O Ônibus da Madrugada

5 min de leituraHistorinha para dormir
O Ônibus da Madrugada
Ads

A Lia tinha sete anos e nunca tinha viajado de noite.

Naquelas férias, ela e a avó iam para a casa da bisa, numa cidade pequena a seis horas de estrada.

O ônibus saía às onze da noite.

A rodoviária

Elas chegaram cedo, e a rodoviária tinha um clima esquisito e bom: gente com cara de sono, mala de rodinha fazendo barulho no piso, uma lanchonete acesa, o alto-falante chamando destinos de que a Lia nunca tinha ouvido falar.

A avó comprou dois pães de queijo e guardou um na bolsa "para o meio da viagem".

Quando o ônibus encostou na plataforma, a Lia leu o letreiro em cima do vidro e achou bonito que uma cidade coubesse numas letrinhas laranja.

As poltronas

Elas sentaram nas poltronas 3 e 4.

A Lia pediu a janela. A avó deixou.

Dentro do ônibus estava frio, e cheirava a limpeza. O motorista falou umas coisas no microfone, o ônibus deu uma sacudida e começou a andar.

Quando saíram da cidade, o motorista apagou a luz grande.

Ficou só uma fileira de luzinhas azuis no corredor, perto do chão.

As luzes de fora

A Lia grudou o rosto na janela.

Enquanto o ônibus ainda saía da cidade, os postes de luz passavam com um ritmo certinho.

Um. Dois. Três.

Ela começou a contar, sem querer.

Cada poste acendia o rosto dela por um instante e apagava. Depois os postes acabaram, e a estrada ficou escura de verdade — só o farol do ônibus acendendo, uma a uma, as tachinhas que brilham no meio da pista.

Entre elas, dava para ver o escuro do campo, e às vezes uma luzinha bem longe, sozinha, que devia ser uma casa.

— Vó, quem mora ali?

— Não sei. Alguém que já foi dormir.

O mundo acordado de noite

A avó foi apontando as coisas.

Um posto de gasolina aceso no meio do nada, com dois caminhões parados e um homem de chinelo tomando café.

Uma cerca comprida que acompanhou o ônibus por vários minutos.

Um cachorro parado na beira da estrada, vendo o ônibus passar, como se estivesse esperando alguém.

E, uma hora, uma cidade inteira lá embaixo, num vale, com as luzes espalhadas feito um punhado de arroz.

— Olha, vó.

— Tô vendo.

As duas ficaram olhando até a curva esconder tudo.

O barulho do ônibus

Foi aí que a Lia percebeu que o ônibus tinha um som próprio.

Não era barulho de rua. Era um zumbido grave e contínuo, com um chiado embaixo, e uma leve variação quando a estrada subia.

A poltrona vibrava um tiquinho nas costas dela.

E, de vez em quando, um estalinho da janela.

— Vó, o ônibus faz um barulho que parece que ele tá respirando.

Ads

A avó riu baixinho.

— É por isso que criança dorme fácil em ônibus.

O pão de queijo do meio da viagem

Lá pela uma da manhã, o ônibus parou num posto grande, todo iluminado, com gente descendo devagar para ir ao banheiro.

A avó não desceu. Abriu a bolsa e tirou o pão de queijo, que estava frio e mesmo assim delicioso.

Elas comeram as duas, caladas, olhando pela janela os outros passageiros voltando com garrafa de água na mão.

Depois o ônibus fechou a porta com aquele barulho de ar e voltou para a estrada.

O sono chegando

A Lia continuou contando as tachinhas da pista.

Vinte e três. Vinte e quatro.

Ela perdeu a conta, começou de novo do um, e perdeu de novo.

O cobertorzinho estava quentinho no colo. A avó, que tinha pegado no sono primeiro, estava com a mão pousada no braço dela.

Os olhos da Lia fecharam por um instante, do jeito que fecham quando a gente ainda acha que está acordado.

Ela abriu de novo.

Passou mais um poste.

Fechou.

O resto da noite

A Lia não viu o resto da estrada.

Não viu o ônibus atravessar uma ponte comprida, nem a neblina que apareceu nos campos por volta das cinco da manhã, nem o céu começando a clarear atrás dos morros.

Dormiu com o rosto encostado na janela fria, embalada por aquele zumbido que parecia respiração.

A chegada

Ela acordou com a avó mexendo no ombro dela.

— Chegamos, minha filha.

O céu já estava claro, de um azul fraquinho. Pelo vidro, a Lia viu uma rodoviária pequenininha, de um andar só, com um portão azul.

E, do lado de fora do portão, de vestido florido e cabelo preso, esperando de pé desde sabe-se lá quando, estava a bisa.

A Lia desceu os degraus do ônibus meio tonta de sono, com a marca da costura do cobertor no rosto.

E correu.

À noite, na casa da bisa

Naquela noite, deitada numa cama alta de colchão fofo, num quarto que cheirava a armário antigo, a Lia não conseguiu dormir de primeira.

Estava silencioso demais.

Ela ficou um tempo olhando o teto. Depois fechou os olhos e fez uma coisa sem pensar: imaginou as tachinhas da pista passando, uma atrás da outra, no mesmo ritmo.

Uma. Duas. Três.

E imaginou o zumbido grave do ônibus embaixo de tudo, subindo devagar numa ladeira.

Funcionou.

Se um dia você não conseguir dormir, pode tentar: escolhe uma coisa que passa devagar e sempre igual, e vai contando.

Pode ser poste, pode ser onda do mar, pode ser degrau de uma escada que você sobe bem devagar.

A cabeça se cansa de contar antes de você.

✦

O Que Achou da Historinha?

Toque nas estrelas para avaliar

O que achou desta história?

Compartilhe a Historinha:

Comentários (0)

Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar!

Historinhas Relacionadas