A Baleia que Cantava Baixinho

No sul da Bahia, longe da praia, tem um lugar de mar calmo e morno chamado Abrolhos.
Todo ano, no inverno, as baleias-jubarte chegam lá e ficam até a primavera. Elas vêm de muito longe, lá do frio perto da Antártida, nadando milhares de quilômetros. Vêm porque ali o mar é quentinho e tranquilo, bom para os filhotes nascerem.
Foi em Abrolhos que nasceu o Ondi.
Um bebê enorme
O Ondi era pequeno para uma baleia.
Mas era enorme para um bebê: logo que nasceu, já era do tamanho de um carro.
Ele tomava tanto leite da mãe que crescia um tiquinho todo dia. Nadava sempre colado nela, bem pertinho do rosto dela ou embaixo da nadadeira comprida, que parecia uma asa branca. De vez em quando, subia até a superfície para respirar, soltava um pfff de ar pelos dois buraquinhos no alto da cabeça e descia de novo.
A mãe dele era a coisa mais calma do oceano. Nadava devagar, respirava devagar, e quase não fazia barulho.
A canção de longe
Uma noite, o Ondi ouviu uma coisa.
Vinha de longe, atravessando a água: um som comprido, grave, que subia e descia. Parecia um gemido, depois um assobio, depois um ronco, depois tudo de novo, na mesma ordem, como uma música.
— Mãe! O que é isso?
— É uma canção — disse a mãe. — Das jubartes.
O Ondi ficou encantado. A canção era tão forte que ele a sentia passando pelo corpo inteiro. E ela durou muito tempo, e quando acabou, começou de novo, igualzinha.
— Quem canta assim?
— Os machos — disse a mãe. — Todos eles cantam a mesma canção, cada um no seu canto do mar, a temporada inteira. Dá para ouvir de muito, muito longe.
O pedido
— Canta assim pra mim? — pediu o Ondi.
A mãe ficou um tempo quieta.
— Não — disse ela, com carinho. — A minha canção é outra.
O Ondi ficou desapontado. Ele queria uma canção enorme, que atravessasse o mar inteiro. Queria que todas as baleias de Abrolhos ouvissem a mãe dele cantando para ele.
— Por que a sua é outra?
— Porque o mar é muito grande — disse a mãe — e nem todo mundo que escuta é amigo.
A canção de perto
Então a mãe chegou bem perto do Ondi, tão perto que o olho dela ficou do lado do olho dele.
E fez um som.
Era baixinho. Um murmúrio, um ronronar grave, que quase não saía dela. Não ia longe. Não atravessava o mar. Chegava até o Ondi e parava ali.
Era como se ela estivesse cochichando.
— Essa canção — disse a mãe — não precisa chegar longe. Ela só precisa chegar até você.
O Ondi ficou quietinho, escutando.
E descobriu que gostava mais daquela.
Por que baixinho
É verdade, sabia?
Os cientistas que escutam o mar com microfones debaixo d'água descobriram que as mães jubartes conversam com os filhotes quase sussurrando. São sons tão baixinhos que só dá para ouvir de pertinho.
Eles acham que é para proteger os filhotes. Assim, os bichos que caçam pelo mar não descobrem onde o bebê está.
A canção forte, que viaja longe, é dos machos.
A canção de mãe é de perto.
Antes do sol
Naquela noite, o Ondi nadou bem colado na mãe, com a cabeça encostada perto do rosto dela.
A lua batia na superfície lá em cima e mandava uns fios de luz prateada para dentro da água. Um cardume de peixinhos passava ao longe, bem devagar, por cima do recife. Lá longe, bem longe, a canção dos machos continuava, subindo e descendo, feito uma onda.
E, de pertinho, a mãe dele cochichava.
Hmmm. Hmmmm.
O Ondi fechou um olho. Depois o outro.
Subiu para respirar — pfff — quase sem acordar, e desceu de novo para junto dela.
A viagem
No fim da temporada, quando a primavera for embora, o Ondi e a mãe vão deixar Abrolhos e nadar de volta, milhares de quilômetros, até o mar gelado do sul, onde tem comida de sobra.
Vai ser uma viagem longa.
Vai ter tempestade, mar agitado, noite escura.
Mas o Ondi não tem medo.
Porque, em qualquer pedaço do oceano, basta ele encostar bem perto da mãe. E, lá de dentro dela, vem aquele cochicho grave e quentinho, que não chega longe.
Só chega até ele.
Hmmm.
Boa noite, Ondi.
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