O Dia em que as Rodinhas Saíram

4 min de leituraHistorinha para dormir
O Dia em que as Rodinhas Saíram
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A Cecília tinha seis anos e uma bicicleta azul com rodinhas.

Ela andava rápido. Fazia curva. Subia no meio-fio. Descia do meio-fio.

Até o dia em que a vizinha da frente, que tinha a mesma idade, apareceu na rua numa bicicleta sem rodinha nenhuma.

A Cecília olhou aquilo por uns dez segundos. Depois entrou em casa, foi direto na garagem e disse para o pai:

— Tira as rodinhas.

O primeiro sábado

O pai tirou no sábado de manhã, com uma chave de boca, no meio da garagem.

As rodinhas saíram, e a bicicleta ficou esquisita: ela não parava mais em pé sozinha.

Isso incomodou a Cecília mais do que ela esperava.

Eles foram para a rua de trás, que era sem saída e tinha pouco carro. O pai pôs o capacete nela, ajeitou a fivela e segurou a bicicleta pelo banco.

— Pedala que eu seguro.

Ela pedalou. Ele correu atrás, segurando.

E foi bom, por uns vinte metros.

Aí ele soltou.

A bicicleta foi para a direita, para a esquerda, para a direita de novo, e a Cecília foi para o chão.

O tombo

Não foi um tombo grande. Foi o primeiro.

Ralou o joelho, ralou a mão e chorou mais de susto do que de dor.

Ela sentou na guia e disse a frase que todo pai do mundo já ouviu:

— Eu não quero mais.

— Tudo bem — disse o pai.

E foi isso. Ele não insistiu, não fez discurso, não falou que ia passar. Guardou a bicicleta e os dois foram tomar sorvete.

À noite, antes de dormir, a Cecília perguntou do quarto:

— Pai. Amanhã a gente tenta de novo?

— Sábado que vem — disse ele, da porta. — Amanhã a gente deixa o joelho sarar.

O segundo sábado

No sábado seguinte, o pai chegou com uma ideia diferente.

— Hoje a gente não vai pedalar.

— Como assim?

Ele abaixou o banco da bicicleta até o mais baixo que dava, de modo que, sentada, ela ficava com os dois pés inteiros no chão.

— E, antes de qualquer coisa: aperta o freio. Devagar, os dois juntos, até parar. Faz isso umas dez vezes.

— Hoje você vai só empurrar com o pé e deslizar. Sem pedalar. Igual a uma patinete.

A Cecília achou aquilo a coisa mais sem graça do mundo.

Mas fez.

Empurrou com os dois pés, levantou os pés do chão, deslizou dois metros e pôs o pé de novo.

Depois três metros.

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Depois cinco.

E, sem perceber direito, ela começou a fazer uma coisa nova: quando a bicicleta pendia para um lado, ela virava o guidão para esse mesmo lado, e a bicicleta se endireitava sozinha.

Isso tem nome, e é o segredo inteiro de andar de bicicleta.

Mas ninguém precisa saber o nome para fazer.

O terceiro sábado

No terceiro sábado, ela já deslizava a rua sem saída inteira, com os pés levantados, fazendo curva.

Aí o pai levantou o banco de novo, só um pouquinho, e disse:

— Hoje põe o pé no pedal. Mas só depois de deslizar.

E foi assim: empurra, desliza, equilibra — e aí pedala.

Na terceira tentativa, ela pedalou quinze metros.

Na sexta, atravessou a rua inteira.

E caiu de novo, quatro vezes, porque olhar para a roda da frente é quase irresistível e é o jeito mais rápido de cair.

— Olha pra frente, filha. A bicicleta vai para onde você olha.

O quarto sábado

No quarto sábado, de capacete e com a fivela conferida, como em todos os sábados, a Cecília ainda caiu mais quatro vezes antes de conseguir.

E aí ela saiu pedalando.

O pai correu atrás, segurando no banco, como no primeiro dia.

Só que, dessa vez, ele soltou e não falou nada.

Ela continuou.

Dez metros. Vinte. Trinta.

Fez uma curva no fim da rua, torta, mas fez.

Ela freou no fim da rua, do jeito que tinha treinado, pôs os dois pés no chão e olhou para trás.

Lá do outro lado, o pai estava parado no meio da rua, com as mãos na cabeça, rindo.

Só aí ela entendeu que tinha ido sozinha. E gritou de um jeito que a rua inteira ouviu.

A conta

Naquela noite, a Cecília estava na cama com os dois joelhos ralados e um band-aid em cada um.

— Pai, quantas vezes eu caí?

Ele pensou.

— Umas nove.

— Nove é muito?

— Nove é o preço — disse ele, apagando a luz. — Você pagou e levou a bicicleta.

No domingo

No domingo, a vizinha da frente apareceu na rua.

As duas saíram juntas, sem rodinha nenhuma, dando volta no quarteirão a tarde inteira, até a mãe chamar para jantar.

E, no fundo da garagem, encostadas na parede atrás do balde, as duas rodinhas azuis ficaram ali.

A Cecília não deixou jogar fora.

— Elas são minhas — disse ela. — Eu usei.

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