O Dente que Não Queria Cair

O dente da frente do Vitor começou a balançar numa terça-feira.
Ele tinha seis anos, e era o primeiro dente dele a balançar na vida.
No começo foi ótimo.
Ele mostrou para a mãe, mostrou para o pai, mostrou para a vizinha, mostrou para a professora e mostrou para o entregador do gás. Empurrava o dente com a língua na frente de todo mundo, fazendo o dente deitar e levantar.
Todo mundo fazia cara de nojinho, e ele adorava.
A semana seguinte
Na segunda semana, a graça acabou.
O dente continuava lá, balançando, mas sem cair.
O dente balançava mais do que antes. Deitava quase todo para o lado. Mas não soltava.
E começou a atrapalhar.
O Vitor não conseguia morder maçã. Não conseguia comer milho. Toda vez que ele mastigava do lado errado, o dente doía um pouquinho e ele parava de comer.
De noite, na cama, ele ficava mexendo no dente com a língua, sem parar.
As dicas
Aí todo mundo começou a dar ideia.
O primo mais velho falou que era só puxar com a mão.
O Vitor tentou. Doeu, ele desistiu, e o dente ficou mais mole e doendo mais — e mesmo assim não soltou.
O colega da escola falou do truque da linha amarrada na maçaneta.
O Vitor foi olhar a maçaneta da porta do quarto. Olhou a linha. Olhou o dente no espelho. E decidiu que não.
A vó falou para morder pão duro.
Ele mordeu, doeu, e o pão ficou com uma marquinha vermelha.
Aí ele chorou um pouco, porque já estava cansado daquele dente.
A conversa com a mãe
Naquela noite, a mãe sentou na cama dele.
— Tá doendo?
— Não. Tá chato.
Ela riu.
— Posso te falar uma coisa que eu aprendi quando eu era criança?
— Pode.
— Dente de leite cai sozinho, quase sempre. — Ela ajeitou o cobertor. — A raiz dele vai sumindo por dentro, devagarinho, sem ninguém ver. Quando ela acaba de sumir, o dente solta. E aí é rápido, e nem dói.
— Mas já faz duas semanas.
— Já. E pode fazer mais uma. — Ela deu de ombros. — Ele não está preso porque você está fazendo alguma coisa errada. Ele está preso porque ainda não chegou a hora.
O Vitor ficou quieto.
— Então eu faço o quê?
— Você come do outro lado, escova com cuidado e esquece esse dente.
— Esquecer é difícil.
— Eu sei. Mas puxar não adianta, e machuca. Vale para a mão, vale para o barbante e vale para o pão duro. — Ela apagou a luz do corredor. — E, se demorar muito, a gente marca com a dentista, que ela olha e diz se está tudo no caminho certo.
Os dias seguintes
O Vitor tentou.
Não foi fácil. A língua dele ia sozinha no dente, o dia inteiro, sem ele mandar.
Mas ele parou de puxar com a mão. Parou de morder coisa dura de propósito. Passou a comer do lado esquerdo, virando a maçã de ladinho, feito um esquilo.
E foi levando.
Quarta, quinta, sexta, sábado.
O dia
Foi num domingo, no almoço.
O Vitor estava comendo arroz com feijão, pensando em outra coisa, quando sentiu uma coisa esquisita na boca.
Uma coisinha dura que não era arroz nem feijão.
Ele parou de mastigar.
Colocou o dedo na boca com muito cuidado e tirou de lá um dentinho branco, minúsculo, do tamanho de um grão de milho.
Ele não tinha sentido nada.
Nada mesmo.
O buraco
O Vitor saiu correndo para o espelho do banheiro, com o dente na palma da mão.
E lá estava: um buraco preto e perfeito bem no meio do sorriso dele.
Ele ficou abrindo e fechando a boca, olhando o buraco de vários ângulos. Enfiou a língua no vão, que era macio e esquisito e estranhamente delicioso.
Depois voltou correndo para a cozinha e mostrou para a família inteira.
Todo mundo fez cara de espanto, e ele adorou de novo.
À noite
Antes de dormir, o Vitor lavou o dentinho na pia, com cuidado, e ficou olhando para ele ali na mão.
— Mãe.
— Oi.
— Eu fiquei duas semanas puxando esse dente. E ele caiu num dia que eu nem estava pensando nele.
— Pois é.
— Por quê?
A mãe pensou um pouco.
— Porque tem coisa que depende do tempo, não da força. — Ela apagou o abajur. — E o tempo trabalha mesmo quando a gente não está olhando.
O Vitor guardou o dente numa caixinha, em cima da cômoda.
E, quando ele passou a língua no buraco pela última vez naquela noite, já com sono, sentiu uma pontinha dura empurrando a gengiva bem no fundo do buraco.
Era o dente novo. Já vindo.
Também no tempo dele.
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