A Escola Escondida Dentro da Nuvem

Na cidade de Venta-Leste, onde os cataventos giravam sem parar e as pipas eram o passatempo favorito de todos, vivia uma menina chamada Luna. Enquanto as outras crianças sonhavam com brinquedos ou doces, Luna sonhava com o céu. O seu quarto era um observatório improvisado: mapas estelares cobriam as paredes, e um telescópio de latão, presente do avô, apontava sempre para a janela aberta.
Mas Luna não procurava estrelas. Ela procurava algo mais perto, mais fofo e muito mais misterioso.
Dizia a lenda — ou pelo menos, o avô de Luna dizia — que nem todas as nuvens eram apenas vapor d’água. Havia uma, uma nuvem específica que brilhava com uma luz prateada interna, chamada Nímbus da Curiosidade. Ela não seguia o vento; ela escolhia o seu próprio caminho. E ela só descia quando encontrava uma criança acordada, com os olhos cheios de perguntas.
Numa terça-feira de vento calmo, quando o relógio da praça bateu as doze badaladas da meia-noite, Luna viu.
Não desceu do céu como chuva. Desceu como um elevador de algodão doce. Uma pequena nuvem, redonda e ligeiramente brilhante, estacionou suavemente no parapeito da janela do segundo andar. A névoa rodopiou, formando o que parecia ser uma escada macia e convidativa.
Luna não hesitou. Calçou as suas pantufas de coelho, vestiu o roupão por cima do pijama e subiu.
A sensação era engraçada — como pisar em espuma de sabão que aguentava o seu peso. Assim que os seus dois pés tocaram a superfície, a nuvem partiu, subindo em espiral em direção ao manto estrelado da noite.
— Segure-se firme, passageira! — disse uma voz que parecia o som de folhas a serem arrastadas pelo vento.
Luna olhou em volta, mas não viu ninguém. — Quem está a falar? — Sou eu, a Nuvem! Mas pode chamar-me de Nubis. Próxima paragem: A Academia Cumulonimbus de Artes Aéreas!
Em segundos, atravessaram uma barreira de neblina espessa e saíram num lugar que fez o queixo de Luna cair.
Eles não estavam apenas no céu; estavam dentro de uma cidade flutuante. Torres feitas de nuvens de tempestade (aquelas cinzentas e majestosas) erguiam-se como castelos. Pontes de arco-íris ligavam edifícios brancos e fofos. Crianças de pijamas de todas as cores corriam pelos pátios feitos de cirros, rindo e lançando pequenos raios inofensivos das pontas dos dedos.
A nuvem Nubis deixou Luna num grande pátio central, onde o chão era elástico. — Bem-vinda à Escola Escondida — disse Nubis, dissipando-se para se juntar a uma parede de neblina.
Uma senhora alta, com um vestido que mudava de cor (cinzento, depois branco, depois azul), aproximou-se. O seu cabelo parecia feito de fiapos de algodão. — Atrasada, mas a tempo — disse ela com um sorriso gentil. — Eu sou a Diretora Stratocumulus. Tu deves ser a Luna. Sentimos a tua curiosidade lá de cima. É uma energia forte, aquece o ar como o sol da manhã.
— Isto é… magia? — perguntou Luna, tocando numa coluna que parecia feita de gelo, mas não era fria. — É ciência com um pouco de imaginação, querida — piscou a Diretora. — Aqui, ensinamos o que as escolas lá de baixo esquecem. Vem, a tua primeira aula já começou.
Luna foi guiada até uma sala de aula sem paredes, onde o teto era o próprio universo. O professor era um homem rechonchudo e extremamente alegre, que flutuava a alguns centímetros do chão. — Eu sou o Professor Cúmulo! — trovejou ele, rindo. — Hoje vamos aprender: Escultura de Vapor.
Havia outras cinco crianças ali. Um menino de pijama de dinossauros estava concentrado a tentar fazer uma bola de neblina virar um gato. — O segredo, Luna — disse o Professor, entregando-lhe um pedaço de nuvem crua nas mãos —, não é forçar. A nuvem é teimosa. Tu tens de sugerir a forma. Pensa em algo leve.
Luna fechou os olhos. Ela pensou no seu telescópio. Sentiu a humidade fria nas mãos a mover-se. Quando abriu os olhos, a nuvem tinha assumido a forma perfeita de uma luneta. — Bravo! — aplaudiu o Professor Cúmulo, e o aplauso soou como um trovão distante e agradável.
A aula seguinte foi no “Ginásio dos Ventos”, com a Professora Cirrus. Ela era magra, rápida e falava muito depressa. — Atenção-alunos-atenção! — dizia ela, movendo-se como um risco no céu. — O vento não se vê, mas sente-se. Hoje vamos aprender a montar nas correntes de jato!
Foi a coisa mais assustadora e divertida que Luna já tinha feito. Eles tiveram de saltar da borda de uma nuvem segura e “apanhar” uma corrente de ar invisível. Luna falhou na primeira vez, caindo numa rede de segurança feita de neblina densa. Mas na segunda tentativa, ela abriu os braços como se fossem asas e sentiu o ar empurrá-la para cima. Ela voou! Voou sobre as torres da escola, viu relâmpagos a serem engarrafados na aula de Química Tempestuosa e viu o jardim onde cresciam flocos de neve gigantes.
Mas a noite na Escola Escondida passava de forma diferente. O tempo parecia esticar-se.
No intervalo, Luna sentou-se num banco feito de luz da lua com um menino chamado Leo, que usava óculos e tinha o cabelo todo despenteado. — É a tua primeira vez? — perguntou ele, trincando uma barra de chocolate que sabia a ozono (o cheiro da chuva). — Sim — disse Luna. — E a tua? — É a minha terceira. Eu venho cá para aprender a fazer arco-íris noturnos. Eles chamam-se “Arco-íris Lunares”. São muito raros.
De repente, um sino tocou. Mas não era um sino comum; era o som de gotas de chuva a bater num telhado de zinco, amplificado mil vezes. — A Assembleia da Tempestade! — exclamou Leo. — Vem, temos de ir para o Salão Principal.
Todos os alunos reuniram-se no grande salão. No centro, havia um enorme globo giratório que mostrava o planeta Terra lá em baixo. Luzes vermelhas piscavam sobre um oceano distante. A Diretora Stratocumulus subiu ao palco. A sua expressão era séria, e o seu vestido tinha ficado cinzento-escuro. — Alunos, temos uma situação prática. Um pequeno barco de pesca perdeu-se no Atlântico. Uma tempestade descontrolada está a formar-se e eles não conseguem ver o farol.
Um murmúrio correu pela sala. — As turmas de nível avançado vão ajudar a acalmar as ondas — continuou a Diretora. — Mas precisamos de luz. Precisamos de limpar a neblina para que eles vejam a costa. Turma de Iniciantes, acham que conseguem?
Luna sentiu um frio na barriga. Era uma missão real. — Nós conseguimos! — gritou o menino do pijama de dinossauro.
Eles foram levados para a “Varanda do Mundo”, uma plataforma na base da nuvem-escola. Lá em baixo, muito longe, tudo era escuridão e caos. Luna conseguia ver, através de uns binóculos mágicos, o barquinho a balançar violentamente.
— Concentrem-se! — gritou o Professor Cúmulo. — Lembrem-se da primeira aula. Não forcem a neblina a sair. Sugiram que ela se afaste. Peçam-lhe gentilmente que dê espaço.
Luna fechou os olhos. Ela imaginou a neblina espessa lá em baixo como sendo uma cortina de veludo pesado. Na sua mente, ela estendeu a mão e puxou o tecido para o lado, revelando uma janela de clareza. Ao seu lado, Leo e as outras crianças faziam o mesmo. As suas pequenas vontades uniram-se numa força poderosa.
Lentamente, lá em baixo no oceano, o milagre aconteceu. As nuvens rasgaram-se num círculo perfeito. Um raio de luz da lua atravessou a abertura, iluminando o mar revolto e, mais importante, iluminando o caminho até à costa. Luna viu os pescadores a apontar para o céu, agradecendo.
— Conseguimos! — gritou Luna, abraçando Leo.
A Diretora Stratocumulus sorriu, e o seu vestido voltou a ser de um branco brilhante e festivo. — Excelente trabalho, Guardiões do Tempo. Mas agora… olhem para o horizonte.
Uma linha fina de cor-de-rosa e dourado começava a surgir no leste. O sol. O inimigo das nuvens noturnas e o sinal de que a magia tinha de se recolher.
— A escola vai dissipar-se em breve para dar lugar ao céu azul — explicou a Diretora. — É hora de ir para a cama.
A viagem de volta foi rápida e sonolenta. A nuvem Nubis deixou Luna exatamente no seu parapeito. — Vais voltar? — perguntou a nuvem, com a sua voz de vento. — Todas as noites que puder — prometeu Luna.
Ela entrou no quarto, tirou as pantufas e enfiou-se debaixo dos cobertores. O seu telescópio ainda estava lá, apontado para as estrelas. Mas quando a mãe de Luna entrou no quarto de manhã para a acordar para a escola “normal”, encontrou algo estranho.
Luna dormia profundamente, com um sorriso no rosto. E na sua mesa de cabeceira, onde antes não havia nada, estava pousada uma pequena escultura feita de algo que parecia algodão, mas que brilhava levemente, na forma perfeita de uma luneta.
E lá fora, no céu azul e limpo de Venta-Leste, uma pequena nuvem solitária piscou para a janela de Luna antes de desaparecer no sol da manhã.
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