A Princesa e o Cavalo que Ninguém Montava

5 min de leituraHistorinha para dormir
A Princesa e o Cavalo que Ninguém Montava
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No reino de Aldena, o cavalo mais bonito do estábulo era também o mais temido.

Ele se chamava Brasa: um cavalo preto, alto, de crina comprida e olho vivo.

E ninguém conseguia montar nele.

Quem tentava ia parar no chão. Não era maldade: era um jeito de dizer não, do único jeito que um cavalo sabe dizer.

Os que tentaram

O mestre-escudeiro tentou primeiro. Subiu de um pulo, com jeito de quem já domou muito cavalo, e desceu mais depressa do que subiu.

Depois tentou o capitão da guarda, que gritou com o cavalo. O Brasa empinou e o capitão saiu mancando.

Depois tentaram amarrar. Tentaram cansar. Tentaram até deixar sem comida, que foi a pior coisa que fizeram.

Cada tentativa deixava o Brasa mais arisco. Quando alguém chegava com uma sela na mão, ele já saía andando para o canto mais longe do cercado, com as orelhas viradas para trás.

O rei, cansado do assunto, mandou vender o animal.

A princesa Alice

A princesa Alice tinha doze anos e não gostava de festa.

Gostava do estábulo.

Passava as tardes ali, escovando cavalo, limpando casco, aprendendo com o Seu Anselmo, um cavalariço velho que trabalhava naquele estábulo desde antes de ela nascer.

Quando ela ouviu que o Brasa ia ser vendido, foi falar com o pai.

— Me dá trinta dias.

O rei achou graça.

— Aposto que não. Filha, homem grande e treinado não subiu nesse cavalo.

— Eu não vou subir nele.

O rei parou.

— Então o que você vai fazer?

— Nada — disse a Alice. — É esse o plano.

O primeiro dia

No dia seguinte, antes de entrar, o Seu Anselmo fez uma exigência.

— Uma regra, mocinha: você nunca entra aí sem mim do lado de fora, de olho. Cavalo não é bicho de brincar sozinho.

— Combinado.

Então a Alice entrou no cercado com um balde virado, pôs perto da cerca, sentou e ficou lá.

Não levou sela. Não levou corda. Não levou nem cenoura.

Sentou de lado para o cavalo, sem encarar, mas com ele sempre no canto do olho — nunca de costas, que é como gente se machuca.

O Brasa ficou no canto oposto, com as orelhas para trás, esperando a hora em que aquela menina ia se levantar e vir para cima dele.

Ela não veio.

Depois de uma hora, ela levantou e foi embora.

O cavalo ficou olhando ela sair.

A semana

No segundo dia, a mesma coisa. No terceiro também.

O Seu Anselmo assistia de fora, encostado na cerca.

— Você sabe o que está fazendo, mocinha?

— Estou deixando ele entediado — disse a Alice.

— Como assim?

— Ele acha que toda pessoa que entra aqui vem pegar alguma coisa dele. Eu não vou pegar nada. Uma hora ele vai querer saber por quê.

O velho ficou quieto um tempo, mastigando aquilo.

— Isso é coisa que você aprendeu onde?

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— Com o senhor. Só que o senhor faz com potro. Eu só estou fazendo com um cavalo grande e bravo.

O dia doze

Foi no décimo segundo dia.

A Alice estava sentada no balde, de lado, quando ouviu o casco na terra.

Tec. Tec. Tec.

Ela não virou. Não mexeu. Continuou olhando o chão, respirando devagar.

O Brasa parou a uns cinco passos, esticou o pescoço e ficou ali, cheirando o ar na direção dela.

Depois foi embora.

A Alice esperou ele estar bem longe para abrir o maior sorriso da vida dela.

De cinco passos para nenhum

Nos dias seguintes, a distância foi encurtando.

Cinco passos. Três. Dois.

No dia dezenove, ele encostou o focinho no ombro dela.

Ela não fez carinho, nem falou, nem virou. Deixou ele cheirar o quanto quisesse, e foi embora no fim da tarde do mesmo jeito de sempre.

No dia vinte e um, ela estendeu a mão para o lado, com a palma para cima, e esperou.

Ele encostou.

A sela

No dia vinte e cinco, a Alice levou a sela.

Mas não colocou no cavalo.

Colocou no chão, perto da cerca, e sentou ao lado da sela. Ficou a tarde inteira ali, com a sela por perto, para o Brasa entender que aquele objeto não ia pular em cima dele.

No dia vinte e seis, ela pôs a manta nas costas dele e tirou logo em seguida.

No vinte e sete, deixou a manta por mais tempo.

No vinte e oito, pôs a sela sem apertar a barrigueira, e deixou ele andar com aquilo solto, se acostumando com o peso e com o barulho.

No vinte e nove, apertou a barrigueira aos pouquinhos, com o Seu Anselmo do lado de fora contando os buracos, e deitou o peso do próprio corpo em cima do lombo, sem subir. O Brasa deu dois passos e parou.

O dia trinta

No trigésimo dia, o rei foi até o estábulo, junto com metade da corte, para ver a princesa perder a aposta.

A Alice estava no cercado com o Brasa selado, parado, calmo, e o Seu Anselmo segurando a cabeçada dele, do jeito que se faz na primeira vez.

Ela passou a mão no pescoço do cavalo. Falou baixinho uma coisa que ninguém ouviu.

Depois pôs o pé no estribo, subiu devagar e sentou.

O cavalo mexeu as orelhas, deu dois passos de lado — e ficou.

Ela deu uma volta no cercado, no passo, sem apressar.

E foi só.

Ninguém foi ao chão.

O que ela disse ao pai

Na saída, o rei, meio sem jeito, perguntou como ela tinha conseguido.

A Alice pensou um pouco.

— O senhor mandou homem forte, corda e grito. Isso tudo diz a mesma coisa para ele: eu quero uma coisa de você e vou tomar. — Ela alisou o pescoço do cavalo. — Eu passei vinte e cinco dias dizendo que não queria nada. Aí ele teve tempo de perguntar.

Depois

O Brasa virou o cavalo da princesa.

Continuou não deixando quase ninguém montar — com estranho, ele ainda andava para o canto do cercado, com as orelhas para trás.

Mas, quando a Alice chegava na porteira, ele atravessava o cercado inteiro para chegar perto dela.

E, no estábulo de Aldena, virou regra o que o Seu Anselmo passou a dizer para todo mundo que chegava com pressa:

— Com cavalo, quem tem tempo ganha de quem tem força.

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