A Corrida Maluca dos Animais

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A Corrida Maluca dos Animais
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O dia amanheceu diferente na Floresta dos Pinheirais. Normalmente, ouviam-se apenas o canto dos pássaros e o vento nas folhas. Mas, naquela manhã de sábado, o som predominante era o de buzinas, apitos e uma multidão de animais cochichando ansiosamente.

Era o dia da Grande Corrida Anual da Floresta.

O prêmio deste ano era lendário: o Troféu da Melancia Dourada, uma fruta rara, suculenta e brilhante que crescia apenas no topo da Montanha do Eco, além de um ano inteiro de suprimentos de lanches grátis na Cantina do Castor.

Na linha de partida, os competidores se aqueciam. E que grupo estranho eles formavam!

Na raia um, estava Relâmpago, o Guepardo. Ele usava óculos escuros espelhados e tênis de corrida neon. Ele fazia flexões com uma pata só, exibindo-se para a plateia. — Nem precisam correr — dizia ele, bocejando. — Eu já ganhei antes de começar. Sou a própria velocidade.

Na raia dois, estava Simão, o Macaco. Ele não parecia rápido, mas seus bolsos estavam cheios de cascas de banana, molas e cordas. Simão acreditava mais na trapaça criativa do que na velocidade.

Na raia três, estava Dona Hipólita, a Hipopótamo. Ela usava um tutu de balé cor-de-rosa (ninguém sabia o porquê) e fazia alongamentos surpreendentemente flexíveis. — Correr é uma arte — dizia ela, com voz grave.

E na raia quatro, o mais improvável de todos: Joca, o Jabuti. Joca usava um capacete de segurança que parecia uma tigela de cereal virada e tinha amarrado um pequeno ventilador movido a pilha no casco. — Devagar e sempre… e com ventilação — murmurou Joca.

O narrador oficial, um Papagaio chamado Tagarela, voou até o microfone pendurado num galho. — Senhoras e senhores, preparem seus corações! O percurso de hoje é traiçoeiro! Passaremos pelo Pântano Pegajoso, subiremos a Colina dos Ventos Uivantes e cruzaremos a Ponte Velha sobre o Rio Bravo! — Um, dois, três e… JÁ!

POW! O tiro de largada (um estouro de saco de papel feito pelo Urso) soou.

Relâmpago disparou como um foguete, levantando uma nuvem de poeira que fez Dona Hipólita espirrar. Simão saiu pulando pelas árvores acima da pista, rindo histericamente. Joca… bem, Joca começou a andar, e o ventiladorzinho em suas costas fazia um bzzzz suave que mal movia uma folha.

A corrida parecia decidida nos primeiros cinco minutos. Relâmpago estava tão à frente que parou para tomar água de coco e dar autógrafos para um grupo de esquilos fãs.

Mas foi no quilômetro três que as coisas saíram do controle.

Simão, o Macaco, decidiu colocar seu plano em ação. Ele viu Relâmpago se aproximando lá de cima. — Vamos ver como você lida com a “Operação Sabão”! — gritou Simão, jogando um balde de lama escorregadia na trilha.

Porém, Simão calculou mal o vento. A lama não caiu na pista. Ela caiu em cima de uma colmeia gigante que estava pendurada num galho baixo. E, para piorar, Simão se desequilibrou com o peso do balde e caiu… direto nas costas de Dona Hipólita, que vinha correndo logo atrás.

— BZZZZZZZZZZ! — O som das abelhas furiosas cobriu o som da torcida.

— Corram! — gritou Simão, agarrado às orelhas da hipopótamo. — Abelhas zangadas!

Dona Hipólita, vendo o enxame preto vindo em sua direção, esqueceu que estava numa corrida. O instinto de sobrevivência falou mais alto. Ela não seguiu as setas da pista. Ela virou à direita, quebrando uma cerca de madeira, e entrou na Floresta Proibida, uma área densa e desconhecida onde nenhum mapa funcionava.

Relâmpago, que vinha logo atrás, viu a hipopótamo correndo e pensou: “Ela deve saber de um atalho!”. E virou à direita também.

Joca, o Jabuti, vinha lá atrás. Ele viu a cerca quebrada, viu o enxame de abelhas e analisou a situação com calma. — O caminho certo é pela esquerda — pensou ele. — Mas meus amigos parecem estar indo para o Abismo da Neblina. Se eu ganhar a corrida, não terei com quem comemorar se eles caírem lá.

Suspirando, Joca virou à direita também. A corrida oficial tinha acabado; a missão de resgate tinha começado.

Dentro da Floresta Proibida, a situação era caótica. Dona Hipólita corria tão rápido que derrubava arbustos como se fossem papel. Relâmpago tentava ultrapassá-la, mas a vegetação era muito densa para sua velocidade. Simão gritava instruções inúteis.

De repente, o chão sumiu.

— AAAAAAH! — gritaram os três em uníssono.

Eles escorregaram por um barranco de lama íngreme e caíram, com um SPLASH gigantesco, dentro do Rio Bravo. Mas não na parte calma onde ficava a Ponte Velha. Eles caíram nas Corredeiras do Trovão.

A água branca e furiosa girava os animais como se estivessem numa máquina de lavar. — Eu odeio água! — gritou Relâmpago, cujas penas molhadas pesavam uma tonelada. Gatos (mesmo os grandes) detestam banho. Ele estava se afogando.

— Segurem-se em mim! — ordenou Dona Hipólita. Na terra ela era pesada, mas na água ela era a rainha. Ela inflou os pulmões e virou uma boia viva.

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Relâmpago cravou as unhas nas costas dela (o que a fez urrar, mas ela aguentou). Simão subiu na cabeça dela. Eles estavam a salvo de afundar, mas a correnteza os levava direto para a Queda da Fumaça – uma cachoeira altíssima.

— Vamos cair! Vamos virar panqueca de animais! — choramingou Simão, cobrindo os olhos.

Foi então que ouviram um som estranho. Bzzz… Bzzz… Não eram abelhas. Era o ventiladorzinho de Joca.

O jabuti estava na margem do rio, em cima de uma pedra alta. Ele tinha descido o barranco usando seu casco como um trenó (uma técnica muito perigosa, mas eficaz).

— Simão! — gritou Joca, sua voz calma ecoando sobre o barulho da água. — Use a sua “Corda de Cipó Extensível” que você ia usar para trapacear! Jogue para a árvore caída!

Simão bateu na testa. — É claro!

O macaco tirou do bolso um rolo de cipó. Ele girou no ar como um laço de cowboy e atirou em direção a um tronco seco que atravessava o rio, poucos metros antes da cachoeira. O laço prendeu.

— Agora, puxem! — comandou Joca.

Dona Hipólita usou toda a sua força de hipopótamo para nadar contra a corrente, usando o cipó como guia. Relâmpago usava as patas traseiras para ajudar a impulsionar. Joca, da margem, puxava a outra ponta do cipó, prendendo-a numa rocha para dar firmeza.

Lentamente, centímetro por centímetro, eles saíram da correnteza mortal e chegaram à margem lamacenta.

Eles desabaram na areia, ofegantes, molhados e sujos. Relâmpago, o guepardo vaidoso, parecia um gato de rua molhado. Seu topete tinha sumido. Simão estava sem suas traquitanas. Dona Hipólita tinha perdido o tutu rosa. E Joca estava sem pilhas no ventilador.

Houve um longo silêncio.

— Vocês viram aquela cachoeira? — perguntou Simão. — Era enorme. — Nós íamos virar purê — concordou Relâmpago, tremendo. — Obrigado, Hipólita. Você nadou muito bem. — E obrigado, Joca — disse a hipopótamo. — Se você não tivesse nos guiado, teríamos caído. E obrigado, Simão, pelo cipó… apesar de ter sido você quem causou tudo isso com as abelhas.

Simão abaixou a cabeça, envergonhado. — Desculpe, pessoal. Eu só queria ganhar a melancia.

Relâmpago levantou-se e sacudiu a água do corpo. — Sabe… a linha de chegada deve estar a uns três quilômetros daqui, se voltarmos pela trilha do urso.

Eles se entreolharam. A competição parecia boba agora. Eles tinham sobrevivido à Floresta Proibida. — Vamos terminar isso? — perguntou Joca.

— Vamos — disse Dona Hipólita. — Mas do meu jeito.

E assim, a multidão na linha de chegada, que já estava preocupada com a demora, viu a cena mais estranha da história das corridas.

Saindo do meio do mato, não veio um vencedor solitário. Veio Dona Hipólita caminhando firmemente. Nas costas dela, estava Relâmpago (que se recusava a pisar na lama mais do que o necessário). No ombro dela, estava Simão. E na cabeça dela, como um capitão, estava Joca.

Eles cruzaram a linha de chegada exatamente ao mesmo tempo.

O papagaio Tagarela ficou mudo por um segundo. — É UM EMPATE QUÁDRUPLO! — gritou ele. — INÉDITO!

A plateia foi à loucura.

Quando receberam o Troféu da Melancia Dourada, o juiz (uma Coruja velha) perguntou como dividiriam o prêmio. — Simples — disse Joca. — Vamos fazer um piquenique.

Eles sentaram ali mesmo, na grama. Relâmpago cortou a melancia com suas garras (finalmente sendo útil). Dona Hipólita organizou os lugares. Simão fez malabarismo com as sementes para divertir a todos. E Joca… Joca deu a primeira mordida, sorrindo.

A corrida tinha sido um desastre completo. Tinha lama, abelhas, corredeiras e perigo. Mas, enquanto comiam a melancia mais doce do mundo sob o sol da tarde, todos concordaram que aquela tinha sido, sem dúvida, a melhor aventura de suas vidas.

E o ventilador do Joca? Bom, ele nunca mais funcionou, mas Joca não se importou. Ele descobriu que, para chegar longe, não precisava de tecnologia, apenas de bons amigos.

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