O Assobio do Téo

Na família do Téo, todo mundo assobiava.
O pai assobiava tomando banho. A mãe assobiava quando estava brava, e todo mundo aprendeu que assobio de mãe brava é sinal de perigo. A irmã mais velha assobiava com dois dedos na boca, aquele assobio de estádio, que fazia doer o ouvido.
Até o Tufão, o cachorro, fazia um barulho esquisito com o nariz que a família insistia em chamar de assobio.
Só o Téo não sabia.
O sopro sem som
Não era por falta de tentar.
Ele fazia o bico. Soprava com força. E saía… ar.
Só ar. Um fffff triste, sem música nenhuma dentro.
Às vezes saía uma cuspidinha, o que era pior.
— Deixa eu ver o bico — dizia a irmã. — Ah, tá errado. Tem que ser assim, ó.
E fazia um assobio lindo, afinado, escorregando de nota em nota, só para se exibir.
— Eu tô fazendo igual!
— Não tá.
O conselho de cada um
Cada pessoa da casa deu um conselho diferente, e nenhum funcionou.
O pai disse para molhar os lábios primeiro.
A mãe disse para pensar no som antes de soprar, que aí sai.
A avó disse que menino só aprende a assobiar depois que cai o dente da frente, e o Téo já tinha perdido dois, então essa também não colava.
A irmã disse para soprar mais forte.
Téo soprou mais forte. Ficou tonto. Não saiu som nenhum.
Duas semanas
O Téo decidiu que não ia mais pedir ajuda. Ia treinar sozinho.
E treinou.
Treinou no banho. Treinou no ônibus, baixinho, para ninguém ouvir. Treinou na fila da cantina. Treinou na hora do dever, o que fez a mãe perguntar da cozinha se tinha alguém com chiado no peito.
Treinou tanto que os lábios dele ficaram cansados de verdade, coisa que ele nem sabia que podia acontecer.
E nada.
O degrau
Numa tarde de sexta-feira, o Téo sentou no degrau da porta, meio desanimado, com o Tufão do lado.
Ele nem estava se esforçando mais. Só estava ali, com o bico meio feito, soltando o ar devagarinho, sem força nenhuma, pensando em outra coisa.
Aí aconteceu.
Fiuuu.
Baixinho. Fininho. Mas era um assobio.
Téo arregalou os olhos e ficou completamente parado, com medo de se mexer e perder.
O Tufão levantou a cabeça e virou a orelha.
Téo tentou de novo, exatamente do mesmo jeito. Sem força. Devagar.
Fiuuu.
De novo!
O barulho da casa inteira
Téo levantou de um pulo e entrou em casa gritando, o que não é a melhor maneira de mostrar um assobio.
— EU CONSEGUI! EU CONSEGUI!
Teve que esperar, ofegante, até conseguir respirar direito para fazer de novo.
A família toda parou na cozinha, esperando.
E aí ele fez.
Fiuuuuu.
A mãe bateu palma. O pai deu um assobio alto de volta, tipo resposta. A irmã fez cara de quem não achou grande coisa, mas deu um sorrisinho quando achou que ninguém estava olhando.
E o Tufão, achando que era brincadeira, começou a latir e correr em círculo pela cozinha.
O segredo
Naquela noite, na hora de dormir, a mãe perguntou:
— E aí? Qual foi o truque?
O Téo pensou um pouco.
— Eu parei de soprar com força.
— Só isso?
— É. Quanto menos eu fazia, mais saía.
A mãe achou graça, apagou a luz e foi saindo.
E, do escuro do quarto, ainda veio um fiuuu baixinho.
E depois outro.
E mais um.
— Téo. Dorme.
— Tá. — Pausa. — Fiuuu.
— TÉO.
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