Sr. Orelhudo (seu coelho de pelúcia) e o Robô Destruidor 3000? Era impossível.
Desesperado, ele correu até o sótão. Seu avô costumava guardar coisas velhas lá. Talvez houvesse uma mala maior. Ele revirou caixas de papelão, afastou teias de aranha e espirrou três vezes por causa da poeira. Foi então, num canto escuro, atrás de um manequim antigo e assustador, que ele viu.
Era uma mala de couro marrom, gasta pelo tempo, com fivelas de bronze que pareciam dois olhos dourados piscando para ele. Não parecia muito grande por fora — talvez do tamanho de uma caixa de sapatos grande —, mas tinha uma etiqueta pendurada onde se lia, em letras cursivas e douradas: Bagagem para Todos os Sonhos.
— Serve — disse Noé, arrastando a mala para o quarto. Ela era surpreendentemente leve.
Ele abriu as fivelas. Clec. Clec. A tampa se ergueu com um rangido suave. O interior era forrado de veludo azul-escuro, tão escuro que parecia não ter fundo.
Noé pegou o Sr. Orelhudo. — Vamos ver se você cabe, amigão. Ele soltou o coelho lá dentro. O bicho de pelúcia não bateu no fundo. Ele simplesmente… desceu suavemente e desapareceu na escuridão aveludada. Noé piscou. A mala continuava parecendo vazia.
Ele pegou o Robô Destruidor 3000. Jogou lá dentro. Fvuuupt. Sumiu.
Os olhos de Noé brilharam. — Interessante…
Ele pegou a coleção de pedras vulcânicas. Fvuuupt. O kit de mágica. Fvuuupt. As três capas de chuva, os dois bonés e o ventilador. Fvuuupt.
A mala continuava do mesmo tamanho, leve e aparentemente vazia. O coração de Noé disparou. Aquilo não era uma mala; era um buraco negro de férias!
A imaginação de Noé, que já era grande, explodiu. — E se a gente quiser andar de bicicleta na praia? — Ele arrastou sua bicicleta aro 20 para dentro do quarto. Com dificuldade, ergueu a roda dianteira sobre a boca da mala. A mala, magicamente, parecia esticar sua “boca” como uma cobra sucuri engolindo uma presa. Em segundos, a bicicleta inteira foi sugada para o abismo de veludo azul.
— Incrível! — gritou Noé.
Ele correu pela casa como um furacão. Foi à cozinha e pegou o pote de biscoitos inteiro. Dentro da mala. Foi ao quintal e pegou a mangueira (“Para lavar a areia dos pés”, justificou). Dentro da mala. Pegou sua bateria eletrônica (“Vai que temos um show de rock”). Dentro da mala.
A mala engolia tudo. Não havia limite. Ela não ficava pesada, não estufava, não reclamava. Era a mala perfeita para o menino do “mas e se…”.
Depois de vinte minutos, o quarto de Noé estava quase vazio. Ele tinha empacotado seus livros, seu skate, seu edredom favorito, uma cadeira de praia e até um vaso de samambaia que ele achava que ficaria triste sozinho em casa.
— Pronto! — disse ele, vitorioso, fechando as fivelas. Clec. Clec.
Ele desceu as escadas assobiando, segurando a mala pela alça com apenas um dedo. — Vamos, pai! Já estou pronto!
O pai olhou para a pequena mala de couro antigo. — Só isso, filho? Aprendeu a viajar leve? Estou orgulhoso!
Eles colocaram a bagagem no porta-malas e partiram. A viagem durou quatro horas. Durante todo o trajeto, Noé sorria, pensando em como seria o rei da praia com todas as suas posses à mão.
Chegaram à casa de praia no final da tarde. O mar estava azul e convidativo, mas Noé só queria saber de desempacotar. Ele levou a mala para seu quarto, colocou-a sobre a cama e abriu as fivelas.
Ele esperava que suas coisas pulassem para fora, ou que estivessem empilhadas ali. Mas, ao abrir a tampa… apenas o veludo azul-escuro o encarou.
— Ué? — Noé enfiou a mão. Tateou o vazio. Seu braço entrou até o ombro. Nada.
— Cadê minha bicicleta? Cadê o Sr. Orelhudo?
Ele enfiou a cabeça dentro da mala. Estava escuro, mas lá no fundo, muito longe, ele viu algo brilhando. Parecia o guidão da bicicleta.
— Ah, é só pegar — disse ele, esticando-se mais um pouco.
Foi um erro. Noé perdeu o equilíbrio. Seus pés saíram do chão, ele escorregou pela borda de couro e caiu.
Ele não se machucou. Caiu sobre uma montanha fofa de edredons (os dele). Noé olhou ao redor e seu queixo caiu. Ele estava dentro de uma caverna gigantesca, iluminada por uma luz estranha que vinha de lugar nenhum. E a caverna era feita das coisas dele.
Havia estalagmites feitas de livros empilhados. Um rio feito com a água da mangueira (que devia ter vazado) corria entre as pedras vulcânicas. A bicicleta estava pendurada em um lustre feito com o kit de mágica.
— Olá? — a voz de Noé ecoou.
— Olá… olá… olá… — respondeu o eco, vindo de trás de uma montanha de brinquedos esquecidos.
Noé tentou escalar a pilha de livros para alcançar a “saída”, que era um retângulo de luz lá no alto, muito distante. Mas, a cada passo que dava, ele tropeçava em algo que tinha trazido “só por precaução”. Tropeçou na rede de vôlei. Enroscou o pé no fio da bateria eletrônica. Escorregou num gibi antigo.
Ele percebeu o problema. Ele tinha trazido tanta coisa, tantos “e se”, que agora estava preso neles. As coisas não estavam servindo para diverti-lo; elas estavam no caminho.
— Eu só queria o Sr. Orelhudo — choramingou Noé, sentando-se numa pilha de meias.
De repente, ele ouviu um barulho. Pof-pof-pof. O Sr. Orelhudo veio rolando de cima de uma duna de travesseiros. Ele parou aos pés de Noé.
Noé abraçou o coelho com força. Naquele momento, cercado por tudo o que possuía, ele percebeu que a única coisa que realmente queria ali era seu amigo de pelúcia e a saída para poder ver o mar. A bicicleta não servia de nada dentro da mala. A bateria não tinha onde ser ligada.
— Mala! — gritou Noé para o céu de veludo. — Eu entendi! Eu não preciso disso tudo! Me deixe sair!
A mala pareceu tremer. O chão de edredons começou a se elevar. Como um elevador macio, a pilha de coisas começou a subir, empurrando Noé em direção à luz retangular.
Conforme ele subia, as coisas iam ficando para trás. A bicicleta caiu. O vaso de samambaia ficou. A coleção de pedras rolou para o fundo. Noé segurou apenas o Sr. Orelhudo.
POP!
Noé foi cuspido para fora da mala, caindo sentado no colchão da casa de praia. A mala se fechou sozinha com um estalo alto. CLEC!
Ele estava suando. Olhou para a mala de couro. Ela parecia inocente novamente. Noé tentou abri-la de novo. Desta vez, ela estava pesada. Muito pesada. Ele abriu a frestinha e virou a mala de cabeça para baixo.
Começou a cair coisa. Mas não tudo. Caiu o Sr. Orelhudo (de novo). Caíram três mudas de roupa. Caiu sua escova de dentes. E caiu um par de chinelos.
O resto — a bicicleta, a bateria, a mangueira — tinha desaparecido. A mala estava vazia e com o fundo raso de novo. No fundo do forro, havia um bilhete escrito com a mesma letra dourada da etiqueta:
“O excesso pesa a viagem. Aproveite o vento.”
Noé ouviu a voz do pai vindo da sala: — Filho! Vamos ver o pôr do sol?
Noé olhou para a mala, depois para o monte de brinquedos que ele não tinha mais. E, estranhamente, sentiu-se leve. Mais leve do que nunca.
— Já vou! — gritou ele.
Ele pegou o Sr. Orelhudo, calçou os chinelos que a mala devolveu e correu para fora. Naquela semana, Noé não andou de bicicleta, não tocou bateria e não usou a mangueira. Ele correu na areia com os próprios pés, tocou tambor em troncos de coqueiro e tomou banho de mar.
E foi a melhor viagem de todas.
Quando voltaram para casa, Noé devolveu a mala ao sótão. Ele a colocou no mesmo canto escuro. Antes de descer, ele jurou ter visto uma das fivelas piscar para ele. — Obrigado — sussurrou Noé.
E, lá embaixo, ele foi brincar, sabendo que as melhores aventuras não precisam de bagagem para acontecer.
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