A Princesa e o Cavalo que Ninguém Montava

No reino de Aldena, o cavalo mais bonito do estábulo era também o mais temido.
Ele se chamava Brasa: um cavalo preto, alto, de crina comprida e olho vivo.
E ninguém conseguia montar nele.
Quem tentava ia parar no chão. Não era maldade: era um jeito de dizer não, do único jeito que um cavalo sabe dizer.
Os que tentaram
O mestre-escudeiro tentou primeiro. Subiu de um pulo, com jeito de quem já domou muito cavalo, e desceu mais depressa do que subiu.
Depois tentou o capitão da guarda, que gritou com o cavalo. O Brasa empinou e o capitão saiu mancando.
Depois tentaram amarrar. Tentaram cansar. Tentaram até deixar sem comida, que foi a pior coisa que fizeram.
Cada tentativa deixava o Brasa mais arisco. Quando alguém chegava com uma sela na mão, ele já saía andando para o canto mais longe do cercado, com as orelhas viradas para trás.
O rei, cansado do assunto, mandou vender o animal.
A princesa Alice
A princesa Alice tinha doze anos e não gostava de festa.
Gostava do estábulo.
Passava as tardes ali, escovando cavalo, limpando casco, aprendendo com o Seu Anselmo, um cavalariço velho que trabalhava naquele estábulo desde antes de ela nascer.
Quando ela ouviu que o Brasa ia ser vendido, foi falar com o pai.
— Me dá trinta dias.
O rei achou graça.
— Aposto que não. Filha, homem grande e treinado não subiu nesse cavalo.
— Eu não vou subir nele.
O rei parou.
— Então o que você vai fazer?
— Nada — disse a Alice. — É esse o plano.
O primeiro dia
No dia seguinte, antes de entrar, o Seu Anselmo fez uma exigência.
— Uma regra, mocinha: você nunca entra aí sem mim do lado de fora, de olho. Cavalo não é bicho de brincar sozinho.
— Combinado.
Então a Alice entrou no cercado com um balde virado, pôs perto da cerca, sentou e ficou lá.
Não levou sela. Não levou corda. Não levou nem cenoura.
Sentou de lado para o cavalo, sem encarar, mas com ele sempre no canto do olho — nunca de costas, que é como gente se machuca.
O Brasa ficou no canto oposto, com as orelhas para trás, esperando a hora em que aquela menina ia se levantar e vir para cima dele.
Ela não veio.
Depois de uma hora, ela levantou e foi embora.
O cavalo ficou olhando ela sair.
A semana
No segundo dia, a mesma coisa. No terceiro também.
O Seu Anselmo assistia de fora, encostado na cerca.
— Você sabe o que está fazendo, mocinha?
— Estou deixando ele entediado — disse a Alice.
— Como assim?
— Ele acha que toda pessoa que entra aqui vem pegar alguma coisa dele. Eu não vou pegar nada. Uma hora ele vai querer saber por quê.
O velho ficou quieto um tempo, mastigando aquilo.
— Isso é coisa que você aprendeu onde?
— Com o senhor. Só que o senhor faz com potro. Eu só estou fazendo com um cavalo grande e bravo.
O dia doze
Foi no décimo segundo dia.
A Alice estava sentada no balde, de lado, quando ouviu o casco na terra.
Tec. Tec. Tec.
Ela não virou. Não mexeu. Continuou olhando o chão, respirando devagar.
O Brasa parou a uns cinco passos, esticou o pescoço e ficou ali, cheirando o ar na direção dela.
Depois foi embora.
A Alice esperou ele estar bem longe para abrir o maior sorriso da vida dela.
De cinco passos para nenhum
Nos dias seguintes, a distância foi encurtando.
Cinco passos. Três. Dois.
No dia dezenove, ele encostou o focinho no ombro dela.
Ela não fez carinho, nem falou, nem virou. Deixou ele cheirar o quanto quisesse, e foi embora no fim da tarde do mesmo jeito de sempre.
No dia vinte e um, ela estendeu a mão para o lado, com a palma para cima, e esperou.
Ele encostou.
A sela
No dia vinte e cinco, a Alice levou a sela.
Mas não colocou no cavalo.
Colocou no chão, perto da cerca, e sentou ao lado da sela. Ficou a tarde inteira ali, com a sela por perto, para o Brasa entender que aquele objeto não ia pular em cima dele.
No dia vinte e seis, ela pôs a manta nas costas dele e tirou logo em seguida.
No vinte e sete, deixou a manta por mais tempo.
No vinte e oito, pôs a sela sem apertar a barrigueira, e deixou ele andar com aquilo solto, se acostumando com o peso e com o barulho.
No vinte e nove, apertou a barrigueira aos pouquinhos, com o Seu Anselmo do lado de fora contando os buracos, e deitou o peso do próprio corpo em cima do lombo, sem subir. O Brasa deu dois passos e parou.
O dia trinta
No trigésimo dia, o rei foi até o estábulo, junto com metade da corte, para ver a princesa perder a aposta.
A Alice estava no cercado com o Brasa selado, parado, calmo, e o Seu Anselmo segurando a cabeçada dele, do jeito que se faz na primeira vez.
Ela passou a mão no pescoço do cavalo. Falou baixinho uma coisa que ninguém ouviu.
Depois pôs o pé no estribo, subiu devagar e sentou.
O cavalo mexeu as orelhas, deu dois passos de lado — e ficou.
Ela deu uma volta no cercado, no passo, sem apressar.
E foi só.
Ninguém foi ao chão.
O que ela disse ao pai
Na saída, o rei, meio sem jeito, perguntou como ela tinha conseguido.
A Alice pensou um pouco.
— O senhor mandou homem forte, corda e grito. Isso tudo diz a mesma coisa para ele: eu quero uma coisa de você e vou tomar. — Ela alisou o pescoço do cavalo. — Eu passei vinte e cinco dias dizendo que não queria nada. Aí ele teve tempo de perguntar.
Depois
O Brasa virou o cavalo da princesa.
Continuou não deixando quase ninguém montar — com estranho, ele ainda andava para o canto do cercado, com as orelhas para trás.
Mas, quando a Alice chegava na porteira, ele atravessava o cercado inteiro para chegar perto dela.
E, no estábulo de Aldena, virou regra o que o Seu Anselmo passou a dizer para todo mundo que chegava com pressa:
— Com cavalo, quem tem tempo ganha de quem tem força.
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