O Elevador que Parou

A Lu estava voltando da escola, com a mochila pesada e fome.
Ela apertou o botão do sétimo andar, e o Seu Ariovaldo, o vizinho do quarto, entrou logo atrás com um saco de pão na mão e apertou o dele.
— Boa tarde, Lu.
— Boa tarde.
A porta fechou. O elevador subiu.
E, entre o terceiro e o quarto andar, ele parou.
O susto
Não foi uma parada normal. Foi um solavanco, um barulho seco, e aí a luz do teto apagou.
Ficou tudo escuro por um segundo. Depois acendeu uma luzinha amarela, fraquinha, num canto do teto.
A Lu ficou dura no lugar.
— Calma — disse o Seu Ariovaldo. — Isso é a luz de emergência. É pra isso que ela serve.
— A gente vai cair?
— Não vai cair, não. Elevador tem um monte de trava. Ele para, mas não cai.
Ele apertou o botão do alarme, aquele com desenho de sininho.
Tocou uma campainha alta lá fora. Em seguida, uma voz chegou pelo alto-falante, meio chiada:
— Alô! Tem alguém aí?
— Tem dois! — respondeu o Seu Ariovaldo. — Eu e a menina do sete.
— Ficou preso entre o três e o quatro. Já liguei pro técnico. Ele tá vindo, uns quinze, vinte minutos. Fiquem tranquilos, não mexam na porta e não tentem subir em nada aí dentro.
A espera
A Lu sentou no chão e abraçou os joelhos.
O Seu Ariovaldo olhou para ela, olhou para o chão, e sentou também, com um gemidinho de quem tem setenta e oito anos e joelho ruim.
— Você tá com medo?
A Lu pensou em dizer que não.
— Um pouco.
— Eu também.
Ela virou a cabeça, surpresa.
— O senhor?
— Claro. Ninguém gosta de ficar preso. — Ele ajeitou o boné. — Mas medo passa mais rápido quando tem conversa. Então vamos conversar.
A prova de matemática
— Como foi a escola hoje?
— Teve prova de matemática.
— E aí?
— Acho que fui bem. Menos numa que eu errei.
— Qual?
A Lu explicou a questão. O Seu Ariovaldo ouviu, franziu a testa e disse que também teria errado. Depois contou que, na escola dele, o professor batia na mão de quem errava com uma tábua redonda de madeira, com cabo e uns furinhos.
— Batia de verdade?!
— Batia. Chamava palmatória. Era comum naquele tempo.
— Que coisa horrível.
— Era mesmo. — Ele riu. — Olha só, você já aprendeu uma coisa e a gente nem saiu daqui.
O pão
Passaram dez minutos. O Seu Ariovaldo olhou para o saco de pão no colo.
— Você almoçou?
— Almocei. Mas tô com fome.
— Criança sempre tá.
Ele abriu o saco e ofereceu um pão francês quentinho.
Os dois ficaram ali, sentados no chão do elevador, comendo pão sem nada, na luz amarelinha.
— Isso aqui é a coisa mais estranha que já me aconteceu — disse a Lu, de boca cheia.
— Ah, que nada. Já me aconteceu coisa muito mais estranha.
— O quê?
E aí ele contou a história do dia em que ele estava trabalhando num navio, e um macaco entrou pela janela e roubou a dentadura de um colega. E o colega passou três dias sem dentadura e teve que comer sopa.
A Lu riu tanto que a voz do alto-falante perguntou se estava tudo bem lá dentro.
O barulho
Passou mais um tempo. Deu para ouvir um barulho no alto: alguém mexendo em alguma coisa de metal, e uma voz gritando lá de cima:
— Tá aí, seu Ario?
— Tô aqui, Ronaldo!
O elevador deu um tranco e desceu um pouquinho, devagarzinho, até parar alinhado com o andar.
A porta abriu.
Lá fora estavam o técnico, o porteiro, a mãe da Lu — que tinha descido correndo de meia — e três vizinhos curiosos.
Depois
A mãe abraçou a Lu com força.
— Você tá bem? Tava com medo?
A Lu pensou um pouco.
— No começo.
Ela olhou para trás. O Seu Ariovaldo estava saindo devagar, se apoiando no corrimão, com o saco de pão amassado na mão.
— Obrigada pelo pão, seu Ariovaldo.
— Obrigado pela companhia, dona Lu.
Na escada
Naquela semana, o elevador ficou parado para conserto e todo mundo teve que usar a escada.
E aconteceu uma coisa engraçada: a Lu, que morava no sétimo, passou a parar no quarto para bater papo com o Seu Ariovaldo, que ficava sentado na porta de casa ouvindo rádio.
Ele tinha um monte de história de navio.
E ela, agora, sabia que vinte minutos passam muito rápido quando tem alguém do lado.
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