O Boitatá e o Fogo no Campo

No sítio do Seu Aldo tinha um pedaço de campo que ele chamava de o mato lá do fundo.
Era um mato feio, para ser sincero. Capim alto, seco, cheio de espinho, aquele matagal que ninguém usa para nada.
Todo ano, no meio da seca, o Seu Aldo pegava uma caixa de fósforo e ia lá tocar fogo.
— Limpa tudo — ele dizia. — Queima o mato ruim, aí vem chuva e nasce capim novo, verdinho. Meu pai fazia assim. Meu avô fazia assim.
Naquele ano, o neto dele, o Emanuel, estava passando as férias no sítio. E foi junto.
O que o Emanuel perguntou
Enquanto os dois caminhavam para o fundo do campo, no fim da tarde, o Emanuel foi fazendo pergunta.
— Vô, e os bichos que moram no mato?
— Que bicho?
— Sei lá. Bicho.
O Seu Aldo deu uma risadinha.
— Bicho corre, menino. Bicho tem perna.
— E os que não têm?
O avô não respondeu.
Chegaram à beira do matagal. O capim seco batia na cintura do Seu Aldo e ia até o ombro do Emanuel. Fazia aquele barulhinho de papel quando o vento passava.
O Seu Aldo largou no chão as duas latas e os sacos de estopa que trazia no ombro — ele nunca ia sem — e tirou a caixa de fósforo do bolso.
— Fica atrás de mim e não sai daí. Isso aqui não é brincadeira de menino. Nem de véio também.
O fogo
Ele riscou o fósforo e encostou no capim.
O fogo pegou na hora.
Não foi devagar, não foi bonito. Foi um estalo, um fuuum, e uma parede de fogo subiu mais alta que o Emanuel em dois segundos.
O calor bateu no rosto dos dois. O barulho era um chiado grosso, cheio de estalo.
E aí começou a sair bicho de dentro do mato.
Saiu preá correndo. Saiu lagarto. Saiu um monte de gafanhoto voando torto. Saiu uma cobra, que passou a um metro do pé do Emanuel e ele nem teve tempo de ter medo.
E saiu, do chão, uma nuvem de passarinho pequeno, gritando, desesperado, voando em círculo por cima do fogo.
— Vô, por que eles não vão embora?
O Seu Aldo estava com a cara séria agora.
— Ninho — ele disse.
A fumaça
O vento virou.
Não era para virar. O Seu Aldo tinha conferido antes, como sempre fazia. Mas virou mesmo assim.
A fumaça veio para cima deles, grossa, branca, cheirando a capim queimado, e o fogo começou a correr para o lado errado — na direção da cerca, do curral, do pé de manga velho.
— Corre pro tanque! — gritou o avô.
Os dois correram. Pegaram as latas e começaram a jogar água na beirada do fogo, batendo com saco molhado, tentando fazer o fogo parar antes da cerca.
Deu certo, no fim. Mas foi por pouco, e levou quase uma hora.
Quando acabou, os dois sentaram no chão, sujos de fuligem, tossindo, exaustos, com a noite já caindo.
A luz no meio do escuro
E foi aí que o Emanuel viu.
Lá no meio do campo queimado, onde não tinha mais capim nenhum, onde não tinha mais chama nenhuma, tinha uma luz.
Uma luz comprida. Que se mexia.
— Vô.
O Seu Aldo olhou.
A luz foi ficando maior. Ela vinha deslizando pelo chão preto, sem pressa, enrolando e desenrolando, e dava para ver que era um corpo comprido, translúcido, com fogo correndo por dentro, laranja e azul, como se alguém tivesse enchido uma cobra enorme de brasa viva.
Na frente, dois olhos. Grandes. Redondos. Muito, muito brilhantes.
O Emanuel se encolheu atrás do avô.
O Seu Aldo não correu. Ele tirou o chapéu da cabeça, devagar, e ficou de pé, parado.
— Boitatá — ele disse baixinho. — Vem da língua dos índio. Mboi é cobra. Tatá é fogo. Cobra de fogo.
O dono do mato
A cobra de fogo parou a uns vinte passos deles.
Ela não avançou. Não atacou. Só ficou ali, enrolada, iluminando o campo queimado em volta com aquela luz alaranjada que tremia.
E o Emanuel, olhando do lado do avô, viu uma coisa que ele não esqueceu mais.
Dava para ver o campo inteiro na luz dela.
Dava para ver o chão preto, fumegando. Dava para ver os tocos queimados. Dava para ver, no meio de tudo aquilo, um ninho de passarinho caído, virado, vazio.
Era como se a cobra tivesse acendido a luz de propósito, só para eles enxergarem direito.
Depois, devagar, ela se desenrolou e foi embora, deslizando pelo chão, ficando cada vez menor, até virar um pontinho e sumir atrás do morro.
Ficou o escuro e o cheiro de queimado.
A volta para casa
Os dois voltaram calados pela estrada de terra.
Na metade do caminho, o Emanuel perguntou:
— Vô, o Boitatá é malvado?
O Seu Aldo demorou a responder.
— Minha avó dizia que ele é o guardião do campo. Que ele anda por onde teve fogo. E que ele persegue quem bota fogo no mato à toa. — Ele coçou a cabeça. — Eu sempre achei que era história pra assustar criança.
— E agora?
— Agora eu não sei mais.
O que mudou no sítio
No ano seguinte, o Emanuel voltou para as férias e foi correndo ver o mato do fundo.
O mato estava lá. Alto, seco, feio.
E inteiro.
— O senhor não queimou?
O Seu Aldo estava consertando a cerca.
— Não queimei. — Ele bateu o martelo. — Mandei o rapaz roçar com a foice. Deu mais trabalho, custou mais caro e demorou uma semana.
— E por quê?
O velho parou o martelo e ficou olhando para o campo.
— Porque eu queimei aquele mato a vida inteira sem pensar no assunto. — Ele deu de ombros. — Aí veio um menino me perguntar dos bicho que não tem perna. E eu não soube responder.
De noite
Naquela noite, o Emanuel foi dormir com a janela aberta, ouvindo os grilos do mato do fundo, que estava cheio de grilo justamente por não ter sido queimado.
Antes de dormir, ele ficou olhando o escuro lá fora, procurando.
Não apareceu luz nenhuma.
Ele achou que era bom sinal.
E dormiu achando que o dono do campo devia estar dando uma volta em outro lugar — algum lugar onde alguém ainda estava botando fogo no mato à toa.
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