A Grande Viagem do Trem de Madeira

No quarto do pequeno Miguel, o chão não era apenas um chão de madeira envernizada. Para quem soubesse olhar com os olhos certos, era um continente vasto, cheio de vales, montanhas e perigos desconhecidos. E a artéria principal desse mundo era uma longa e sinuosa estrada de ferro feita de trilhos de madeira encaixáveis, que Miguel havia montado cuidadosamente antes de dormir.
O relógio de parede bateu doze vezes. O silêncio da casa era profundo, interrompido apenas pelo som do vento lá fora.
Foi então que a chaminé da locomotiva vermelha e azul soltou um puf de fumaça que cheirava a serragem e magia.
— Todos a bordo! — gritou uma voz rouca e amigável.
Quem falava era o Maquinista Bernardo, um urso de pelúcia que usava um boné de condutor ligeiramente grande demais para a sua cabeça. Ele estava na cabine da locomotiva, ajustando as alavancas de madeira que, àquela hora da noite, funcionavam de verdade.
Os brinquedos começaram a sair das suas prateleiras e caixas. Era a noite da Grande Expedição.
Primeiro, subiu a Bailarina de Caixa de Música, a Lira. Ela não dançava apenas; ela era a navegadora, pois conseguia girar e apontar para qualquer direção como uma bússola. Em seguida, marchou o Sargento Verde, um soldadinho de plástico que levava a segurança muito a sério, verificando se todos tinham os bilhetes (que eram pedaços de papel colorido picado).
Por último, veio correndo o Palhaço Paçoca, um boneco de pano com pernas moles que sempre chegava atrasado, tropeçando nos próprios sapatos gigantes. — Espereeeem por miiim! — gritou Paçoca, dando uma cambalhota acidental e caindo perfeitamente dentro do vagão de carga, em cima de uma pilha de blocos de montar.
— Estamos todos aqui? — perguntou Bernardo. — Então, segurem os seus chapéus. O Expresso de Madeira vai partir!
Piuííííí!
O apito soou baixo, para não acordar o Miguel. As rodas de madeira começaram a girar. Tuc-tuc, tuc-tuc, tuc-tuc. O som era rítmico e hipnotizante.
A primeira etapa da viagem foi cruzar o Deserto do Tapete Felpudo. O tapete bege da sala parecia um mar de areia fofa que se estendia até onde a vista alcançava. O trem balançava suavemente enquanto as rodas venciam a superfície irregular.
— Olhem à direita! — apontou Lira. — É a Grande Besta Adormecida!
Todos os brinquedos prenderam a respiração. Deitado no meio do tapete, roncando suavemente, estava o gato da família, o Bigodes. Para o trem, ele parecia uma esfinge gigante e peluda.
— Mantenham a velocidade constante — ordenou o Sargento Verde. — Se fizermos movimentos bruscos, a Besta pode acordar e pensar que somos ratos.
Bernardo guiou o trem com mãos firmes. Passaram a centímetros da cauda do gato, que deu uma leve chicotada durante um sonho, quase derrubando o vagão de passageiros. Paçoca cobriu os olhos com as mãos, mas o trem seguiu firme, deixando o perigo para trás.
A paisagem mudou quando entraram na Cozinha Gelada. O chão aqui era de azulejo frio e liso, o que fazia as rodas derraparem um pouco. O zumbido da geladeira soava como um vento uivante de uma tempestade de inverno.
— Estamos a perder tração! — gritou Bernardo. — As rodas estão a escorregar!
O trem começou a patinar, incapaz de subir a pequena rampa que levava à “Ilha da Mesa”.
— Precisamos de peso na frente! — gritou o Sargento Verde.
Rapidamente, Paçoca teve uma ideia. Ele pegou os blocos de montar que estavam no vagão de carga e começou a passá-los para a frente. Todos ajudaram, passando os blocos de pata em pata, de mão em mão, até chegarem à locomotiva. Com o peso extra sobre as rodas dianteiras, o trem ganhou firmeza. Tuc-tuc, tuc-tuc. Eles subiram a rampa e entraram no território mais perigoso de todos: o Corredor Escuro.
O corredor não tinha janelas. Era um túnel longo e cheio de sombras.
— Estou com medo — confessou Lira, a sua voz tremendo como uma corda de violino.
— Não precisa ter medo — disse Paçoca. — Eu conheço uma piada sobre uma sombra que tinha medo do escuro. Querem ouvir?
Mesmo nervosos, os brinquedos riram da história boba do palhaço, e o riso pareceu iluminar o caminho melhor do que qualquer farol. Eles perceberam que o medo diminuía quando estavam juntos e felizes.
Mas o maior desafio ainda estava por vir. Ao tentarem voltar para o quarto do Miguel, encontraram um desastre. O “Cânion da Porta” estava bloqueado. Miguel, sem querer, tinha chutado um dos trilhos antes de dormir, criando uma falha enorme na linha. Havia um buraco de quase um palmo entre um trilho e outro.
O trem parou bruscamente.
— Fim da linha — suspirou Bernardo, tirando o boné e coçando a cabeça felpuda. — Não conseguimos pular essa distância. Teremos de voltar a pé, e o Sol já vai nascer. Miguel vai encontrar o trem no meio do corredor e a magia vai quebrar-se.
Um silêncio triste abateu-se sobre o vagão.
— Esperem! — disse o Sargento Verde, que estava a observar o terreno. — Olhem aquilo ali.
Ao lado dos trilhos, esquecido no chão, estava um livro de capa dura: “Atlas do Mundo”.
— É uma ponte! — exclamou Lira.
— Mas é muito pesado para movermos — disse Paçoca, tentando empurrar o livro. Ele nem se mexeu.
— Sozinhos, sim — disse Bernardo. — Mas somos uma tripulação. E este trem tem uma corda de puxar na frente, lembram-se? É para o Miguel puxar, mas podemos usá-la.
O plano foi traçado. Bernardo engatou a marcha à ré na locomotiva. O Sargento Verde amarrou a corda da frente do trem na capa do livro.
— Quando eu der o sinal, a locomotiva puxa para trás e nós empurramos o livro para a frente! — comandou o Sargento.
— Um… Dois… Três… FORÇA!
O motor de madeira zuniu. As rodas giraram. Bernardo acelerava a ré. Lira, Paçoca e o Sargento empurravam a capa dura do livro com todas as suas forças.
Grrruuump. O livro moveu-se. Grrruuump. Mais um pouco.
Com um estrondo surdo, o livro caiu exatamente sobre a falha dos trilhos, criando uma rampa perfeita de um lado ao outro.
— Vitória! — gritou Paçoca, dando pulos de alegria.
Eles voltaram para o trem. Bernardo acelerou. O trem subiu na capa do “Atlas do Mundo”, cruzou o abismo literário e desceu suavemente do outro lado, de volta aos trilhos seguros do quarto.
O céu lá fora começava a ficar cinzento-azulado. A alvorada estava a chegar.
— Acelere, Bernardo! — pediu Lira.
O trem voou pelos trilhos, fazendo as curvas finais ao redor da “Montanha de Legos” e passando por baixo do “Túnel da Cadeira”. Finalmente, chegaram à Estação Central, bem ao lado da cama do Miguel.
— Travões! — gritou o maquinista.
Sceeeeeech. O trem parou exatamente onde tinha começado.
A fumaça mágica dissipou-se. Bernardo voltou a ser um urso de pelúcia imóvel. Lira congelou numa pose graciosa. O Sargento ficou rígido em sentido. Paçoca caiu mole no vagão, com um sorriso de tecido costurado no rosto.
Segundos depois, o despertador tocou. Miguel acordou, espreguiçando-se. Ele desceu da cama descalço e olhou para o seu brinquedo favorito.
Ele coçou a cabeça, confuso. — Que estranho — murmurou o menino. — Eu podia jurar que o livro de geografia estava na prateleira, não no chão servindo de ponte.
Ele pegou no trem e notou que as rodas estavam um pouquinho sujas de farinha da cozinha. Miguel sorriu. Ele não sabia exatamente o que tinha acontecido, mas no fundo do seu coração de criança, ele sentia que os seus amigos tinham vivido uma grande aventura.
— Bom trabalho, pessoal — sussurrou Miguel, acariciando a cabeça do urso Bernardo.
E, imóvel na cabine, se alguém prestasse muita atenção, poderia ver que o botão que servia de olho para o urso brilhava com um piscar cúmplice. A viagem tinha acabado, mas a próxima noite estava a apenas um pôr do sol de distância.
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