A Princesa que Preferia Lama a Coroa

No alto de uma colina coberta de flores silvestres havia um castelo de pedras claras chamado Castelo das Sete Janelas. E dentro dele morava a princesa Aurora — que, para a tristeza da corte inteira, era a princesa mais suja do reino.
Não que Aurora não gostasse de tomar banho. Ela gostava. O problema é que, entre o banho da manhã e o almoço, ela já tinha visitado o jardim, o galinheiro, o pomar e o riacho que passava atrás dos muros. E de todos esses lugares ela voltava com as mãos escuras de terra e a barra do vestido pintada de lama.
— Alteza — dizia dona Clotilde, a governanta, com a mão na testa —, princesas não cavam buracos.
— Mas alguém precisa plantar as sementes — respondia Aurora, com toda a lógica do mundo.
E dona Clotilde não sabia o que responder.
A Coroa Pesada
Aurora tinha uma coroa. Era de ouro, com pedrinhas azuis em volta, e havia pertencido à sua avó. Toda vez que chegava uma visita importante, dona Clotilde colocava a coroa na cabeça dela e dizia:
— Agora sim. Assim é uma princesa de verdade.
Aurora achava a coroa bonita. Mas achava também que ela era muito pesada, e que dava um jeito esquisito de andar — a gente precisava manter o pescoço bem duro para ela não escorregar. E, principalmente, com a coroa na cabeça ninguém a deixava chegar perto de nada interessante.
— Cuidado com o vestido, Alteza.
— Não encoste aí, Alteza.
— Sente-se direito, Alteza.
Aurora sentava. E olhava pela janela, para o jardim lá embaixo, onde o velho jardineiro Gaspar estava sempre curvado sobre alguma coisa que crescia.
A Seca
Naquele ano, a chuva não veio.
O verão foi passando e o céu continuou daquele azul duro, sem uma nuvem. O riacho atrás do castelo foi ficando fininho, depois virou um fio de água, depois virou só pedra seca. E as hortas do vilarejo, lá embaixo da colina, começaram a murchar.
Aurora via, da sua janela, as pessoas do vilarejo subindo e descendo com baldes, tentando salvar o que dava.
Uma tarde, ela desceu até o jardim e encontrou o velho Gaspar sentado no chão, olhando para os canteiros ressecados.
— Vai morrer tudo, Gaspar?
O jardineiro demorou a responder.
— A terra do vilarejo é boa, Alteza. Mas está cansada e sem água. Se ao menos a gente soubesse onde tem água escondida...
Aurora franziu a testa.
— Escondida?
— Debaixo do chão, Alteza. Sempre tem água debaixo do chão, em algum lugar. O difícil é achar.
O Que Aurora Sabia
Aurora subiu correndo para o quarto e puxou de baixo da cama uma caixa de madeira. Dentro dela havia coisas que dona Clotilde teria jogado fora na hora: pedrinhas de formatos estranhos, folhas secas, penas, e um caderninho cheio de anotações feitas com letra torta.
Porque Aurora não ficava só se sujando no jardim. Ela reparava.
Ela folheou o caderno até achar o que procurava.
"Atrás do muro leste, perto da pedra grande. A grama fica verde mesmo quando não chove. Os sapos gostam dali. A terra é escura e cheira a molhado."
Aurora tinha escrito aquilo no inverno passado, sem saber para que serviria.
Ela desceu voando as escadas, atravessou o pátio e foi até o muro leste. Lá estava: um retângulo de grama teimosamente verde no meio de todo o mato amarelo. Ela se ajoelhou, enfiou os dedos na terra e sentiu — fria e úmida, mesmo depois de tantas semanas sem chuva.
— GASPAR! — gritou ela, com uma voz que ecoou pelo castelo inteiro.
A Escavação
Naquela tarde, uma coisa nunca vista aconteceu no Castelo das Sete Janelas: a princesa Aurora, de vestido azul e mãos pretas de terra, cavava um buraco ao lado do jardineiro real, enquanto dona Clotilde assistia da porta com um lenço apertado nas mãos.
Cavaram. E cavaram. E cavaram.
O sol foi baixando, a terra foi ficando cada vez mais escura e mais fria, e Aurora estava com bolhas nas mãos quando a pá de Gaspar fez um som diferente. Um som molhado.
Água.
Primeiro veio uma poça. Depois uma poça maior. E então, devagarinho, a água começou a subir sozinha pelo buraco, limpa e gelada, vinda de algum rio secreto que corria debaixo da colina esse tempo todo.
Gaspar tirou o chapéu. Dona Clotilde deixou o lenço cair.
E Aurora, sentada na beira do buraco com lama até os cotovelos, riu como nunca tinha rido na vida.
O Reino Molhado
Em poucos dias, o povo do vilarejo tinha aberto um poço de pedra ali. A água subia fresca todas as manhãs, e as hortas voltaram a ficar verdes antes mesmo do fim do verão.
Fizeram uma festa para agradecer. E quando chegou a hora do rei falar, ele chamou Aurora à frente de todos e pegou a coroa da avó dela.
Aurora fez uma careta pequenininha, que só o rei viu.
Então o rei sorriu, virou a coroa de cabeça para baixo e a encheu de terra escura. Depois plantou nela uma mudinha de limoeiro e entregou nas mãos da filha.
— Uma coroa serve para mostrar quem é a princesa — disse ele, para que todos ouvissem. — Mas quem é a princesa, isso quem mostrou foi ela. Com as mãos sujas.
Aurora abraçou o vaso mais estranho e mais bonito do mundo.
Daquele dia em diante, ninguém mais no Castelo das Sete Janelas disse "princesas não cavam buracos". Aurora continuou voltando do jardim com a barra do vestido pintada de lama, e continuou anotando no caderninho as coisas que reparava — onde os sapos gostavam de ficar, de que lado o vento vinha, qual árvore floria primeiro.
Porque ela tinha descoberto uma coisa importante: prestar atenção no mundo é uma das formas mais bonitas de cuidar dele.
E o limoeiro da coroa, plantado depois num canto ensolarado do pátio, cresceu e cresceu — e até hoje dá os limões mais doces daquele reino.
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