O Ano Mais Comprido do Mundo

Todo mundo sabe o começo dessa história.
Deus mandou Noé construir um barco enorme, num lugar onde não tinha rio nem mar. Os vizinhos riram dele por anos. Noé construiu assim mesmo, com os três filhos, tábua por tábua.
Todo mundo sabe também a parte dos bichos: a fila enorme chegando sozinha, de dois em dois — e, de alguns, de sete em sete, que essa parte quase ninguém sabe — entrando pela única porta da arca.
E todo mundo sabe da chuva, que caiu quarenta dias e quarenta noites, e da água que cobriu até as montanhas.
Essa parte é a que sempre contam.
O que quase ninguém conta é o que aconteceu depois.
O barulho da porta
Quando a chuva começou, Deus fechou a porta da arca.
E, do lado de dentro, ficaram oito pessoas: Noé e a mulher dele, os três filhos e as três noras.
Oito pessoas, uma porta fechada e um barco cheio de bicho.
No começo, foi assustador. A chuva batia no casco fazendo um barulho que não deixava ninguém dormir. O barco balançava. Alguém sempre estava enjoado.
Mas quarenta dias passam.
E aí é que começa a parte difícil.
A parte que ninguém conta
A água não secou quando a chuva parou.
Ela ficou.
Foram cento e cinquenta dias assim, contando desde o primeiro pingo: a arca boiando sem chegar a lugar nenhum, com o mesmo teto em cima, as mesmas paredes dos lados, as mesmas sete caras na sua frente todo dia.
E tinha trabalho. Muito trabalho.
Alguém tinha que dar comida para todos os bichos, todo dia. Alguém tinha que dar água. Alguém tinha que limpar — e não adianta ter vergonha de falar: era um barco fechado, cheio de animal, e fedia.
Noé tinha uma rotina fixa, e ele cumpria todo santo dia:
De manhã, comida dos grandes. Depois comida dos pequenos. Depois água. Depois limpar o corredor de baixo. Depois o do meio. Depois o de cima.
E, no fim do dia, ele subia até a janela lá no alto e olhava para fora.
Água.
Sempre a mesma água, até onde a vista alcançava.
O tédio
Uma das noras, um dia, perguntou:
— Quanto tempo ainda?
E Noé respondeu a verdade, que era a pior resposta possível:
— Eu não sei.
Ninguém sabia. Não tinha data. Não tinha calendário na parede com um X para riscar.
Tinha só o dia de hoje, e a comida dos bichos, e o corredor para limpar, e a janela lá em cima para olhar antes de dormir.
Eles inventaram o que fazer. Cantavam. Contavam histórias de quando a terra era seca. As mulheres deram nome para os animais que ainda não tinham. Um dos filhos passou semanas fazendo uma escada melhor para a baia de cima, porque a antiga era ruim.
E foram levando.
O dia em que o chão parou
Um dia, aconteceu uma coisa que eles não sentiam havia meses: o barco parou de balançar.
Todo mundo ficou quieto de repente, sentindo o chão.
Firme.
A arca tinha encostado numa montanha.
Foi uma festa. Abraço, choro, grito. Correram todos para a janela, achando que iam ver terra.
E viram água. A arca estava em cima de uma montanha, mas todo o resto ainda estava coberto.
Ainda não era a hora.
Os passarinhos
Noé esperou mais um tempo. E então teve uma ideia que era bem prática e bem simples.
Ele abriu a janela e soltou um corvo.
O corvo saiu voando e ficou indo e voltando por aí, e não voltou mais para dentro. Não serviu de resposta.
Aí Noé soltou uma pomba.
A pomba voou, deu a volta e voltou para a mão dele, porque não achou um galho seco sequer onde descansar o pé.
Noé esperou sete dias inteiros — e isso, depois de tantos meses esperando, deve ter sido a semana mais comprida de todas.
Soltou a pomba de novo.
Ela voltou de noite.
E, no bico dela, tinha uma folha. Uma folhinha verde de oliveira, arrancada de uma árvore de verdade, em algum lugar.
Noé segurou aquela folha na mão e chorou.
Não era terra seca ainda. Era só uma folha.
Mas era a primeira coisa viva vinda de fora em quase um ano.
A porta abrindo
Sete dias depois, ele soltou a pomba pela terceira vez.
Dessa vez ela não voltou.
E Noé entendeu: ela tinha achado onde morar.
Ainda demorou mais um tempo, porque o chão precisava secar de verdade. Mas, um dia, Deus disse a Noé:
— Sai da arca. Você, sua família e todos os bichos.
Eles abriram aquela porta que estava fechada havia mais de um ano.
E a luz entrou.
O primeiro dia do lado de fora
Dá para imaginar a cena.
Os bichos saindo, empurrando uns aos outros, correndo, voando, pulando, cada um para um lado.
E as oito pessoas paradas na rampa, olhando aquilo, com os pés num chão que não balançava, com vento no rosto, com cheiro de terra molhada — não de bicho, de terra.
Noé fez a primeira coisa que quis fazer: agradeceu a Deus.
E foi aí que apareceu no céu uma coisa que ninguém tinha visto antes.
O arco-íris
Um arco de cores, enorme, de uma ponta do céu até a outra.
E Deus fez uma promessa:
— Nunca mais vou destruir a terra com um dilúvio. E toda vez que aparecer esse arco nas nuvens, vai ser para lembrar dessa promessa.
Por isso, até hoje, depois de uma chuva forte, quando o sol volta e o arco-íris aparece, tem gente que para na rua e fica olhando.
Para pensar antes de dormir
A parte famosa dessa história é a arca, a chuva e os bichos de dois em dois.
Mas a parte mais difícil não foi construir o barco nem enfrentar a tempestade.
Foi o meio. Foi o ano inteiro de espera, sem saber quando ia acabar, dando comida para os bichos todo dia, limpando o mesmo corredor, olhando pela mesma janela.
Hoje à noite, se você estiver esperando alguma coisa demorada — o dente que não nasce, a viagem que não chega, alguém que está longe —, lembre da folhinha de oliveira.
Às vezes a resposta não vem toda de uma vez. Vem uma folhinha primeiro.
A história de Noé está na Bíblia, no livro de Gênesis, capítulos 6 a 9.
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