A Pipa no Telhado do Seu Bento

Na rua do Juliano, a melhor hora do dia era às cinco da tarde.
Era quando o vento ficava bom. Um vento firme, que vinha lá de baixo da ladeira e subia, e levava a pipa junto sem precisar de muito esforço.
Naquela semana, o Juliano tinha uma pipa nova. Ele mesmo tinha feito: papel de seda amarelo e vermelho, varetas de bambu raspadas com cuidado, rabiola de retalho de lençol velho. Linha sem cerol nenhum, porque o pai dele tinha explicado bem explicado o que é cerol: vidro moído misturado na cola da linha, que corta que nem gilete. Corta pipa dos outros, corta pescoço de motoqueiro, corta a mão de quem solta.
A pipa subiu bonito. Subiu tanto que virou um pontinho, e o Juliano teve que apertar os olhos para achar ela no céu.
E foi aí, claro, que o vento virou.
O telhado errado
A pipa deu um mergulho de lado, girou duas vezes e desceu.
Juliano correu puxando a linha, tentando levantar de novo. Não deu.
Ele viu a pipa passar por cima do poste, passar por cima do pé de amora e ir aterrissar exatamente, precisamente, no pior telhado da rua inteira.
O telhado do Seu Bento.
Juliano parou de correr.
Os amigos que estavam na ladeira pararam também. Ficou aquele silêncio.
— Ferrou — disse o Duda.
As histórias do Seu Bento
O Seu Bento morava no sobrado do fim da ladeira, o único de dois andares, com um portão de ferro alto e pintado de verde.
Ninguém nunca entrava lá.
E, na rua, todo mundo sabia das histórias.
O Duda dizia que o Seu Bento guardava todas as bolas que caíam no quintal dele, num quarto cheio até o teto.
A Bia dizia que ele tinha um cachorro enorme que ninguém nunca viu, só ouviu.
E o primo do Duda jurava que, uma vez, o Seu Bento tinha furado uma bola de futebol com uma faca, na frente de todo mundo.
Juliano nunca tinha visto nada disso acontecer. Mas ele sabia de uma coisa que era verdade: o Seu Bento não falava com ninguém. Passava na rua de cabeça baixa, com uma sacola de pão na mão, e não respondia nem "boa tarde".
A decisão
Juliano ficou olhando para a pipa no telhado.
Ela estava lá, presa na calha, com a rabiola balançando no vento, amarela e vermelha, tão perto e tão longe.
— Deixa pra lá, cara — disse o Duda. — Faz outra.
— Eu levei três dias fazendo essa.
— Então faz em três dias de novo.
Juliano não respondeu.
Ele ficou um tempo pensando. E depois fez uma coisa que ninguém na rua tinha feito em anos.
Desceu a ladeira e bateu palma no portão verde do Seu Bento.
Os amigos ficaram lá em cima, olhando de longe, sem acreditar.
O portão
Demorou.
Juliano bateu palma de novo, já quase desistindo.
Aí a porta do sobrado abriu e o Seu Bento apareceu. De perto, ele era mais baixo do que Juliano lembrava. Tinha uns oitenta anos, uns óculos grossos e umas mãos com veia saltada.
Ele veio até o portão devagar, arrastando o chinelo, e ficou olhando o menino sem dizer nada.
Juliano engoliu em seco.
— Boa tarde, seu Bento. Minha pipa caiu no seu telhado.
O velho não respondeu na hora. Olhou para cima, para o telhado, depois olhou para o menino.
— Caiu, é?
— Caiu, senhor. É a amarela com vermelho.
O Seu Bento ficou mais um tempão olhando. E Juliano teve certeza de que ia ouvir um não.
Aí o velho destrancou o portão.
— Entra.
O quintal
Não tinha cachorro nenhum.
Tinha um quintal comprido de cimento, com um tanque, uma parreira de uva meio seca e um monte de vaso de planta encostado na parede.
E tinha uma escada de madeira, encostada no muro, do tipo que a gente vê em obra.
— Segura firme aqui embaixo — disse o Seu Bento. — Eu subo.
Juliano arregalou os olhos.
— O senhor?!
— Eu o quê? — O velho já estava colocando a escada de pé. — Quem subiu nesse telhado a vida inteira fui eu.
— Mas… o senhor é… — Juliano parou a tempo.
O Seu Bento entendeu mesmo assim e deu, pela primeira vez, um meio-sorriso.
— Sou velho. Não sou inútil. Segura a escada.
A subida
Juliano segurou a escada com as duas mãos, com força, com o coração na boca.
O Seu Bento subiu devagar, um degrau de cada vez, com a mão firme na lateral da escada. Chegou na beira do telhado, esticou o braço, pegou a pipa pela vareta, soltou a rabiola da calha com cuidado para não rasgar e desceu com ela debaixo do braço.
Quando pisou no chão, ele entregou a pipa para o menino.
E, antes de soltar, ficou olhando para ela.
— Bambu raspado — ele disse, passando o dedo na vareta. — Você que fez?
— Fiz.
— Tá bem-feita. — Ele virou a pipa. — Mas essa emenda aqui tá com cola demais. Fica pesado desse lado. Por isso ela puxou pra esquerda.
Juliano olhou. Era exatamente o que a pipa tinha feito antes de cair: puxado para a esquerda.
— Como o senhor sabe disso?
O Seu Bento devolveu a pipa e enfiou as mãos no bolso.
— Eu fazia pipa nesta rua quando não tinha nem asfalto. Era tudo terra. — Ele apontou a ladeira com o queixo. — A gente soltava daquela esquina ali.
As bolas
Na hora de ir embora, Juliano olhou para o canto do quintal.
Tinha uma caixa de papelão grande, encostada na parede, com umas cinco ou seis bolas murchas dentro. Umas de couro, umas de plástico, uma bem antiga, de gomos.
O Seu Bento viu que ele viu.
— Aquilo ali caiu aqui ao longo dos anos — ele disse. — Ninguém nunca veio buscar.
Juliano ficou quieto, sentindo uma coisa esquisita no peito.
Em todos aqueles anos, nenhuma criança da rua tinha feito o que ele acabou de fazer: bater palma no portão e pedir.
— Se o senhor deixar, eu falo com a molecada.
O Seu Bento coçou o queixo.
— Pode falar. Mas fala pra virem de dia, que de noite eu já tô dormindo.
De volta na ladeira
Juliano subiu a ladeira com a caixa de bolas nos braços e a pipa equilibrada em cima dela.
Os amigos vieram correndo, todos ao mesmo tempo, todos perguntando junto.
— Ele te deixou entrar?!
— Tem cachorro?
— Ele furou a pipa?
Juliano colocou a caixa no chão.
— Não tem cachorro nenhum. Ele subiu no telhado pra pegar minha pipa. — Ele empurrou a caixa com o pé. — E essas bolas são de vocês. Tá tudo aí. Nenhuma furada.
Ninguém soube muito bem o que dizer.
Na semana seguinte
Na semana seguinte, o Juliano refez a emenda da pipa com menos cola, do jeito que o velho tinha falado. A pipa parou de puxar para a esquerda e subiu mais alto do que qualquer outra da rua.
E, quando ele olhou para baixo, viu o Seu Bento parado no portão verde, aberto, de braços cruzados, olhando o céu.
Juliano acenou.
Demorou um pouquinho.
Mas o velho acenou de volta.
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