O Ônibus da Madrugada

A Lia tinha sete anos e nunca tinha viajado de noite.
Naquelas férias, ela e a avó iam para a casa da bisa, numa cidade pequena a seis horas de estrada.
O ônibus saía às onze da noite.
A rodoviária
Elas chegaram cedo, e a rodoviária tinha um clima esquisito e bom: gente com cara de sono, mala de rodinha fazendo barulho no piso, uma lanchonete acesa, o alto-falante chamando destinos de que a Lia nunca tinha ouvido falar.
A avó comprou dois pães de queijo e guardou um na bolsa "para o meio da viagem".
Quando o ônibus encostou na plataforma, a Lia leu o letreiro em cima do vidro e achou bonito que uma cidade coubesse numas letrinhas laranja.
As poltronas
Elas sentaram nas poltronas 3 e 4.
A Lia pediu a janela. A avó deixou.
Dentro do ônibus estava frio, e cheirava a limpeza. O motorista falou umas coisas no microfone, o ônibus deu uma sacudida e começou a andar.
Quando saíram da cidade, o motorista apagou a luz grande.
Ficou só uma fileira de luzinhas azuis no corredor, perto do chão.
As luzes de fora
A Lia grudou o rosto na janela.
Enquanto o ônibus ainda saía da cidade, os postes de luz passavam com um ritmo certinho.
Um. Dois. Três.
Ela começou a contar, sem querer.
Cada poste acendia o rosto dela por um instante e apagava. Depois os postes acabaram, e a estrada ficou escura de verdade — só o farol do ônibus acendendo, uma a uma, as tachinhas que brilham no meio da pista.
Entre elas, dava para ver o escuro do campo, e às vezes uma luzinha bem longe, sozinha, que devia ser uma casa.
— Vó, quem mora ali?
— Não sei. Alguém que já foi dormir.
O mundo acordado de noite
A avó foi apontando as coisas.
Um posto de gasolina aceso no meio do nada, com dois caminhões parados e um homem de chinelo tomando café.
Uma cerca comprida que acompanhou o ônibus por vários minutos.
Um cachorro parado na beira da estrada, vendo o ônibus passar, como se estivesse esperando alguém.
E, uma hora, uma cidade inteira lá embaixo, num vale, com as luzes espalhadas feito um punhado de arroz.
— Olha, vó.
— Tô vendo.
As duas ficaram olhando até a curva esconder tudo.
O barulho do ônibus
Foi aí que a Lia percebeu que o ônibus tinha um som próprio.
Não era barulho de rua. Era um zumbido grave e contínuo, com um chiado embaixo, e uma leve variação quando a estrada subia.
A poltrona vibrava um tiquinho nas costas dela.
E, de vez em quando, um estalinho da janela.
— Vó, o ônibus faz um barulho que parece que ele tá respirando.
A avó riu baixinho.
— É por isso que criança dorme fácil em ônibus.
O pão de queijo do meio da viagem
Lá pela uma da manhã, o ônibus parou num posto grande, todo iluminado, com gente descendo devagar para ir ao banheiro.
A avó não desceu. Abriu a bolsa e tirou o pão de queijo, que estava frio e mesmo assim delicioso.
Elas comeram as duas, caladas, olhando pela janela os outros passageiros voltando com garrafa de água na mão.
Depois o ônibus fechou a porta com aquele barulho de ar e voltou para a estrada.
O sono chegando
A Lia continuou contando as tachinhas da pista.
Vinte e três. Vinte e quatro.
Ela perdeu a conta, começou de novo do um, e perdeu de novo.
O cobertorzinho estava quentinho no colo. A avó, que tinha pegado no sono primeiro, estava com a mão pousada no braço dela.
Os olhos da Lia fecharam por um instante, do jeito que fecham quando a gente ainda acha que está acordado.
Ela abriu de novo.
Passou mais um poste.
Fechou.
O resto da noite
A Lia não viu o resto da estrada.
Não viu o ônibus atravessar uma ponte comprida, nem a neblina que apareceu nos campos por volta das cinco da manhã, nem o céu começando a clarear atrás dos morros.
Dormiu com o rosto encostado na janela fria, embalada por aquele zumbido que parecia respiração.
A chegada
Ela acordou com a avó mexendo no ombro dela.
— Chegamos, minha filha.
O céu já estava claro, de um azul fraquinho. Pelo vidro, a Lia viu uma rodoviária pequenininha, de um andar só, com um portão azul.
E, do lado de fora do portão, de vestido florido e cabelo preso, esperando de pé desde sabe-se lá quando, estava a bisa.
A Lia desceu os degraus do ônibus meio tonta de sono, com a marca da costura do cobertor no rosto.
E correu.
À noite, na casa da bisa
Naquela noite, deitada numa cama alta de colchão fofo, num quarto que cheirava a armário antigo, a Lia não conseguiu dormir de primeira.
Estava silencioso demais.
Ela ficou um tempo olhando o teto. Depois fechou os olhos e fez uma coisa sem pensar: imaginou as tachinhas da pista passando, uma atrás da outra, no mesmo ritmo.
Uma. Duas. Três.
E imaginou o zumbido grave do ônibus embaixo de tudo, subindo devagar numa ladeira.
Funcionou.
Se um dia você não conseguir dormir, pode tentar: escolhe uma coisa que passa devagar e sempre igual, e vai contando.
Pode ser poste, pode ser onda do mar, pode ser degrau de uma escada que você sobe bem devagar.
A cabeça se cansa de contar antes de você.
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