João e o Pé de Feijão

Numa casinha pobre de beira de estrada, morava um menino chamado João com a mãe dele, que era viúva.
Eles tinham quase nada. Tinham uma horta que dava pouco, umas poucas galinhas magras e uma vaca chamada Branquinha.
A Branquinha era tudo.
Era o leite do café da manhã, o queijo da semana e o dinheiro que sobrava no fim do mês, quando sobrava.
Num ano de seca, a vaca parou de dar leite.
O pedido da mãe
A mãe do João sentou na beira da cama, de cabeça baixa, com a conta de casa na cabeça.
— Meu filho, não tem jeito. A gente vai ter que vender a Branquinha.
O João sentiu um nó na garganta. Ele tinha crescido com aquela vaca.
— Leva na feira da cidade — disse a mãe. — Não aceita menos do que ela vale, e não demora.
Ele amarrou uma corda no pescoço da Branquinha, fez um carinho na testa dela e foi.
O velhinho na estrada
No meio do caminho, apareceu um velhinho de barba comprida e chapéu pontudo, sentado numa pedra.
— Bom dia, menino. Para onde vai com essa vaca tão bonita?
— Vou vender na feira.
— Ah. — O velhinho abriu a mão. — Então eu compro. Pago agora.
Dentro da mão dele, tinha cinco feijões. Cinco feijões miúdos, de cor esquisita, meio brilhantes, quase azulados.
— Isso aqui é feijão mágico — disse ele. — Planta de noite e de manhã tem uma surpresa.
O João olhou para os feijões. Olhou para a vaca.
E aí fez o que não devia.
Aceitou.
A volta para casa
Ele chegou em casa de mãos abanando, só com os feijões no bolso, achando que tinha feito um grande negócio.
A mãe veio correndo, olhou para as mãos dele e perguntou:
— Cadê o dinheiro da vaca?
— Eu troquei. Por esses feijões mágicos!
A mãe ficou olhando o filho por um bom tempo.
Depois, sem falar nada, pegou os cinco feijões e jogou pela janela.
Foi dormir sem jantar, com os olhos molhados, e mandou o João dormir sem jantar também.
A manhã seguinte
O João acordou com a janela do quarto escura.
Escura de tão cheia de folha.
Ele pulou da cama e olhou para fora.
No lugar onde a mãe tinha jogado os feijões, tinha nascido um pé de feijão tão alto, tão grosso e tão cheio de folha que ele não via o fim.
O caule era do tamanho de uma árvore antiga, com galhos fortes de onde saíam folhas enormes, formando uma espécie de escada natural.
E subia, subia, subia, até se perder no meio das nuvens.
A subida
O João não pensou duas vezes.
Ele precisava fazer alguma coisa para consertar o erro dele.
Vestiu o casaco, avisou à mãe que ia subir — ela concordou depois de muito pedir cuidado — e começou a escalar.
Subiu por um tempão. Passou por um ninho de passarinho, por uma teia de aranha do tamanho de um lençol, e por uma nuvem tão espessa que ele só enxergava a própria mão.
E, quando finalmente chegou lá em cima, viu um mundo que ele nunca tinha imaginado.
Havia uma estrada de pedra, e no fim dela um castelo enorme, com uma porta do tamanho de um prédio.
A mulher do gigante
João bateu na porta, que de tão grande demorou muito para alguém ouvir.
Quem abriu foi uma mulher alta, de avental, com a cara cansada de quem trabalha demais.
— O que você está fazendo aqui, menino? Aqui mora um gigante, e ele come gente.
— Eu estou com muita fome — disse o João, que era verdade. — Posso comer só um pedacinho de pão? Eu vou embora depois.
A mulher teve pena.
Levou ele para a cozinha, que era do tamanho de um salão, e deu um pedaço de pão e um copo de leite.
Mas, no meio do lanche, o chão tremeu.
BUM. BUM. BUM.
— É ele! — sussurrou a mulher. — Esconde aí no forno!
O gigante
O gigante entrou na cozinha cheirando o ar.
— Fi, fai, fom, fiu! — rugiu ele. — Sinto cheiro de menino por aqui!
— Você está sentindo o cheiro do carneiro do jantar — disse a mulher, sem tremer. — Senta e come.
O gigante sentou e comeu. Comeu um boi inteiro, mais três bandejas de pão.
Depois, de barriga cheia, mandou trazer o saco.
Era um saco de moedas de ouro, pesado, que ele ficou contando, uma por uma, derramando em cima da mesa, até pegar no sono, com a cabeça pendendo para trás e a boca aberta, roncando.
O que o João fez
O João saiu do forno, na ponta dos pés.
Olhou para o saco de ouro, cheio de moedas que podiam alimentar a mãe dele por muitos anos, e fez uma coisa que ele mesmo nunca esperava fazer: pegou um saquinho pequeno só com algumas moedas e correu.
Correu até o pé de feijão, desceu agarrado às folhas, com o coração aos pulos, e chegou em casa de manhãzinha.
A mãe, quando viu o ouro, chorou.
Mas chorou diferente.
— Onde você achou isso, João?
— Lá em cima. Eu consigo achar mais.
— Não! — disse a mãe, assustada. — Já foi demais.
O João subiu de novo
O ouro durou um tempo.
E, quando acabou, o João subiu de novo, mesmo com a mãe pedindo que ele não fosse.
Dessa vez, a mulher do gigante deixou ele esconder no armário.
E o gigante, depois de comer, trouxe outra coisa: uma galinha. Uma galinha de penas brilhantes que botava um ovo de ouro maciço toda vez que ele mandava.
Bota!, dizia o gigante. E o ovo caía, reluzente.
Quando o gigante dormiu, o João pegou a galinha debaixo do braço e correu de novo.
A terceira vez
Com a galinha, a mãe e o João nunca mais passaram fome.
Mas o João começou a sentir uma coisa estranha.
Ele sabia que o que tinha feito, de certa forma, não era certo. Aquela mulher tinha dado pão para ele, e ele tinha levado as coisas do marido dela.
Mesmo assim, a vontade de subir de novo apertava.
E subiu a terceira vez.
Dessa vez foi diferente. Escondido atrás de um barril de farinha, o João viu o gigante trazer uma harpa de ouro que cantava sozinha, música tão bonita que dava vontade de chorar.
O João esperou o gigante dormir.
E, quando agarrou a harpa, ela gritou:
— Mestre! Mestre! Estão me levando!
A descida
O gigante acordou.
Ele levantou rugindo, com o chão tremendo, e saiu correndo atrás do menino.
João desceu pelo pé de feijão o mais rápido que conseguia, com a harpa debaixo do braço, e sentiu o caule inteiro balançar quando o gigante pôs o pé nele.
Lá embaixo, a mãe ouviu o barulho.
— O machado, mãe! Traz o machado!
A mãe correu e voltou com o machado do pai dele, que estava guardado havia anos.
O João pulou os últimos metros, pegou o machado e bateu no pé de feijão.
Uma vez. Duas. Três.
O pé de feijão rachou, tombou com um estrondo que fez a terra tremer, e levou o gigante junto, que ainda estava descendo pelo caule, para bem longe, para um lugar de onde ele nunca mais voltou.
Depois
A mãe e o João ficaram morando na casinha de beira de estrada.
Com o ouro, compraram uma vaca nova.
E com a harpa, que cantava toda noite, a casa deles nunca mais ficou em silêncio.
Mas, de vez em quando, o João ficava sentado na varanda, de noite, olhando para o céu, onde o pé de feijão tinha estado.
E pensava na mulher do avental, lá em cima, sozinha num castelo vazio.
Pensava que, talvez, no fim das contas, ela tivesse ficado melhor sem o gigante.
Mas pensava também que não tinha sido certo levar o que não era dele. Um dia, ainda ia querer dizer obrigado pelo pão, e pedir desculpas.
Este conto é inglês e tem mais de duzentos anos, e existem muitas versões dele. Nesta, o João sente culpa por ter levado coisas de quem o ajudou, a mãe sabe que ele vai subir, ele leva só um saquinho de moedas e o gigante desaparece em vez de morrer. Essas mudanças são desta versão e não estão no conto tradicional.
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