O Vento Norte e o Sol

3 min de leituraHistorinha para dormir
O Vento Norte e o Sol
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Lá no alto, onde moram as coisas grandes do céu, o Vento Norte e o Sol começaram uma discussão.

Era sempre a mesma.

— Eu sou o mais forte — dizia o Vento Norte. — Eu arranco telhado. Eu dobro árvore. Eu levanto onda do tamanho de uma casa.

— Eu sou o mais forte — dizia o Sol. — Eu faço a semente brotar. Eu seco a roupa do varal. Eu esquento o mundo inteiro, todo santo dia, sem faltar um.

Eles passaram o dia inteiro nisso, sem chegar a lugar nenhum.

Até que o Vento Norte teve uma ideia.

A aposta

Lá embaixo, numa estrada de terra, um viajante caminhava sozinho, com um casaco marrom e um chapéu.

— Está vendo aquele homem? — disse o Vento. — Ganha quem conseguir tirar o casaco dele.

— Combinado — disse o Sol. — Pode começar.

E o Sol se recolheu atrás de uma nuvem, para esperar a vez dele.

O Vento Norte

O Vento Norte encheu o peito e soprou.

Veio uma rajada gelada que levantou a poeira da estrada, chacoalhou as cercas e fez o chapéu do viajante voar.

O homem correu atrás do chapéu, pegou, enfiou na cabeça de novo — e puxou a gola do casaco para se proteger.

O Vento soprou mais forte.

As árvores se dobraram. Os galhos gemeram. A poeira virou um redemoinho.

E o viajante, todo encolhido, apertou o casaco contra o corpo com as duas mãos.

O Vento soprou com tudo o que tinha, até ficar sem fôlego.

Quanto mais ele soprava, mais o homem se agarrava ao casaco.

No fim, o viajante estava tão enrolado nele que quase só aparecia o nariz.

— Chega — disse o Vento, ofegante. — Não dá. Esse casaco está grudado no homem.

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O Sol

Então o Sol saiu de trás da nuvem.

Não fez barulho nenhum. Não empurrou nada.

Só começou a brilhar, devagarinho.

O vento parou. A poeira assentou. O ar foi ficando morno, e o viajante afrouxou os ombros, que estavam levantados perto das orelhas.

O Sol brilhou um pouquinho mais.

O homem desabotoou o primeiro botão.

O Sol brilhou mais um tanto.

Ele abriu o casaco todo e afrouxou a gola.

E aí o Sol esquentou de vez, daquele jeito bom de fim de tarde de verão.

O viajante parou no meio da estrada, tirou o casaco, dobrou no braço, tirou o chapéu para se abanar e ainda foi sentar debaixo de uma árvore, na sombra, para descansar um pouco.

O resultado

Lá de cima, o Vento Norte ficou olhando aquilo, sem falar nada.

— E então? — perguntou o Sol, sem se gabar.

— Você ganhou — admitiu o Vento. — Mas eu não entendi. Eu soprei com toda a minha força.

— Foi por isso — disse o Sol. — Quando você empurra uma pessoa, ela se fecha. Quando você aquece, ela abre sozinha.

Depois

Dizem que o Vento Norte pensou nisso por muito tempo.

Ele continuou sendo vento, é claro. Continuou levantando onda, virando guarda-chuva e empurrando nuvem de um lado para o outro do céu, porque isso é o trabalho dele e ele faz bem.

Mas aprendeu uma coisa sobre gente.

Que ninguém larga nada à força.

E que a única maneira de alguém abrir o casaco, ou abrir a porta, ou abrir o coração, é ser tratado com calor.

Esta fábula é atribuída a Esopo, que viveu na Grécia há mais de dois mil anos. O trecho final, sobre o que o Vento Norte aprendeu depois, é desta versão.

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