A Primeira Noite Longe de Casa

Bento pediu o mês inteiro.
Pediu no café da manhã. Pediu no caminho da escola. Pediu na fila do mercado. Pediu de novo no jantar, com aquela cara de quem está pedindo pela primeira vez.
— Mãe. Deixa eu dormir na casa do Léo.
E, num sábado, a mãe disse:
— Tá bom.
Bento quase caiu da cadeira.
A mochila
Ele arrumou a mochila três horas antes da hora.
Colocou o pijama. Colocou a escova de dente. Colocou a roupa do dia seguinte, dobrada errado.
E ficou olhando para o Bilu.
O Bilu era um cachorro de pelúcia sem uma orelha, que dormia com ele desde sempre.
Bento pensou. O Léo ia rir? Será que os meninos de sete anos ainda levavam bicho de pelúcia para dormir na casa dos outros?
Ele tirou o Bilu de cima da cama.
Colocou na mochila.
Tirou de novo.
Colocou de novo, mas bem no fundo, embaixo da roupa, onde ninguém ia ver.
A melhor noite do mundo
A primeira parte foi tão boa quanto ele tinha imaginado. Melhor, até.
Os dois primos jantaram macarrão. Fizeram uma cabana com o cobertor e duas cadeiras. Jogaram videogame até a tia mandar desligar, e depois mais um pouquinho. Contaram piada de bater porta. Riram tanto que o Léo cuspiu suco na parede.
A tia colocou um colchão no chão do quarto do Léo, do lado da cama, com lençol de dinossauro.
— Boa noite, meninos. Chega de conversa.
E apagou a luz.
A casa diferente
Foi aí que Bento percebeu.
Aquela casa fazia barulhos que ele não conhecia.
Na casa dele, ele sabia todos de cor. Sabia o barulho da geladeira, o barulho do ventilador do quarto dos pais, o barulho do portão do vizinho às onze da noite.
Ali não.
Ali tinha um relógio de parede fazendo tic, muito alto.
Tinha uma torneira pingando em algum lugar.
Tinha um cano que, do nada, fazia um estalo: tóc.
E, lá fora, tinha um cachorro que latia de vez em quando, bem longe.
Bento ficou de olho aberto no escuro, deitado de costas, com o cobertor até o queixo.
E, de repente, sem nenhum aviso, a casa dele ficou muito, muito longe.
O nó
Aquela coisa esquisita começou a subir na garganta dele.
Bento ficou com raiva de si mesmo. Ele tinha pedido o mês inteiro. Tinha implorado. Ele era grande.
Mas o nó não ligava para isso e foi apertando do mesmo jeito.
Ele pensou na mãe. Pensou na cama dele, que era mais dura que aquele colchão. Pensou no cheiro do travesseiro dele.
E pensou no Bilu, lá no fundo da mochila, em cima da cadeira, do outro lado do quarto.
Tão perto. E impossível de ir buscar, porque o Léo ia ver.
Bento apertou os olhos e ficou quietinho, tentando fazer o nó descer.
A voz no escuro
E aí, do alto da cama, veio a voz do Léo:
— Bento.
— Oi.
— Cê tá acordado?
— Tô.
Silêncio.
Depois:
— Bento. Eu não consigo dormir sem o Zezé.
Bento virou a cabeça no escuro.
— Zezé quem?
Veio um barulho de quem se mexe na cama, envergonhado.
— É um urso. Ele fica na estante. Aí eu tirei ele hoje, porque você ia dormir aqui.
Bento sentou no colchão.
— Léo.
— Quê?
— O Bilu tá na minha mochila.
Os dois
Léo acendeu o abajur.
Bento foi até a cadeira e tirou o Bilu do fundo da mochila, todo amassado.
Léo esticou o braço até a estante e pegou o Zezé, que era um urso marrom com uma camiseta desbotada.
Os dois ficaram se olhando, cada um com o seu, na luz amarelinha do abajur.
E começaram a rir. Riram de um jeito besta, daqueles de quem estava com vergonha de uma coisa boba e descobriu que o outro estava também.
— Apaga a luz — disse o Léo, rindo ainda.
Os barulhos com nome
No escuro, com o Bilu debaixo do braço, Bento ficou ouvindo a casa de novo.
Tic.
— Léo. Que barulho é esse?
— Relógio da sala. Meu pai não deixa tirar a pilha.
Tóc.
— E esse?
— É o cano do banheiro. Ele faz isso quando esfria. Minha mãe diz que a casa tá espreguiçando.
Bento achou graça disso.
Depois veio o latido lá longe.
— Esse eu sei — disse o Léo, já com a voz arrastada de sono. — É a Fumaça, da casa amarela. Ela late pra moto do entregador.
E aconteceu uma coisa engraçada.
Os barulhos eram exatamente os mesmos de antes. Mas agora cada um tinha nome, e dono, e explicação.
O relógio virou só o relógio da sala.
O cano virou a casa se espreguiçando.
O latido virou a Fumaça, da casa amarela, brigando com uma moto.
O sono chegando
O nó da garganta do Bento tinha desaparecido, e ele nem reparou em que momento.
Lá em cima, na cama, o Léo já estava respirando fundo, com o Zezé na cara.
Bento puxou o cobertor até o ombro, encaixou o Bilu embaixo do queixo e ficou acordado mais um pouquinho, escutando a casa.
Tic.
Tóc.
Amanhã ele ia contar tudo para a mãe. Ia contar do macarrão, da cabana de cobertor, do suco na parede.
Talvez não contasse a parte do nó na garganta.
Ou talvez contasse, sim.
E Bento dormiu na casa do Léo, na primeira noite dele longe de casa, com o cachorro de uma orelha só debaixo do braço.
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