O Pinguim que Foi Parar na Praia

Bem lá no sul do mundo, numa costa de pedra e vento frio da Patagônia, nasceu um pinguim chamado Piu.
Ele era um pinguim-de-magalhães: nem dos grandes nem dos miúdos, de costas escuras e barriga branca. Quando crescesse, ia ganhar duas listras pretas no peito, parecendo uma gravatinha torta — mas isso só vem depois.
Piu passou os primeiros meses da vida numa toca cavada na terra, esperando os pais voltarem do mar com peixe na barriga.
Depois trocou a penugem cinza de filhote pelas penas lisas de pinguim jovem.
E, um dia, entrou no mar.
Atrás dos peixes
O primeiro ano de um pinguim jovem é uma viagem enorme.
Como eles ainda não têm ninho nem filhote para cuidar, saem atrás dos cardumes de sardinha e de anchova e vão seguindo, seguindo, para onde os peixes forem.
E os peixes seguem a água.
Piu nadou dias. Depois semanas. Depois meses.
Nadava com as asinhas, que não servem para voar mas são ótimas para remar, e usava os pés como leme. Dormia boiando. Mergulhava fundo atrás de cardume. E foi subindo o mapa sem saber que estava subindo o mapa.
O frio foi ficando menos frio. A água foi ficando mais morna. Os peixes foram ficando mais raros.
E, uma hora, Piu estava muito longe de casa, magro, cansado, sem encontrar comida.
A praia esquisita
Num fim de tarde, uma onda empurrou o Piu até a areia.
Ele ficou lá, deitado de barriga, com a respiração curta.
Quando abriu os olhos, viu a coisa mais estranha da vida dele.
A areia era clara e quente. Tinha coqueiro. Tinha guarda-sol colorido. Tinha gente andando de bermuda, tomando água de coco, e um cachorro correndo atrás de uma bola.
Não tinha pedra, não tinha vento gelado, não tinha nenhum outro pinguim.
Piu tinha ido parar numa praia do Brasil.
A menina que não pegou
Foi uma menina que viu primeiro.
Ela tinha nove anos e estava procurando conchinha na beira d'água quando deu de cara com aquele bichinho preto e branco, do tamanho de um cachorro pequeno, batendo quase no joelho dela, todo encolhido na areia.
A primeira vontade dela foi pegar no colo.
Mas ela lembrou de uma coisa que a professora tinha explicado na escola: bicho selvagem não se pega, não se molha, não se dá comida e não se leva para casa. Se um deles aparece na praia, a gente chama quem sabe cuidar.
Então a menina fez três coisas certas.
Ficou a alguns passos de distância, para não assustar.
Pediu aos banhistas que segurassem o cachorro e que ninguém chegasse perto nem tirasse foto com flash.
E mandou o irmão mais velho correr até o posto para chamar o pessoal que cuida dos animais do mar.
A ajuda
Os tratadores chegaram numa caminhonete, com uma caixa forrada de toalha.
Eles pegaram o Piu com cuidado, conferiram as asas e os pés, viram se ele estava ferido e o levaram para um lugar com piscina de água salgada gelada, onde já tinha outros pinguins na mesma situação.
Lá ele comeu peixe todo dia. Ganhou peso. As penas voltaram a ficar lisas e impermeáveis, daquele jeito que faz a água escorrer e não encostar na pele.
Levou semanas.
Quando os veterinários viram que ele estava forte de novo, marcaram a data da volta.
O barco
Num dia de céu limpo, um barco saiu levando dezenas de caixas.
Dentro delas iam os pinguins, e um deles era o Piu.
O barco navegou horas mar adentro, até a água ficar de um azul mais escuro, mais fundo, mais frio.
E aí abriram as caixas.
Os pinguins foram saindo, um de cada vez, atrapalhados na plataforma do barco, até o primeiro se jogar na água.
E aí foi todo mundo.
Piu entrou no mar, deu duas braçadas e sentiu a água gelada passando no peito. Ficou boiando um instante, olhou para trás, para o barco, e depois virou o bico para o sul.
Voltando para casa
A viagem de volta foi longa.
Ele nadou muitos e muitos dias, nadando contra a mesma corrente fria que o tinha trazido para cima, dia após dia, sempre com a costa do lado esquerdo.
Passou por baleia. Passou por cardume tão grande que escureceu a água.
E, quando a água ficou bem fria de novo, e o vento começou a cheirar a terra de pedra, ele reconheceu.
A costa da Patagônia.
A toca de novo
Piu chegou junto com milhares de outros pinguins que voltaram do mar na mesma época.
Ele ainda era novo demais para ter uma toca de família: isso só acontece quando o pinguim tem uns quatro ou cinco anos. Então achou um vão embaixo de um arbusto baixo, pertinho de onde ele mesmo tinha nascido, e se enfiou lá.
E, à noite, quando o vento gelado assobiava lá fora e o mar batia nas pedras, ele se encolhia lá dentro, quentinho, e dormia.
Às vezes sonhava com uma areia clara e quente, um cachorro correndo atrás de uma bola e uma menina agachada a alguns passos de distância, que não chegou perto e chamou quem sabia ajudar.
De verdade
Todo ano, entre junho e setembro, centenas de pinguins-de-magalhães aparecem mesmo nas praias do Brasil, e em alguns anos são milhares. Eles vêm do sul seguindo as correntes frias e os cardumes, e muitos chegam cansados e magros demais para continuar.
Quando isso acontece, o certo é o que a menina fez: não pegar, não dar comida, não molhar, não tirar da praia, e avisar as pessoas que cuidam dos animais marinhos.
Elas recuperam o bichinho e o devolvem ao mar.
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