Os Pães que se Multiplicaram

11 min de leituraHistorinha para dormir
Os Pães que se Multiplicaram
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Na pequena aldeia de Betsaida, onde as casas eram cor de areia e o cheiro do mar estava sempre presente, vivia um menino chamado Benjamim.

Benjamim não era rico, nem famoso. Era apenas um menino curioso de bochechas rosadas que adorava ouvir histórias. Naquela manhã em particular, a aldeia estava em alvoroço. As pessoas corriam de um lado para o outro, ajeitando túnicas e calçando sandálias.

— Ele está aqui! O Mestre está aqui! — gritava o padeiro na esquina. — Dizem que Ele cura com o olhar e fala palavras que acalmam a alma — dizia a vizinha enquanto enchia um jarro de água.

Benjamim sabia de quem falavam. Falavam de Jesus, o homem de Nazaré. Benjamim puxou a saia da mãe. — Mãe, posso ir? Posso ir ver o Mestre?

A mãe sorriu, limpando as mãos de farinha no avental. Ela conhecia o coração do filho. — Podes ir, meu filho. Mas o dia vai ser longo e o sol está quente. Precisas de levar algo para comer.

Ela foi até à mesa de madeira rústica e pegou num pequeno cesto de vime. Dentro dele, acomodou com carinho o almoço da família, que era tudo o que tinham para aquele dia: cinco pães de cevada, pequenos e redondos, ainda mornos do forno, e dois peixinhos secos e salgados, embrulhados numa folha de parreira para conservar o sabor.

— É pouco, eu sei — disse a mãe, beijando-lhe a testa. — Mas é feito com amor. Vai com Deus, Benjamim.

Benjamim abraçou o cesto contra o peito e correu. As suas sandálias batiam na estrada poeirenta enquanto ele seguia a multidão. E que multidão! Parecia que o mundo inteiro tinha decidido ir ver Jesus. Havia milhares de pessoas: velhos apoiados em cajados, mães com bebês ao colo, homens fortes e crianças risonhas.

Eles caminharam até uma encosta verdejante perto do Mar da Galileia. A brisa que vinha da água era fresca, mas o sol brilhava forte no céu azul.

Quando Benjamim finalmente viu Jesus, ele esqueceu o cansaço. Jesus estava sentado numa pedra alta, rodeado pelos Seus amigos, os Discípulos. Ele não usava coroa, nem roupas de ouro. Usava uma túnica simples. Mas quando Ele falava, a voz d’Ele chegava aos ouvidos de Benjamim, lá longe, clara como um sino.

Jesus falou sobre o Reino de Deus. Falou sobre como os lírios do campo não tecem nem fiam, e mesmo assim são mais belos que as roupas dos reis. Falou sobre amar os inimigos e perdoar setenta vezes sete.

Benjamim estava tão hipnotizado pelas histórias que nem percebeu o tempo passar. O sol, que estava no alto do céu, começou a descer, pintando as nuvens de laranja e roxo. As sombras das árvores ficaram compridas.

E então, aconteceu algo que sempre acontece quando se salta uma refeição: a barriga de Benjamim fez um barulho. Grrrrronc. Ele olhou em volta. Não foi só a dele. Grrr… Ronc… O som da fome começou a espalhar-se pela multidão como uma onda. As crianças começaram a choramingar. Os idosos pareciam fracos.

Benjamim olhou para o seu cesto. Ele levantou a tampa de pano. O cheiro delicioso do pão de cevada subiu-lhe ao nariz. A boca encheu-se de água. Ele estava faminto. Ele podia comer aqueles cinco pães num piscar de olhos.

Lá na frente, perto de Jesus, havia uma confusão. Os Discípulos pareciam preocupados. Benjamim, sendo pequeno e ágil, esgueirou-se entre as pernas dos adultos para chegar mais perto e ouvir.

— Mestre — dizia um discípulo chamado Filipe —, o lugar é deserto e já é tarde. Manda esta gente embora para as aldeias vizinhas, para que comprem algo para comer.

Jesus olhou para a multidão com uns olhos cheios de compaixão. Ele não via uma multidão; Ele via pessoas. Ele via a fome delas. — Não precisam de ir embora — disse Jesus calmamente. — Deem-lhes vocês algo para comer.

Os Discípulos arregalaram os olhos. — Nós?! — exclamou Filipe, quase engasgado. — Mestre, nem com duzentas moedas de prata conseguiríamos comprar pão suficiente para que cada um recebesse um pedacinho! Há aqui cinco mil homens, sem contar as mulheres e as crianças!

Foi nesse momento que outro discípulo, chamado André, olhou para o lado e viu Benjamim. O menino estava ali parado, segurando o seu cesto com força.

Benjamim sentiu o coração disparar. Ele sabia o que tinha de fazer. A sua mãe tinha dito que aquele lanche era pouco. Mas Jesus tinha ensinado sobre partilhar. Benjamim olhou para os pães. Eram o seu almoço. Se ele desse, ficaria com fome. Mas então ele olhou para Jesus. E, ao olhar para o rosto bondoso do Mestre, a fome de Benjamim desapareceu, substituída por uma vontade imensa de ajudar.

Timidamente, Benjamim puxou a túnica de André. — Senhor… — sussurrou o menino.

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André olhou para baixo. — O que foi, rapaz?

— Eu… eu tenho isto — disse Benjamim, estendendo o cesto. — A minha mãe fez. São cinco pães de cevada e dois peixinhos. Não é muito, mas… o Mestre pode ficar com eles.

André sorriu, comovido pela inocência do menino. Ele levou Benjamim até Jesus. — Mestre — disse André —, está aqui um rapazinho que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas o que é isso para tanta gente?

Jesus olhou para o cesto. Depois, olhou para Benjamim. Jesus não riu. Ele não disse “Isso é pouco”. Pelo contrário, Ele sorriu como se Benjamim tivesse acabado de Lhe dar um baú cheio de diamantes.

— Mandem todos sentarem-se na relva — ordenou Jesus.

A multidão sentou-se, formando grupos coloridos na encosta verde. Havia um silêncio de expectativa no ar.

Jesus pegou no pequeno cesto de Benjamim. Ele segurou os cinco pães e os dois peixes nas Suas mãos. Ele olhou para o céu e deu graças a Deus. — Pai, obrigado por este alimento — orou Ele.

E então, o milagre começou.

Jesus partiu os pães e deu-os aos Discípulos para distribuírem. E partiu os peixes. Benjamim observava, de boca aberta. Jesus partia um pão ao meio, e as duas metades… continuavam inteiras nas mãos d’Ele. Ele tirava um pão do cesto, e outro aparecia no lugar. Era como uma fonte de água que nunca seca, mas era uma fonte de pão!

Os Discípulos iam e vinham com cestos cheios. — Pão quentinho! — gritava Pedro. — Peixe fresco! — gritava Tiago.

O cheiro de pão acabado de cozer invadiu a encosta. Não era pão velho e seco. Era o melhor pão que aquelas pessoas já tinham provado. Era macio, doce e satisfatório.

Benjamim comeu até não aguentar mais. O homem ao seu lado, que parecia muito zangado de fome antes, agora ria com a boca cheia. Uma menina perto dele partilhava o peixe com o seu gatinho.

A comida não acabava! Quanto mais Jesus partia, mais havia. Milhares e milhares de pessoas comeram. Todos ficaram satisfeitos. Ninguém ficou com fome naquele dia.

Quando todos estavam cheios, Jesus disse: — Recolham os pedaços que sobraram, para que nada se desperdice.

Os Discípulos foram com os seus cestos. E, para espanto de todos, eles voltaram com doze cestos cheios de sobras! Benjamim olhou para o seu pequeno cesto de vime, que agora estava com ele de novo. Tinha começado com cinco pães e dois peixes. Agora, havia doze cestos gigantes de sobra.

Jesus levantou-se e caminhou até Benjamim. Ele agachou-se para ficar da altura do menino e colocou a mão no ombro dele. — Obrigado, Benjamim — disse Jesus. — Porque tu partilhaste o pouco que tinhas, ninguém passou fome hoje.

Benjamim sentiu o rosto ficar quente de felicidade. Ele percebeu algo muito importante naquele momento. O milagre não foi apenas a comida aparecer. O milagre começou quando ele abriu mão do seu próprio lanche.

Quando voltou para casa naquela noite, o cesto estava vazio de pão, mas o coração de Benjamim estava cheio.

— Mãe! Mãe! — gritou ele ao entrar em casa. — Lembras-te dos pães que fizeste? — Sim, querido. Comeste tudo? — perguntou ela. — Eu não… — riu Benjamim. — Mas cinco mil pessoas comeram!

A mãe olhou para ele, confusa, mas ao ver o brilho nos olhos do filho, soube que ele tinha encontrado o Mestre. E naquela casa simples de Betsaida, eles aprenderam a lição que o mundo nunca mais esqueceria: nas mãos de Deus, quando oferecemos o nosso pouco com amor, ele transforma-se em muito. Transforma-se em suficiente. Transforma-se em milagre.

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