A Princesa que Tropeçava nas Palavras

5 min de leituraHistorinha para dormir
A Princesa que Tropeçava nas Palavras
Ads

A princesa Elisa tinha um problema com o começo das palavras.

Ela sabia exatamente o que queria dizer. A frase inteira ficava prontinha na cabeça dela, com vírgula e tudo.

Mas, na hora de sair, a primeira sílaba engasgava.

— Bo-bo-bo-bom dia — ela dizia para o cozinheiro, e o rosto dela esquentava.

Em algumas palavras não acontecia nada. Em outras, acontecia sempre. E ela já sabia de cor quais eram as traiçoeiras, e desviava delas quando dava.

Se ia falar cavalo e sabia que ia travar, ela dizia montaria.

Se ia falar pão, dizia aquilo da cesta.

Era cansativo. Era como andar sempre pela beirada da rua para não pisar num buraco que só ela enxergava.

As pessoas ajudando errado

O pior nem era travar.

O pior era o que os outros faziam quando ela travava.

Tinha quem terminasse a frase por ela.

— Eu que-que-que…

— Quer o quê, alteza? Água? Comida? Um cavalo?

— …ria dizer bom dia — ela terminava, sozinha, depois que a pessoa já tinha ido embora.

Tinha quem mandasse ela respirar.

— Calma, alteza. Respira fundo. Vai com calma.

Como se ela não estivesse calma. Como se o problema fosse pressa.

E tinha quem fizesse pior de tudo: aquela cara. A cara de pena, de cabeça inclinada, de olho doce.

Elisa preferia mil vezes quem ria. Pelo menos era honesto.

O anúncio terrível

Um dia, o rei chamou a filha e disse, muito orgulhoso:

— Este ano, quem vai falar na festa da colheita é você.

Elisa sentiu o chão sumir.

A festa da colheita era a maior festa do reino. Vinha gente das doze vilas. Tinha bandeirinha, tinha música, tinha comida na praça.

E, no meio da manhã, alguém da família real subia num palanque de madeira e falava para todo mundo.

— Pa-pa-pai, eu não…

— Você vai, sim. — O rei sorriu, achando que estava ajudando. — É só ter confiança.

Elisa foi para o quarto e ficou olhando para o teto, com uma pedra no peito.

Faltavam dez dias.

A mestra do coro

Quem apareceu na porta do quarto no dia seguinte foi a Dona Vicência, a mestra do coro do castelo.

Ela era velha, tinha uma voz grossa e não pediu licença para entrar.

— Me disseram que você vai falar na festa.

— Vo-vou — disse Elisa, olhando para o chão.

— E você acha que não vai conseguir.

— Não vo-vou conseguir.

A Dona Vicência puxou o banquinho e sentou na frente dela.

— Canta uma música pra mim.

Elisa olhou para ela, sem entender.

— Ca-cantar?

— Qualquer uma. A do moinho.

Elisa achou aquilo sem pé nem cabeça. Mas cantou.

"Lá no moinho velho, roda a roda, roda o vento…"

Ela cantou a música inteira.

E não travou nem uma vez.

O que a Dona Vicência sabia

Elisa parou no fim da música com uma cara de espanto tão grande que a Dona Vicência riu.

— Como é que…?

Ads

— Isso acontece com quase todo mundo que gagueja. — A velha deu de ombros. — Cantando a voz não para. Você alonga as palavras, a música te dá o compasso, e você não precisa escolher o que dizer, porque já tá escolhido. Aí não tem onde tropeçar. Meu irmão era igualzinho a você, e cantava que era uma beleza.

— E o que eu fa-faço com isso?

— A gente usa.

Os nove dias

Durante nove dias, a Dona Vicência trabalhou com a princesa.

Primeiro, mostrou que dava para falar mais escorregado, puxando um pouquinho as palavras, quase cantando, sem parecer estranho.

— Não é pra cantar o discurso todo, menina. Ia ficar ridículo. É pra começar a frase escorregando.

Depois ela pegou o papel do discurso e leu com cara de nojo.

— Esse discurso não é seu, é de escrivão. "Prezados"? Ninguém fala assim. Escreve do jeito que você fala: "gente do meu reino". E esse "agradeço" aqui vira "obrigada".

— É pra fugir das palavras difíceis?

— Não é pra fugir de palavra nenhuma. — A velha foi firme. — É pra esse papel ter a sua voz.

O discurso foi ficando mais curto, mais simples e mais parecido com o jeito da Elisa de falar.

E teve uma terceira coisa, que foi a mais difícil.

— Se travar, trava — disse a Dona Vicência. — Você para, respira, e continua de onde parou. Sem pedir desculpa. Você não fez nada de errado.

A manhã da festa

No dia da festa, a praça estava lotada.

Elisa subiu no palanque de madeira com o papel na mão e as pernas bambas. Deu para ouvir o barulho da multidão diminuindo aos poucos, até ficar aquele silêncio de todo mundo esperando.

Ela olhou para baixo e achou a Dona Vicência na primeira fila, de braços cruzados, com a cara de sempre.

Elisa respirou.

E começou escorregando, do jeito que tinha treinado, quase com música dentro:

— Geeente do meu reino…

A voz saiu.

Ela continuou. Falou da colheita. Falou da chuva que quase estragou tudo em março e não estragou. Falou do trigo, do milho, das mãos que plantaram.

No meio, na palavra "trabalho", ela travou.

Tra-tra-tra.

E a praça inteira ficou em silêncio, esperando.

Elisa parou. Respirou. E não pediu desculpa.

— …trabalho de vocês — ela terminou.

E seguiu em frente.

O fim do discurso

Quando ela chegou na última linha, fez uma coisa que não estava no papel.

Ela dobrou o discurso, guardou e disse:

— Pra terminar, eu ia agradecer. Mas eu canto melhor do que falo. Então eu vou cantar.

E cantou a música do moinho.

A voz dela foi para o fundo da praça, firme, redonda, sem tropeço nenhum.

Na segunda estrofe, um homem da vila do norte começou a cantar junto. Depois mais gente. Depois a praça inteira, com todo mundo fora do tom, do jeito que fica bonito.

Depois

Naquela noite, já de pijama, Elisa foi encontrar a Dona Vicência no corredor.

— Eu tra-travei na frente de todo mundo.

— Travou.

— E foi tudo bem.

— Foi.

A velha ajeitou o xale no ombro e foi andando.

— Sabe qual é a parte que ninguém te conta, menina? As pessoas não lembram do tropeço. Elas lembram do que você falou.

Elisa ficou parada no corredor, pensando nisso.

Depois foi dormir, cantarolando baixinho a música do moinho, sem tropeçar em nenhuma palavra.

E, no dia seguinte, ela acordou e falou bom dia para o cozinheiro.

Travou no "bom".

E foi tomar café assim mesmo.

Ads
✦

O Que Achou da Historinha?

Toque nas estrelas para avaliar

O que achou desta história?

Compartilhe a Historinha:

Comentários (0)

Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar!

Historinhas Relacionadas