A Lenda da Vitória-Régia

Isso aconteceu há muito tempo, numa aldeia perto de um lago, no meio da floresta amazônica.
Lá, todas as noites, quando a Lua subia grande e branca por cima das árvores, os mais velhos contavam a mesma história para as crianças.
Diziam que a Lua tinha um nome: Jaci.
E diziam que, de vez em quando, Jaci escolhia uma moça da aldeia, descia bem devagar, dava um beijo no rosto dela e levava ela para o céu.
E essa moça virava estrela.
Naiá
Entre as crianças que ouviam, tinha uma menina chamada Naiá.
Naiá era curiosa de um jeito que cansava os outros. Perguntava tudo. Por que o rio sobe. Por que a arara é de duas cores. Por que a chuva tem cheiro antes de chegar.
Mas, de todas as coisas do mundo, a que mais mexia com ela era aquela história.
Virar estrela.
Ela ficava deitada na rede, olhando pelo buraco do teto de palha, imaginando como seria ficar lá em cima, brilhando, vendo a floresta inteira de longe.
— Quando eu crescer — ela dizia —, Jaci vai me escolher.
Os mais velhos riam.
— Dorme, menina.
A procura
Quando Naiá cresceu mais um pouco, ela não quis mais esperar ser escolhida.
Resolveu ir atrás.
Toda noite, quando a aldeia dormia, Naiá saía sem fazer barulho e subia o morro mais alto que tinha por perto, para ficar mais perto do céu.
Chegava lá em cima, esticava os braços e chamava:
— Jaci! Jaci, olha eu aqui!
A Lua ficava lá, quieta, no mesmo lugar de sempre.
Naiá andava pela mata atrás dela. Quando a Lua parecia estar pousada em cima de uma árvore, Naiá corria até a árvore, e a Lua já tinha ido para outro lugar. Quando parecia estar do outro lado do rio, Naiá ia até a margem, e a Lua estava mais longe ainda.
Noite após noite, Naiá subiu morro, atravessou trilha, entrou mata adentro e voltou para casa de madrugada, com o pé sujo de barro e o coração apertado.
Ela ficou magrinha. Ficou com olheira. Mas não desistiu.
O lago
Numa noite de lua cheia, cansada de tanto procurar, Naiá sentou na beira do lago para descansar.
O lago estava liso feito um espelho. Sem vento nenhum, sem uma ondinha.
E, quando ela olhou para baixo, ela viu.
Jaci estava ali.
Inteira, redonda, branca, bem no meio da água escura, tão perto que dava para tocar.
Naiá não pensou. Não olhou para cima para conferir. Não lembrou que lua se reflete.
Ela só achou que, finalmente, a Lua tinha descido para buscar ela.
Sorriu. E entrou na água.
O que Jaci fez
A água era morna, macia, escura. E, conforme Naiá ia entrando, o reflexo da Lua ia se desmanchando em pedacinhos prateados em volta dela.
Ela nadou até o meio do lago. E ali, no meio de todo aquele prateado, ela ficou boiando, olhando para cima, para a Lua de verdade, com a floresta inteira quietinha em volta.
E o cansaço de tantas noites chegou junto.
Naiá foi ficando com sono. Um sono grande, gostoso, daqueles que a gente não consegue segurar.
E ela adormeceu ali, no meio da água.
Lá de cima, Jaci viu tudo.
Viu a menina que tinha subido todos aqueles morros. Viu a menina que tinha andado todas aquelas trilhas. Viu a menina que tinha procurado ela por tanto tempo.
E Jaci ficou com o coração apertado, porque não podia levar Naiá para o céu.
Mas podia fazer outra coisa.
— Você não vai ser uma estrela do céu — disse a Lua, bem baixinho, para não acordar ninguém. — Você vai ser uma estrela da água. E vai ser a maior de todas.
A flor
Na manhã seguinte, o pessoal da aldeia foi até o lago e encontrou uma coisa que nunca tinham visto.
No lugar onde Naiá tinha adormecido, tinha nascido uma planta.
As folhas eram enormes, redondas, verdes, boiando na superfície como bandejas, com a borda virada para cima. Eram tão grandes e tão firmes que dava para um passarinho pousar em cima e ficar andando.
E, no meio delas, tinha uma flor.
Uma flor grande, branca, de pétalas pontudas, com um cheiro doce que se espalhava por todo o lago.
Os mais velhos ficaram olhando por muito tempo. E um deles disse:
— É a Naiá.
A estrela das águas
Desde esse dia, a planta ficou.
Ela se chama vitória-régia, e existe de verdade, nos lagos e nos rios calmos da Amazônia. As folhas dela chegam a ser maiores que uma criança deitada.
E tem uma coisa nela que as pessoas da aldeia acharam que não era coincidência nenhuma.
A flor da vitória-régia não abre de dia.
Ela abre de noite.
Quando o sol se põe e a floresta escurece, a flor vai se abrindo devagarinho, branquinha, no meio da água escura — bem na hora em que Jaci aparece por cima das árvores.
E ficam assim as duas, uma lá em cima e outra aqui embaixo, olhando uma para a cara da outra a noite inteira.
Na primeira noite, a flor é branca como a lua.
Na segunda, ela vai ficando rosada, como quem fica meio sem graça de tanto ser olhada.
E aí ela fecha, e some na água, e outra abre no lugar dela.
Antes de dormir
Hoje em dia, quem passa de canoa por um lago da Amazônia numa noite de lua cheia vê aquele monte de folha redonda boiando, com as flores brancas abertas no meio.
E os mais velhos ainda contam a história para as crianças.
Dizem que a Naiá conseguiu, no fim das contas.
Que ela é uma estrela, sim. Só que é uma estrela que a gente pode chegar bem pertinho, de canoa, e ficar olhando.
E que ela fica acordada a noite inteira, mas dorme direitinho quando o sol nasce.
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