Noé e a Arca

Há muito, muito tempo, quando o mundo ainda era novo, morava um homem chamado Noé.
Ele vivia com a mulher dele e os três filhos, Sem, Cam e Jafé, e com as mulheres dos três.
Naquele tempo, as pessoas tinham se tornado muito violentas, e o mundo tinha virado um lugar ruim de viver. Mas o Noé era diferente. Ele era um homem justo e andava com Deus.
E foi com o Noé que Deus resolveu falar.
O pedido estranho
— Construa uma arca de madeira — disse Deus.
Arca é um barco grande, em forma de caixa. E o pedido tinha um problema: a casa do Noé não ficava perto de mar nenhum.
Deus explicou o tamanho, e não era pequeno: trezentos côvados de comprimento, cinquenta de largura e trinta de altura. Côvado é uma medida antiga, mais ou menos o tamanho do braço de um homem, do cotovelo até a ponta do dedo.
Em metro, aquilo dava uns cento e trinta e cinco metros de comprimento. Um barco mais comprido que um campo de futebol, com três andares por dentro.
— Faça compartimentos — disse Deus. — Cubra de betume por dentro e por fora, para não entrar água. Ponha uma porta na lateral e uma janela em cima.
E explicou por quê: viria uma chuva como nunca tinha vindo, e a terra ficaria coberta de água.
Os vizinhos
Noé começou a construir.
E os vizinhos começaram a rir.
Passavam ali, viam aquele barco gigante crescendo no meio do seco, longe de qualquer rio, e faziam piada.
— Vai pescar o quê, Noé?
Ele não respondia com desaforo. Continuava serrando, encaixando e passando betume.
A obra levou muito tempo. Anos.
E, todos esses anos, o Noé continuou fazendo a mesma coisa, todo dia, sem ninguém para dizer que ele estava certo.
Os vizinhos tiveram esses anos todos para perguntar o que ele estava construindo. Nenhum perguntou.
Os animais
Quando a arca ficou pronta, Deus mandou o Noé levar para dentro a família inteira e os animais.
E aí aconteceu a parte que as crianças mais gostam.
Os bichos vieram.
Vieram de dois em dois, macho e fêmea, de toda espécie que existia: os que voam, os que rastejam, os que andam em quatro patas, os grandes, os miúdos.
Elefante ao lado de rato. Girafa abaixando o pescoço para caber na porta. Leão andando na mesma rampa que ovelha, sem encostar nela.
Ninguém precisou caçar, nem amarrar, nem convencer. Eles chegaram sozinhos, em fila.
O Noé e os filhos guardaram comida para todo mundo, para eles e para os bichos, porque a viagem ia demorar.
E, quando estava todo mundo dentro, o próprio Deus fechou a porta da arca.
A chuva
Choveu quarenta dias e quarenta noites.
Não foi só a chuva: as fontes de água que ficam debaixo da terra também se abriram.
A água foi subindo. Cobriu o quintal, cobriu as casas, cobriu as árvores, cobriu até os montes mais altos.
E a arca, que estava parada no seco, se levantou e passou a boiar.
Lá dentro era escuro e barulhento. Dava para ouvir a chuva batendo na madeira o tempo inteiro, a água correndo do lado de fora e os bichos se mexendo nos compartimentos.
O Noé foi cuidando de todo mundo, um dia de cada vez, dando comida, limpando, acalmando bicho assustado.
A espera
Quando a chuva finalmente parou, a história não acabou.
A água ficou em cima da terra por muitos e muitos dias — cento e cinquenta ao todo, contando desde o começo — antes de começar a baixar.
Aí Deus mandou um vento passar por cima das águas, e elas foram descendo devagarinho.
Num certo dia, a arca parou de balançar: tinha encostado no alto das montanhas de Ararate.
Mas ainda não dava para sair. Só o topo dos montes aparecia.
O corvo e a pomba
Noé esperou mais um tempo e abriu a janela.
Primeiro soltou um corvo, que ficou indo e voltando, sem pousar em lugar nenhum.
Depois soltou uma pomba.
A pomba voou, deu uma volta e voltou para a mão dele, porque não achou onde pousar: era água até onde a vista alcançava.
Ele esperou sete dias e soltou a pomba de novo.
Dessa vez, ela voltou no fim da tarde com uma folha verde de oliveira no bico.
O Noé entendeu: se tinha folha nova, tinha árvore fora d'água. A terra estava secando.
Esperou mais sete dias e soltou a pomba pela terceira vez.
E, dessa vez, ela não voltou.
Era o sinal que ele estava esperando.
A porta se abre
Deus falou com o Noé outra vez:
— Saia da arca, você, a sua família e todos os animais.
Eles abriram a porta.
E os bichos desceram a rampa, um atrás do outro, pisando na terra molhada e cheirando o mato novo, e foram se espalhando pelo mundo.
O Noé desceu por último, com a família, e a primeira coisa que fez foi agradecer.
O arco-íris
Foi então que Deus fez uma promessa.
— Nunca mais vou destruir a terra com um dilúvio. Enquanto o mundo existir, vai ter semeadura e colheita, frio e calor, verão e inverno, dia e noite.
E disse que ia deixar um sinal dessa promessa, que qualquer um poderia ver.
Aí ele pôs o arco-íris no céu.
— Sempre que ele aparecer, eu vou lembrar do combinado.
Depois daquele dia
O mundo recomeçou.
Noé plantou. Os filhos dele tiveram filhos, e esses filhos tiveram filhos, e o mundo foi se enchendo de gente de novo.
E ficou aquele costume que existe até hoje.
Quando para de chover e o sol volta, todo mundo procura o arco-íris no céu. As crianças apontam. Os adultos param o que estão fazendo para olhar.
É bonito de ver. E, para quem conhece a história, é também um lembrete de uma promessa bem antiga.
Esta história está na Bíblia, no livro de Gênesis, capítulos 6 a 9. Lá, de alguns animais Deus mandou levar mais de um casal.
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