O Elevador que Parou

4 min de leituraHistorinha para dormir
O Elevador que Parou
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A Lu estava voltando da escola, com a mochila pesada e fome.

Ela apertou o botão do sétimo andar, e o Seu Ariovaldo, o vizinho do quarto, entrou logo atrás com um saco de pão na mão e apertou o dele.

— Boa tarde, Lu.

— Boa tarde.

A porta fechou. O elevador subiu.

E, entre o terceiro e o quarto andar, ele parou.

O susto

Não foi uma parada normal. Foi um solavanco, um barulho seco, e aí a luz do teto apagou.

Ficou tudo escuro por um segundo. Depois acendeu uma luzinha amarela, fraquinha, num canto do teto.

A Lu ficou dura no lugar.

— Calma — disse o Seu Ariovaldo. — Isso é a luz de emergência. É pra isso que ela serve.

— A gente vai cair?

— Não vai cair, não. Elevador tem um monte de trava. Ele para, mas não cai.

Ele apertou o botão do alarme, aquele com desenho de sininho.

Tocou uma campainha alta lá fora. Em seguida, uma voz chegou pelo alto-falante, meio chiada:

— Alô! Tem alguém aí?

— Tem dois! — respondeu o Seu Ariovaldo. — Eu e a menina do sete.

— Ficou preso entre o três e o quatro. Já liguei pro técnico. Ele tá vindo, uns quinze, vinte minutos. Fiquem tranquilos, não mexam na porta e não tentem subir em nada aí dentro.

A espera

A Lu sentou no chão e abraçou os joelhos.

O Seu Ariovaldo olhou para ela, olhou para o chão, e sentou também, com um gemidinho de quem tem setenta e oito anos e joelho ruim.

— Você tá com medo?

A Lu pensou em dizer que não.

— Um pouco.

— Eu também.

Ela virou a cabeça, surpresa.

— O senhor?

— Claro. Ninguém gosta de ficar preso. — Ele ajeitou o boné. — Mas medo passa mais rápido quando tem conversa. Então vamos conversar.

A prova de matemática

— Como foi a escola hoje?

— Teve prova de matemática.

— E aí?

— Acho que fui bem. Menos numa que eu errei.

— Qual?

A Lu explicou a questão. O Seu Ariovaldo ouviu, franziu a testa e disse que também teria errado. Depois contou que, na escola dele, o professor batia na mão de quem errava com uma tábua redonda de madeira, com cabo e uns furinhos.

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— Batia de verdade?!

— Batia. Chamava palmatória. Era comum naquele tempo.

— Que coisa horrível.

— Era mesmo. — Ele riu. — Olha só, você já aprendeu uma coisa e a gente nem saiu daqui.

O pão

Passaram dez minutos. O Seu Ariovaldo olhou para o saco de pão no colo.

— Você almoçou?

— Almocei. Mas tô com fome.

— Criança sempre tá.

Ele abriu o saco e ofereceu um pão francês quentinho.

Os dois ficaram ali, sentados no chão do elevador, comendo pão sem nada, na luz amarelinha.

— Isso aqui é a coisa mais estranha que já me aconteceu — disse a Lu, de boca cheia.

— Ah, que nada. Já me aconteceu coisa muito mais estranha.

— O quê?

E aí ele contou a história do dia em que ele estava trabalhando num navio, e um macaco entrou pela janela e roubou a dentadura de um colega. E o colega passou três dias sem dentadura e teve que comer sopa.

A Lu riu tanto que a voz do alto-falante perguntou se estava tudo bem lá dentro.

O barulho

Passou mais um tempo. Deu para ouvir um barulho no alto: alguém mexendo em alguma coisa de metal, e uma voz gritando lá de cima:

— Tá aí, seu Ario?

— Tô aqui, Ronaldo!

O elevador deu um tranco e desceu um pouquinho, devagarzinho, até parar alinhado com o andar.

A porta abriu.

Lá fora estavam o técnico, o porteiro, a mãe da Lu — que tinha descido correndo de meia — e três vizinhos curiosos.

Depois

A mãe abraçou a Lu com força.

— Você tá bem? Tava com medo?

A Lu pensou um pouco.

— No começo.

Ela olhou para trás. O Seu Ariovaldo estava saindo devagar, se apoiando no corrimão, com o saco de pão amassado na mão.

— Obrigada pelo pão, seu Ariovaldo.

— Obrigado pela companhia, dona Lu.

Na escada

Naquela semana, o elevador ficou parado para conserto e todo mundo teve que usar a escada.

E aconteceu uma coisa engraçada: a Lu, que morava no sétimo, passou a parar no quarto para bater papo com o Seu Ariovaldo, que ficava sentado na porta de casa ouvindo rádio.

Ele tinha um monte de história de navio.

E ela, agora, sabia que vinte minutos passam muito rápido quando tem alguém do lado.

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