O Vento Norte e o Sol

Lá no alto, onde moram as coisas grandes do céu, o Vento Norte e o Sol começaram uma discussão.
Era sempre a mesma.
— Eu sou o mais forte — dizia o Vento Norte. — Eu arranco telhado. Eu dobro árvore. Eu levanto onda do tamanho de uma casa.
— Eu sou o mais forte — dizia o Sol. — Eu faço a semente brotar. Eu seco a roupa do varal. Eu esquento o mundo inteiro, todo santo dia, sem faltar um.
Eles passaram o dia inteiro nisso, sem chegar a lugar nenhum.
Até que o Vento Norte teve uma ideia.
A aposta
Lá embaixo, numa estrada de terra, um viajante caminhava sozinho, com um casaco marrom e um chapéu.
— Está vendo aquele homem? — disse o Vento. — Ganha quem conseguir tirar o casaco dele.
— Combinado — disse o Sol. — Pode começar.
E o Sol se recolheu atrás de uma nuvem, para esperar a vez dele.
O Vento Norte
O Vento Norte encheu o peito e soprou.
Veio uma rajada gelada que levantou a poeira da estrada, chacoalhou as cercas e fez o chapéu do viajante voar.
O homem correu atrás do chapéu, pegou, enfiou na cabeça de novo — e puxou a gola do casaco para se proteger.
O Vento soprou mais forte.
As árvores se dobraram. Os galhos gemeram. A poeira virou um redemoinho.
E o viajante, todo encolhido, apertou o casaco contra o corpo com as duas mãos.
O Vento soprou com tudo o que tinha, até ficar sem fôlego.
Quanto mais ele soprava, mais o homem se agarrava ao casaco.
No fim, o viajante estava tão enrolado nele que quase só aparecia o nariz.
— Chega — disse o Vento, ofegante. — Não dá. Esse casaco está grudado no homem.
O Sol
Então o Sol saiu de trás da nuvem.
Não fez barulho nenhum. Não empurrou nada.
Só começou a brilhar, devagarinho.
O vento parou. A poeira assentou. O ar foi ficando morno, e o viajante afrouxou os ombros, que estavam levantados perto das orelhas.
O Sol brilhou um pouquinho mais.
O homem desabotoou o primeiro botão.
O Sol brilhou mais um tanto.
Ele abriu o casaco todo e afrouxou a gola.
E aí o Sol esquentou de vez, daquele jeito bom de fim de tarde de verão.
O viajante parou no meio da estrada, tirou o casaco, dobrou no braço, tirou o chapéu para se abanar e ainda foi sentar debaixo de uma árvore, na sombra, para descansar um pouco.
O resultado
Lá de cima, o Vento Norte ficou olhando aquilo, sem falar nada.
— E então? — perguntou o Sol, sem se gabar.
— Você ganhou — admitiu o Vento. — Mas eu não entendi. Eu soprei com toda a minha força.
— Foi por isso — disse o Sol. — Quando você empurra uma pessoa, ela se fecha. Quando você aquece, ela abre sozinha.
Depois
Dizem que o Vento Norte pensou nisso por muito tempo.
Ele continuou sendo vento, é claro. Continuou levantando onda, virando guarda-chuva e empurrando nuvem de um lado para o outro do céu, porque isso é o trabalho dele e ele faz bem.
Mas aprendeu uma coisa sobre gente.
Que ninguém larga nada à força.
E que a única maneira de alguém abrir o casaco, ou abrir a porta, ou abrir o coração, é ser tratado com calor.
Esta fábula é atribuída a Esopo, que viveu na Grécia há mais de dois mil anos. O trecho final, sobre o que o Vento Norte aprendeu depois, é desta versão.
O Que Achou da Historinha?
Toque nas estrelas para avaliar
O que achou desta história?
Comentários (0)
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar!



