A Estrelinha que Chegou Atrasada

Todas as noites, as estrelas do céu tinham hora certa para acender.
Quando o sol terminava de se esconder atrás do morro, a Estrela Mais Velha dava o sinal — e pluft, pluft, pluft, todas acendiam juntinhas, formando o céu de sempre.
Todas, menos uma.
A estrelinha Pipoca vivia se atrasando.
Não era por preguiça. É que ela sempre parava para ver alguma coisa no caminho. Uma nuvem com formato de elefante. Um passarinho voltando tarde para o ninho. A lua subindo devagarinho por trás das árvores.
E quando ela chegava, o céu já estava todo aceso e ninguém precisava mais dela.
— Você de novo, Pipoca? — resmungava a Estrela Mais Velha. — Uma estrela atrasada não serve para nada.
Pipoca ficava com o brilho meio apagado de vergonha e ia acender lá no cantinho, sozinha.
A Menina que Não Dormia
Numa dessas noites, Pipoca chegou atrasada como sempre. O céu já estava cheio. Ela procurou um cantinho vazio e acendeu.
Foi então que ela reparou numa janela lá embaixo, num quarto de uma casa amarela.
Tinha uma menina acordada, sentada na cama, abraçada aos joelhos.
Pipoca chegou mais perto — o mais perto que uma estrela consegue chegar — e viu que a menina estava chorando baixinho, daquele jeito de quem não quer acordar ninguém.
Sem saber muito bem o que fazer, Pipoca fez a única coisa que sabia: brilhou. Brilhou com toda a força que tinha.
A menina levantou a cabeça. E viu, bem no meio do pedaço de céu que cabia na janela dela, uma estrelinha piscando.
Ela enxugou o rosto com a manga do pijama.
— Oi — sussurrou.
Pipoca piscou de novo.
A menina ficou olhando um tempo comprido. Depois deitou, puxou o cobertor até o queixo, e ficou olhando a estrelinha até os olhos pesarem.
E dormiu.
O Cantinho Certo
Na noite seguinte, Pipoca se atrasou de novo — mas dessa vez de propósito.
Ela esperou o céu encher, procurou o mesmo cantinho e acendeu bem em frente à janela da casa amarela.
A menina estava lá, esperando.
E foi assim todas as noites depois disso.
Um dia, a Estrela Mais Velha reparou.
— Pipoca, por que você insiste em acender nesse canto torto?
Pipoca apontou para baixo.
— Porque daqui dá pra ver aquela janela.
A Estrela Mais Velha olhou. Viu a menina na cama, com o rostinho virado para cima e um sorriso pequeno.
Ficou muito tempo calada.
— Ah — disse ela por fim, com a voz mais macia. — Então você não estava atrasada. Você estava chegando na hora certa de outra pessoa.
E nunca mais chamou Pipoca de atrasada.
Boa noite. Se você olhar pela janela agora, talvez tenha uma estrelinha esperando por você também.
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