A Roupa Nova do Rei

Era uma vez um rei que gostava de roupa mais do que de qualquer outra coisa no mundo.
Outros reis gostam de caçar, de guerrear, de construir pontes. Esse não.
Ele tinha um traje para cada hora do dia, e, quando os conselheiros perguntavam onde ele estava, a resposta era quase sempre a mesma:
— Está no guarda-roupa, experimentando.
Os dois visitantes
Um dia, chegaram à cidade dois homens que se diziam tecelões.
Eles pediram audiência com o rei e contaram uma novidade extraordinária.
— Majestade, nós sabemos tecer um pano como o senhor nunca viu. As cores são lindíssimas, o desenho é delicado… e ele tem uma propriedade mágica.
— Que propriedade?
— Esse tecido fica invisível para qualquer pessoa que seja boba demais ou que não sirva para o cargo que ocupa.
O rei se endireitou no trono.
Aquilo era mais do que uma roupa. Era um teste. Com uma roupa dessas, ele descobriria de uma vez quem no reino era esperto e quem era tolo.
Mandou pagar adiantado, e mandou começar já.
Os teares vazios
Eles montaram dois teares grandes no meio do salão.
E trabalharam.
Fingiram encher as lançadeiras de fio. Fingiram passar a linha de um lado para o outro. Ficavam até tarde, tecendo o ar, com o maior capricho do mundo.
Do ouro e da seda finíssima que pediam ao palácio, guardavam tudo na bolsa.
Depois de alguns dias, o rei ficou curioso para ver como estava a roupa. Mas sentiu um arrepio esquisito.
E se eu não enxergar nada?
Achou melhor mandar outra pessoa primeiro.
O velho ministro
Ele mandou o ministro mais velho e mais honesto da corte.
O velhinho entrou na sala, olhou para os teares, arregalou os olhos e piscou várias vezes.
Não tinha nada ali. Nada mesmo.
— Então, o que acha? — perguntaram os tecelões, apontando para o tear vazio. — Repare nas cores!
O ministro pensou depressa.
Eu não vejo nada. Isso quer dizer que eu sou bobo? Ou que eu não sirvo para ser ministro? Se contarem isso ao rei, eu estou perdido.
Então ele pigarreou e disse:
— Magnífico. Simplesmente magnífico. Vou dizer ao rei que é a coisa mais bonita que já vi.
Os tecelões pediram mais ouro e mais seda. E continuaram tecendo o nada.
O rei foi ver
Depois o rei mandou outro conselheiro, que também não viu nada e também elogiou.
Até que o próprio rei resolveu ir.
Ele entrou no salão com toda a corte atrás. Olhou para os teares.
E gelou.
Não havia absolutamente nada ali.
Como assim? Eu não vejo nada! Isso é terrível. Então eu sou bobo? Então eu não sirvo para ser rei?
Mas ele não podia dizer isso na frente de todo mundo.
Então sorriu, abriu os braços e exclamou:
— Esplêndido! Que cores! Que desenho!
E toda a corte, que também não via nada, repetiu:
— Esplêndido! Que cores! Que desenho!
A véspera do desfile
Os tecelões trabalharam a noite inteira, com mais de dezesseis velas acesas, para todo mundo ver como eram dedicados.
De manhã, anunciaram:
— A roupa está pronta!
Eles ergueram os braços no ar, segurando coisa nenhuma.
— Veja o casaco. Leve como teia de aranha. A pessoa até acha que não está vestindo nada.
Então ajudaram o rei a tirar a roupa e a "vestir" a roupa nova, peça por peça, amarrando fitas que não existiam.
O rei se virou de um lado e de outro na frente do espelho.
E os cortesãos disseram que caía perfeitamente.
O desfile
A cidade inteira estava na rua, nas janelas e nos telhados.
Dois nobres seguravam a ponta de um manto invisível, com muito cuidado para não deixar arrastar no chão.
E o rei saiu desfilando, debaixo do pálio, com o queixo erguido.
— Que roupa linda!
— Como assenta bem!
— Que cores!
Ninguém queria ser o único a dizer que não via nada. Isso seria o mesmo que se declarar bobo na frente da cidade toda.
Foi o desfile mais elogiado da história do reino.
A voz pequena
Até que, lá na frente, no meio da multidão, uma voz pequena disse, bem alto:
— Mas ele não está vestindo nada!
Era um menino.
O pai, sem graça, começou a baixar a mãozinha dele.
Depois parou. Olhou para o rei, olhou para o filho, e falou bem alto:
— Ouçam o que a criança está dizendo!
E foram repetindo, um para o outro, cada vez mais alto, até a rua inteira estar falando a mesma coisa:
— Ele não está vestindo nada!
O rei continuou
O rei ouviu.
E percebeu que o povo tinha razão.
Sentiu um calor subir pelo pescoço, e por um instante pensou em correr para o palácio.
Mas pensou: agora já começou. Eu preciso terminar o desfile.
Então ergueu o queixo mais ainda, arrumou uma dignidade que não tinha, e seguiu andando até o fim da rua.
E os dois nobres foram atrás, segurando com todo o cuidado a ponta de um manto que não existia.
E os tecelões?
Quando foram procurar os dois espertalhões, eles já tinham ido embora de madrugada, com o ouro, a seda e os cavalos mais rápidos do estábulo.
Nunca mais apareceram.
Dizem que o rei nunca mais encomendou roupa sem antes tocar no tecido com as próprias mãos.
E que, daquele dia em diante, sempre que alguém no palácio elogiava demais alguma coisa, ele franzia a testa e perguntava:
— Você está vendo mesmo, ou está vendo porque os outros estão vendo?
Este conto é de Hans Christian Andersen, publicado na Dinamarca em 1837. No original, o personagem é um imperador, e a história termina no desfile: Andersen não conta o que aconteceu com os dois trapaceiros depois. Esse fim é nosso.
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