Pingo, a Nuvenzinha que Chovia Cores

Bem alto, acima de onde os pássaros conseguem voar, ficava o Grande Reino do Céu. Lá, as nuvens eram muito organizadas. As nuvens grandalhonas e escuras cuidavam das tempestades, as nuvens branquinhas e frias cuidavam da neve, e as nuvens médias choviam água transparente para dar de beber às plantas.
O Rei Trovão, com sua voz que roncava alto, supervisionava tudo. A regra principal era uma só: "A água deve ser limpa e invisível!".
Mas havia o Pingo.
Pingo era uma nuvenzinha pequena, redonda e com bochechas sempre rosadas. Ele tinha um coração tão grande e sentia as coisas de forma tão intensa que, quando chovia, sua água nunca era transparente. Se Pingo estava feliz, ele chovia gotas amarelas e brilhantes. Se estava com frio, chovia um azul profundo. E se desse uma gargalhada, sua chuva virava uma festa de confetes líquidos cor-de-rosa!
Um dia, enquanto ajudava a regar um campo de margaridas, Pingo se empolgou ao ver uma borboleta e deixou cair uma chuva acidental de gotas laranjas e roxas.
— PAREM AS NUVENS! — estrondou o Rei Trovão. Ele flutuou até Pingo, soltando pequenas faíscas. — Pingo, olhe o que você fez! As margaridas brancas agora estão manchadas de roxo! Nuvem de verdade chove água limpa. Você é uma bagunça, garoto. Vá para os Picos Silenciosos até aprender a chover direito!
Triste, Pingo flutuou lentamente para longe, choramingando pequenas gotinhas azuis que pintavam as pedras no caminho. Ele se escondeu nas montanhas de pedra, achando que era a nuvem mais inútil de todo o céu.
Algumas semanas se passaram. De repente, uma sombra assustadora cobriu a terra. Era o Vento Cinzento, uma magia antiga e triste que se alimentava da alegria. O Vento Cinzento soprou forte sobre a floresta, o vale e os campos. Por onde ele passava, as cores desapareciam.
As árvores ficaram da cor de grafite. As araras vibrantes perderam o brilho, parecendo antigas fotografias em preto e branco. Até a água do rio ficou com um tom de poeira. A tristeza tomou conta de todos os animais, que pararam de cantar e de brincar.
Lá do alto, o Rei Trovão ordenou que todas as nuvens do reino chovessem o máximo que pudessem para lavar o feitiço. Choveu água limpa por três dias e três noites. Mas a água transparente escorria pelos troncos e pelas folhas sem mudar nada. A cor não voltava. O feitiço da tristeza não podia ser curado apenas com água.
Pingo, espiando por trás de um pico de pedra, viu o desespero do mundo lá embaixo. Ele viu o coelhinho que antes era dourado, agora cinza e tristonho. Pingo sentiu uma dorzinha no peito. Ele não se importava mais com o que o Rei Trovão diria. Ele precisava ajudar.
Ele respirou fundo, puxando todo o ar das montanhas, e se lembrou de todas as coisas maravilhosas que o faziam sentir emoções fortes. Ele pensou no gosto do vento quente de verão, no som das risadas dos filhotes, no calor do sol nascendo. Seu interior começou a brilhar e a borbulhar.
Pingo disparou pelo céu como um pequeno cometa. Ele parou bem no centro do vale cinzento e soltou tudo o que tinha guardado.
SPLASH!
Uma chuva como o mundo nunca tinha visto começou a cair. Não era água. Eram milhões de gotas de pura cor e magia! Gotas vermelhas que caíram sobre as rosas e as fizeram desabrochar na mesma hora. Gotas verdes e neon que tingiram as folhas das árvores, trazendo o frescor de volta. Gotas azuis, amarelas, laranjas e anil lavaram as penas dos pássaros, que imediatamente começaram a cantar.
A chuva de Pingo era morna, cheirosa e cheia de alegria. O Vento Cinzento não suportou tamanha explosão de vida e cores; ele soltou um guincho e se dissipou no ar, desaparecendo para sempre.
Quando Pingo terminou, ele estava pequenininho e cansado, mas sorria. O mundo estava ainda mais vibrante e lindo do que antes.
O Rei Trovão flutuou até ele, mas não estava zangado. O grande rei fez uma reverência, abaixando a cabeça de nuvens pesadas.
— Eu estava errado, Pingo. Nós chovemos para manter o mundo vivo, mas a sua chuva é o que faz a vida valer a pena. Você não é uma bagunça. Você é o Pintor do Céu.
A partir daquele dia, sempre que o mundo ficava um pouco triste ou o céu ficava cinza demais, as nuvens abriam espaço. E lá vinha o pequeno Pingo, pronto para derramar sua mágica chuva colorida e lembrar a todos que as nossas maiores diferenças são as cores que pintam a nossa história.
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