A Corrida dos Insetos do Jardim

O sol da manhã ainda nem tinha secado o orvalho nas pétalas das petúnias e o “Jardim da Figueira” já estava em polvorosa. Era o dia do evento mais esperado do ano: A Grande Taça da Relva Alta.
Não era uma corrida comum. O percurso era lendário e perigoso. Começava na “Pedra Lisa” (um seixo de rio decorativo), atravessava o “Túnel das Espadas” (uma moita densa de espadas-de-são-jorge), contornava o “Lago da Morte” (uma poça de lama deixada pela rega) e terminava no topo do “Monte Cupim”, onde uma suculenta uva roxa aguardava o vencedor como troféu.
Na linha de partida, os competidores aqueciam os seus motores (e patas).
O favorito absoluto era Saltitão, um gafanhoto verde com pernas traseiras tão potentes que ele se gabava de conseguir saltar por cima de um gato adormecido. — Eu já ganhei — dizia ele, estalando as articulações. — Vocês só estão a competir pelo segundo lugar. A uva já é minha.
Ao lado dele, estava Zunido, uma mosca varejeira extremamente veloz, mas que tinha o péssimo hábito de se distrair com qualquer coisa brilhante ou malcheirosa no caminho. — Zun, zun, zun! Vou voar tão rápido que vocês nem vão ver a cor das minhas asas! — zumbia ela, agitada.
Havia também Dona Tita, uma formiga operária muito séria e determinada. Ela não era rápida, mas nunca parava. — A disciplina vence o talento — murmurava ela para si mesma, ajustando as suas antenas.
E, por fim, havia Bolacha. Bolacha era um tatuzinho-de-jardim. Ele era redondo, cinzento e, francamente, não parecia um corredor. Quando ficava nervoso, enrolava-se numa bola perfeita e ficava imóvel por horas. — O importante é participar, não é? — perguntou Bolacha timidamente, olhando para as pernas gigantes do Saltitão.
— Participar? — riu o gafanhoto. — Isso é o que os perdedores dizem, Bolinha. Tente não ser esmagado.
Um velho louva-a-deus, que servia de juiz, levantou uma pétala amarela. — Preparar… Apontar… JÁ!
A corrida começou numa explosão de terra e poeira.
Saltitão disparou na frente, os seus saltos cobrindo distâncias enormes. Zunido ziguezagueava logo atrás, ultrapassando Dona Tita. Bolacha ficou para trás, correndo com as suas muitas perninhas curtas o mais rápido que podia, o que não era muito.
A primeira etapa, o Túnel das Espadas, foi fácil para Saltitão. Ele saltava de folha em folha. Mas Zunido teve problemas; o túnel era apertado e ela batia as asas nas plantas. Dona Tita, pequena e ágil, passou por baixo das folhas sem problemas. Bolacha foi o mais inteligente: ele enrolou-se numa bola e deixou a gravidade levá-lo por uma descida suave entre as raízes, rolando como uma bola de gude.
Ao saírem do túnel, Saltitão ainda estava muito à frente. Ele chegou ao Lago da Morte. Para ele, aquilo era apenas um charco. Com um impulso poderoso, ele preparou-se para saltar de uma margem à outra.
— Olhem para mim! — gritou ele no ar.
Mas o orgulho, muitas vezes, vem antes da queda. Ou, neste caso, antes da teia.
Saltitão não tinha visto que, durante a noite, uma aranha tinha tecido um fio quase invisível entre dois galhos secos acima da poça. No meio do seu salto glorioso, a pata traseira de Saltitão prendeu no fio pegajoso.
O salto foi interrompido. O gafanhoto girou no ar e caiu com um baque feio na lama, bem no meio do charco. Pior ainda: a sua pata ficou presa, torcida num ângulo estranho pelo fio de seda resistente.
— Ai! Minha pata! — gritou Saltitão, tentando libertar-se. Mas quanto mais se mexia, mais afundava na lama pegajosa.
Zunido passou voando por cima dele. — Tchauzinho, Saltitão! — zombou ela, acelerando em direção à vitória. Ela nem pensou em parar.
Dona Tita chegou à margem da poça. Ela viu o seu rival preso e sofrendo. Ela parou. As suas antenas vibraram. O instinto de formiga dizia: “Continue a missão. Vença”. Mas o coração de Tita dizia outra coisa. Ela olhou para a linha de chegada. A uva estava lá. Ela podia ganhar.
— Eu não consigo puxá-lo sozinha — calculou ela. E, com um suspiro, voltou a correr.
Saltitão baixou a cabeça, derrotado e com dor. Ele ia ser comido por um sapo ou secar ao sol ali mesmo.
Mas então, ele ouviu um som. Rola, rola, rola. Era Bolacha. O tatuzinho vinha rolando devagar e parou na margem. Ele desenrolou-se e olhou para o gafanhoto.
— Você está bem? — perguntou Bolacha.
— Vá embora, Bolinha — resmungou Saltitão. — Vá ganhar sua corrida. A Tita já passou.
— A Tita não foi ganhar — disse uma voz atrás de Bolacha. Era Dona Tita. Ela tinha voltado, mas não estava sozinha. Atrás dela vinham dez das suas irmãs formigas. Ela não tinha corrido para a meta; tinha corrido para o formigueiro próximo para pedir reforços.
— Nós não deixamos ninguém para trás — disse Tita.
— Mas… eu zombei de vocês — disse Saltitão, confuso.
— Sabemos — disse Bolacha, sorrindo. — Mas ajudar é mais importante do que ganhar uma uva.
A operação de resgate começou. Bolacha entrou na lama (ele flutuava melhor que os outros). Ele serviu de “ilha” para Saltitão apoiar a pata machucada. Enquanto isso, as formigas, usando as suas mandíbulas fortes, cortaram o fio de teia. Depois, fizeram uma corrente, segurando-se umas às outras, e puxaram Saltitão para terra firme.
O gafanhoto estava coberto de lama, com a pata doendo, mas estava livre.
— Obrigado — sussurrou ele, sem conseguir olhar nos olhos dos outros. — Eu sinto muito pelo que disse.
Nesse momento, ouviram um zumbido furioso. Zunido estava a voltar. Ela tinha chegado à uva, mas… não conseguia carregá-la. A uva era pesada demais para uma mosca sozinha. Ela tentou empurrar, puxar, mas a fruta rolava para longe.
Ao ver o grupo reunido lá em baixo, Zunido desceu. — Ei! O que está a acontecer? A corrida acabou! Eu ganhei! Mas a uva é muito pesada!
Saltitão olhou para Tita e Bolacha. — Sabem… eu não posso saltar com essa pata. Mas eu ainda posso andar. E o Bolacha é forte. E as formigas são muitas.
— O que estás a sugerir? — perguntou Tita.
— Vamos todos buscar a uva. Juntos.
E assim foi. O grupo subiu o Monte Cupim devagar. Saltitão ia apoiado em Bolacha. As formigas iam na frente limpando o caminho. Zunido, envergonhada pela sua atitude egoísta, voava abanando as asas para refrescar os amigos cansados.
Quando chegaram ao topo, não houve um vencedor. As formigas e Bolacha empurraram a uva colina abaixo, até um local seguro e sombreado.
Lá, dividiram o prémio. A uva foi partida. O suco doce escorria, e todos beberam e comeram até ficarem satisfeitos. Nunca uma uva tinha tido um sabor tão bom.
— Sabe — disse Saltitão, limpando o suco da boca —, eu sempre achei que ser o mais rápido e o mais forte era a única coisa que importava. Mas hoje eu percebi que a força não serve de nada se você estiver sozinho na lama.
Bolacha enrolou-se numa bola de felicidade. — O meu avô sempre dizia: “Quem caminha sozinho pode chegar mais rápido, mas quem caminha acompanhado chega mais longe”.
Zunido pousou no nariz de Saltitão (que não se importou desta vez). — E quem voa sozinho não consegue carregar a uva — riu ela.
Naquela tarde, no Jardim da Figueira, não houve um campeão com medalha. Mas houve quatro insetos que ganharam algo muito mais valioso que um troféu: a certeza de que, na grande corrida da vida, a melhor vitória é ter amigos com quem partilhar a chegada.
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